Desigualdade aumenta mortes por Covid-19 nos EUA. Números diários iguais aos do 11 de Setembro

Os Estados Unidos da América já ultrapassaram a marca dos 900 mil óbitos devido à Covid-19, e os investigadores traçam o retrato de um país desigual para justificar o maior número de mortes do mundo desenvolvido.

Os Estados Unidos da América são o país com o registo mortal mais elevado devido à Covid-19. Desde o início da pandemia, foram reportados 900 mil óbitos associados ao coronavírus SARS-CoV-2. Este número ultrapassa a população das cidades mais habitadas do território norte-americano: São Francisco, Washington DC e Boston. Os EUA são os detentores da maior taxa de mortalidade devido à Covid-19 entre todos os países desenvolvidos, sendo que metade das mortes aconteceu após o início da vacinação.

Os investigadores atribuem a dimensão destes registos à desigualdade acentuada de rendimentos, à pobreza na saúde e às grandes divisões políticas que ainda marcam o país. De acordo com o jornal The Guardian, estes fatores contribuíram para que o combate à pandemia fosse feito sem unidade, coerência e proatividade. Megan Ranney, especialista de Saúde Pública da Universidade de Brown, sustenta que "tudo isto coloca as pessoas em maior risco de morte por Covid-19".

O que aconteceu, explica, foi um atraso no ritmo de vacinação, sobretudo em comparação com outros países ricos. O sistema de saúde norte-americano já apresentava várias falhas quando começou a ser atingido por vaga após vaga de Covid-19. Outros países com números de mortes igualmente altos no início da pandemia apresentaram, no entanto, menos óbitos devido à variante Ómicron. Nos EUA, o número de mortes causadas por esta nova variante já supera o registo desencadeado pela Delta, no outono de 2021. Aliás, o último mês foi um dos mais mortais de toda a pandemia no território.

Contudo, os líderes norte-americanos estão a tentar reproduzir o regresso à normalidade pré-pandémica a que outros países estão a aderir, já numa situação epidemiológica, de mortes e hospitalizações, bem diferente. Todos os dias continuam a morrer tantas pessoas quantas as baixas ocorridas nos ataques do 11 de setembro (2977).

Megan Ranney aponta a taxa de vacinação como o maior obstáculo para o fim da pandemia. A taxa de vacinação é mais baixa do que em outros países ricos. Perto de 64% dos norte-americanos estão vacinados, e apenas 48% das pessoas nos EUA receberam a dose de reforço.

William Hanage, professor de Epidemiologia na Escola de Saúde Pública TH Chan de Harvard, salienta que há várias regiões do país em que a taxa de não vacinados é muito elevada, "o que piora tendo em conta que, com a Ómicron, para se ter uma grande proteção, é preciso ser vacinado com a dose de reforço".

Também persistem problemas no acesso às vacinas. As pessoas com mais recursos viram alargadas as oportunidades para serem vacinadas, mas as famílias mais pobres ainda têm dificuldade no acesso à toma, e não têm forma de despender de tempo para a recuperação de quaisquer efeitos colaterais. Perto de 15% a 20% dos norte-americanos não vacinados dizem que não se trata de desinteresse, mas de falta de oportunidade. São, em simultâneo, as pessoas mais carenciadas e não vacinadas que apresentam o maior risco de contaminação com o SARS-CoV-2. "São as pessoas com maior risco de exposição ao coronavírus que têm a menor probabilidade de serem vacinadas ou de tomarem medidas para se protegerem, devido ao medo de falharem dias de trabalho, e, por isso, perderem rendimentos", esclarece o investigador de Harvard.

Os Estados Unidos são o mais desigual dos países do G7. Os investigadores destacam o facto de a administração norte-americana não garantir o pagamento de baixas, mas também o sistema de saúde "em rutura". Nos EUA, quem não tem seguro de saúde tem de esperar por muito mais tempo para ser visto por um médico. A falta de recursos também está na origem de maior risco de outras doenças prévias.

Megan Ranney defende que "há muitas formas de as desigualdades serem plasmadas nas taxas de mortalidade" e que, "com a Covid-19, já não há forma de esconder os problemas subjacentes".
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