Covid-19 e diabetes. Vírus pode infetar células do pâncreas que produzem insulina

Vários estudos têm apontado que a Covid-19 pode realmente interferir com a produção de insulina, mesmo em pessoas anteriormente saudáveis.

Há meses que os médicos têm estudado a relação entre o coronavírus e a diabetes. Desde março deste ano que os cientistas têm levantado a hipótese de a Covid-19 poder, de facto, levar ao desenvolvimento da diabetes. Uma preocupação que aumenta, à medida que cada vez mais pessoas parecem estar a sofrer alterações nos níveis de glicose enquanto estão infetadas pelo coronavírus ou pouco depois de terem recuperado da infeção.

As explicações em cima da mesa para o fenómeno podem ser variadas, mas a mais proeminente, revelada em estudos recentes, é a de que o coronavírus, de facto, infeta as células pancreáticas e interfere com a produção de insulina (a hormona que ajuda a regular os níveis de glicose no sangue), levando a que pessoas anteriormente saudáveis desenvolvam diabetes após terem Covid-19. Em causa pode estar também uma resposta extrema dos anticorpos ao vírus que, acidentalmente, danifica as células do pâncreas ou uma qualquer outra inflamação no corpo pode tornar os tecidos menos sensíveis à insulina.

Em declarações ao jornal The Guardian, Shuibing Chen, investigador da Weill Cornell Medicine em Nova Iorque, conta como procurou estudar o fenómeno analisando várias células e organoides (falsos órgãos tridimensionais cultivados em laboratório), de modo a identificar como podiam estes ser infetados pelo coronavírus. Os resultados mostraram que os pulmões, o cólon, o coração, o fígado, o pâncreas e as células do cérebro podiam, realmente, ser infetados.

Entre os resultados, ficou claro, em particular, que as células produtoras de insulina dentro do pâncreas eram, elas próprias, suscetíveis de ser alvo, e, quando essa infeção acontecia, produziam menos insulina e outras hormonas

"As células mudam e em vez de produzirem muita insulina, começam a misturar diferentes hormonas", explica Shuibing Chen.

As conclusões do estudo foram apresentadas no encontro anual da Associação Europeia para o Estudo da Diabetes, esta quarta-feira, e foram apoiados por outra investigação feita na Universidade de Siena, em Itália, que também chegou a conclusões semelhantes e que revelou que, nos casos de doentes que já sofriam de diabetes, as infeções podem também agravar-se.

Os dados sugerem que os doentes que já tinham diabetes ou pré-diabetes encontram-se em maior risco de desenvolver uma disfunção do pâncreas, se apanharem Covid-19, adianta, ao The Guardian, um dos responsáveis pela investigação feita na universidade italiana, Francesco Dotta.

"Os pacientes com diabetes estão, em geral, mais suscetíveis à infeção pelo coronavírus em termos de frequência, mas, uma vez infetados, também desenvolvem complicações mais graves e desarranjos metabólicos severos", refere Francesco Dotta.

Os cientistas ainda não sabem, no entanto, dizer, para já, se estes efeitos causados pela Covid-19 serão duradouros.

"Sabemos que alguns pacientes que tiveram níveis instáveis de glicose quando estavam internados nos cuidados intensivos com Covid-19 depois recuperaram, o que mostra que pode não ser permanente em todos os casos", repara Shuibing Chen.

Para melhor monitorizar este fenómeno, está a ser criada uma base de dados global de casos de diabetes relacionados com a Covid-19. Para já, alertam os especialistas, tomar a vacina da Covid-19 continua a ser a melhor forma de proteção contra o vírus e o risco associados da diabetes.

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