Joe Biden
eleições nos EUA

Das tragédias familiares aos consensos. Quem é Joe Biden, o 46.º presidente eleito dos EUA?

Os cabelos grisalhos e o ar de senador experiente fazem de Joe Biden o rosto da esperança para milhões de norte-americanos, capaz de devolver a tranquilidade a um país à beira de um ataque de nervos. Donald Trump tem-se aproveitado da avançada idade do democrata - 77 anos, que o podem tornar no Presidente mais velho de sempre dos EUA - para o chamar de "sleepy Joe" ("Joe sonolento"), mas Biden acredita que os cidadãos norte-americanos não se importariam de descansar um pouco depois de quatro anos de um turbulento governo republicano, que deitou por terra convenções e tratados internacionais.

Moldado por tragédias familiares, que acabaram por fazer dele um político com zero radicalismos e defensor dos direitos civis, Biden é um homem que domina a arte de saber para onde vai o vento da opinião pública. Fique a conhecê-lo melhor.

Origem humilde e problemas de gaguez

Joseph Robinette Biden Jr. nasceu em Scranton, na Pensilvânia, a 20 de novembro de 1942, no seio de uma família católica irlandesa. O pai era vendedor de carros, uma origem humilde, com raízes na classe trabalhadora, de que o democrata ainda muito se orgulha.

Ainda em criança mudou-se para Delaware. Nesta fase da sua vida teve problemas de gaguez, que acabou por superar e hoje encara como uma bênção que o permite "compreender a dor de outras pessoas".

Durante a carreira política tem mantido laços estreitos com ambos os estados, embora Trump o tenha acusado de ter "abandonado" a Pensilvânia.

Em jeito de resposta ao republicano, o candidato presidencial democrata foi até à sua cidade Natal, na Pensilvânia, no último dia de eleições. Visitou a casa onde passou os primeiros anos de vida, tirou fotos ao lado de Anne Kearns, a mulher que hoje mora na casa que foi da sua família, e prometeu, caso seja eleito, unir o país de origem e reconstruir uma classe média abalada pelas desigualdades económicas.

Percurso político. De mais jovem senador dos EUA a vice de Obama

Biden concorreu à nomeação democrata para as eleições presidenciais de 1988 e 2008, ano em que desistiu para se juntar à equipa de Obama. Quando o ex-Presidente o convidou para vice-presidente, o então senador veterano recusou, alegando que a vice-presidência era como ser enterrado vivo.

"Alguém se consegue lembrar do nome do vice do Lincoln?", perguntou Biden aos assessores. Uma resposta que, na altura, deixou a sua mulher, Jill Biden, furiosa. Com um percurso político construído com base na defesa dos direitos civis, Jill defendia que ajudar a eleger o primeiro candidato negro dos Estados Unidos seria a cereja em cima do bolo na carreira do marido e Joe Biden acabou por mudar de ideias.

Conhecido como "Joe da Classe Média", o democrata foi convidado por Obama para ajudar a conquistar os eleitores democratas brancos, que mostraram ser um grupo difícil de convencer pelo antigo Presidente.

No entanto, Joe também trouxe na bagagem vantagens da ligação a Obama. Os oito anos que passou na Casa Branca, onde aparecia frequentemente ao lado do Presidente, permitiram-lhe, durante estas eleições, reivindicar grande parte do legado, incluindo a aprovação da Lei de Cuidados Acessíveis, bem como o pacote de estímulos e as reformas promulgadas em resposta à crise financeira. Além disso, a relação que construiu com Obama, a quem costuma tratar como "irmão", também podem ter contribuído para conquistar eleitores afro-americanos.

Mas antes dos dois mandatos a apoiar o primeiro Presidente negro, Joe Biden já tinha uma longa carreira política. Senador com seis mandatos em Delaware, foi eleito pela primeira vez em 1972. Em 1988, 16 anos depois, concorreu à presidência, mas retirou-se depois de admitir ter plagiado o discurso do então líder do Partido Trabalhista Britânico, Neil Kinnock.

