Crónica de um português em Wuhan: o fim da longa quarentena

João Pedrosa decidiu ficar na cidade chinesa que foi o epicentro do novo coronavírus. Agora, escreve no site da TSF sobre o estranho dia a dia em Wuhan.

Ao fim de dois meses de recolhimento, finalmente foi-me possível deambular pelas ruas e passeios do bairro.

Eram 10 horas da manhã do dia 23 de janeiro do corrente ano de 2020, véspera dos sempre festivos feriados do Ano Novo Chinês, quando as portas da cidade de Wuhan, onde vivo e trabalho, foram fechadas para o mundo. À mesma hora todos os transportes públicos eram suspensos.

Nos dias imediatamente seguintes, a cidade imobiliza-se e, à exceção dos serviços de saúde e alguns supermercados, todas as atividades industriais e comerciais param. Os poucos habitantes que ainda percorriam as ruas juntaram-se aos muitos milhões que já se encontravam confinados aos seus lares.

No final da tarde do dia 15 de fevereiro, fico a saber que os portões dos bairros iriam ser gradualmente encerrados. Na manhã do dia seguinte, ainda tentei ir ao supermercado que existe à entrada da minha comunidade, mas não fui bem-sucedido. As entradas e saídas já não eram permitidas.

No dia 24 de fevereiro, as portas do prédio onde habito são trancadas. A medida foi aplicada a todos prédios do bairro onde foram identificados casos de Covid-19.

A partir do dia 10 deste mês, a situação começou a melhorar significativamente. Nos meados da semana passada deixou de ser registado qualquer caso. Perante tais resultados, as autoridades deram a permissão para que as empresas retomassem as suas atividades e que os pequenos negócios dos bairros pudessem fazer o mesmo.

Os portões das comunidades serão reabertos gradualmente, mas até lá são permitidas as saídas aos possuidores de certificados de saúde e trabalho.

Ontem as restrições impostas ao meu prédio foram canceladas.

O desejo de ir à rua era imenso. E assim o fiz, depois de me equipar devidamente.

A primeira coisa que me chamou a atenção foi o facto de haver total liberdade de circulação dentro da comunidade, mas poucos o estavam a fazer. Creio que se deverá à circunstância de ainda existir o receio latente de reincidência da doença.

Desloquei-me até à entrada do bairro e confirmei que os seus portões ainda estão barricados pelas autoridades.

Duas ou três bancas de rua vendiam verduras, arroz e óleo. Um pequeno de lugar de venda, não muito longe da minha porta, já dispunha de alguns artigos que me pareceram fazer falta na minha dispensa.

A capacidade de improvisação dos chineses nunca me deixará de surpreender: à porta da pequena mercearia, um casal procede ao corte de cabelos dos moradores e, parece não ter mãos a medir pois os dois meses de hibernação não foram capazes de parar o crescimento capilar.

Não sei por que razão criei expectativas de que o meu primeiro dia de "liberdade" seria um dia mais brilhante, mas os dramas que se estão a viver por esse mundo e no meu Portugal ofuscaram tal anseio. Tenho a convicção de que foi só um adiamento e que, no devido tempo, o celebrarei adequadamente.

Mantenham-se seguros e saudáveis!

João Pedrosa, em Wuhan (23 de Marco de 2020)

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