Biden foi também um feroz defensor de muitas leis federais sobre a criminalidade. Liderou a Lei de Controlo ao Crime Violento em 1994, que também ficou conhecida como "Lei Criminal Biden", e criou a pioneira Lei de Violência Contra as Mulheres, que incluía vastas medidas para combater a violência doméstica.

Tragédias familiares construíram o lado humano

Em 1972, com 30 anos e pouco depois de vencer a sua primeira corrida ao Senado por Delaware, Joe Biden perdeu a primeira mulher, Neilia Hunter, e a filha de um ano, Naomi, num acidente de carro enquanto faziam compras de Natal. O juramento de posse para esse primeiro mandato foi feito no quarto de hospital, ao lado das camas dos filhos mais novos, Beau, de quatro anos, e Hunter, de dois, que sobreviveram com ferimentos graves.

A criar os filhos sozinho, o democrata ponderou abdicar do cargo no Senado, mas não desistiu. Em vez disso ficou conhecido por "Amtrak Joe" pelas longas viagens de comboio - entre Wilmington (Delaware) e Washington -, de três horas, que fazia diariamente até ao Capitólio e, ao fim do dia, no regresso a casa.

Três anos depois de perder a primeira mulher, Biden conheceu Jill Jacobs, uma professora universitária da Pensilvânia, com quem casou e teve uma filha, Ashley.

O filho Beau acabaria por morrer mais tarde, em 2015, aos 46 anos, com um cancro no cérebro. Na altura, o jovem Biden era visto como uma estrela em ascensão na política norte-americana e tinha a intenção de concorrer a governador do estado de Delaware em 2016. Apesar da doença, Beau concorreu e durante a campanha usou as tragédias da família para mostrar como a saúde, uma das suas preocupações políticas, era tão pessoal para si como candidato.

Após a morte de Beau, Biden ficou com reputação de homem de família amável.

Já Hunter, o outro filho de Biden, foi um problema para o pai nesta campanha eleitoral. Com uma carreira acidentada como advogado, Hunter entrou na direção de uma empresa de gás ucraniana que foi acusada de corrupção quando o democrata era vice-presidente.

Donald Trump usou esse facto para pressionar a Ucrânia a investigar o filho de Biden, com o objetivo de atacar a sua candidatura, mas o tema acabou por perder força.

Expert em fechar acordos com republicanos

As perdas familiares que foi tendo ao longo da vida moldaram Joe Biden como um homem com zero radicalismo. Tornou-se um político para quem um bom acordo sempre foi melhor do que uma vitória que deixava rancores do outro lado, algo que fez dele um especialista em fechar acordos com a oposição.

Uma das suas especialidades é saber também para que lado correm os humores dos eleitores. Na década de 1990, quando os norte-americanos estavam preocupados com a segurança pública, o democrata votou a favor do Código Penal que aumentou a pena para o crime de posse de droga e em 2001, quando o país estava em choque com os atentados do 11 de Setembro, apoiou a guerra no Iraque.

A estratégia repetiu-se em 2006. Com a guerra a trazer mais problemas que soluções, Biden passou a apelar à retirada das tropas norte-americanas do Iraque. E não foi muito diferente quando se tornou vice-presidente. No início do governo de Obama, levado pelos conservadores, Joe Biden tentou afastar o projeto de saúde Obamacare e a obrigatoriedade de os hospitais católicos distribuírem contraceptivos. Uma perspetiva que mudaria quatro anos depois, quando Barack Obama, por questões eleitorais, tentava não tomar posições em relação ao casamento gay e Biden se tornou na principal voz do governo a defender os direitos dos casais homossexuais.

Para uns, estas mudanças de Joe Biden soam a falta de princípios e oportunismo. Para outros, mais não são que evoluções que o democrata vai fazendo, à medida que a sociedade se transforma. Apesar dos 77 anos, o candidato à presidência dos EUA parece entender o espírito dos tempos.

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