epa09935552 European Commission President Ursula von der Leyen (2-L), European Parliament President Roberta
Dia da Europa

Desigualdades, participação jovem, migrações e clima. O futuro da Europa pela voz dos cidadãos

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Sandro, Diogo, Inês e Carlos foram selecionados para participar na discussão em Estrasburgo. Embora de gerações diferentes, a leitura é comum: o papel dos jovens é determinante.

O Dia da Europa foi esta segunda-feira assinalado no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, e coincidiu com o encerramento da conferência sobre o Futuro da Europa, que teve a participação dos cidadãos europeus nas propostas apresentadas a Ursula Von der Leyen, Roberta Metsola e Emmanuel Macron. A TSF falou com quatro portugueses, selecionados aleatoriamente, que estiveram envolvidos nos painéis e fizeram recomendações sobre aquilo que deve ser o futuro europeu.

Sandro: as desigualdades no futuro "promissor" na Europa

Sandro Almeida tem 30 anos, é psicólogo, vive na Alemanha e fez parte do painel 1: "Economia mais forte, justiça social e emprego; Educação, cultura, juventude e desporto; Transformação digital." Para Sandro, esta conferência foi importante para que "fossem discutidas e formuladas ideias que possam ser aplicadas em todos os países [da União Europeia] de igual maneira".

O português conta como foi o processo até chegar até este dia: "Estava a trabalhar e recebi um telefonema com o convite, no início fiquei um bocadinho espantado." Decidiu aceitar, porque "o projeto foi bastante aliciante, no sentido em que desde o início nos foi transmitida a ideia de que as conferências seriam um projeto pioneiro. Trazer pessoas de 27 países, de diferentes idades e gerações e tentar trabalhar de forma conjunta. Quando ouvi esta ideia, pensei: Porque não?"

Sandro explica que "houve discussões e debates constantes, sempre de forma muito respeitosa e paciente", e sublinha a questão das desigualdades na União Europeia. "A Europa a 27 é uma Europa muito desigual. Apesar de haver países que estão a desenvolver-se muito bem, como a Dinamarca, a Noruega, a Alemanha, há muitos países dos 27 que estão em grandes dificuldades", considera, sublinhando que a Europa deve trabalhar exatamente "de forma a nivelar as disparidades entre os países".

Sobre o futuro da Europa, Sandro pensa ser "promissor" e frisa a importância da participação e do interesse dos jovens nas questões políticas, nomeadamente no que respeita a alterações climáticas, desigualdade entre géneros e acesso à educação e ao trabalho.

Já relativamente à guerra na Ucrânia, Sandro considera que "se a Ucrânia não ganhar, o futuro europeu está em causa" e espera que a Europa mostre a sua solidariedade, a capacidade de trabalhar em conjunto e de ter um papel ativo na ajuda ao país invadido. "Eu não sou contra os russos, sou a favor que a Ucrânia seja ajudada, porque esta guerra não faz muito sentido."

Diogo: a participação dos cidadãos e jovens nos assuntos europeus

Diogo Oliveira, de 23 anos, é finalista do curso de Estudos Europeus na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e, em setembro, vai iniciar um mestrado na área de Relações Internacionais, no ISCSP.

"O ano passado, por volta de julho ou agosto, estava de férias, ligaram-me e explicaram muito rapidamente em que é que se baseava o projeto. No início fiquei um pouco confuso, porque uma pessoa nunca está à espera de um projeto destes. Depois enviaram-me o resto das informações por email para eu estar mais a par do que ia ocorrer", recorda Diogo, que afirma que aceitou participar por ser algo que está ligado à sua área de estudos. "É um exercício sem igual e não podia simplesmente dizer que não a esta oportunidade."

Esteve no Painel 2, onde se trataram questões relacionadas com a democracia, a segurança e a participação dos cidadãos. "Fiquei num painel mais virado para a participação dos cidadãos e dos jovens, e para a forma como a UE podia dar as suas informações de forma mais fácil, para os jovens terem conhecimento do que é que se faz realmente, sobre como agilizar a relação entre a UE, jovens e adultos também, tanto nas escolas como na participação em debates", explica. Relativamente às recomendações feitas pelo seu grupo de trabalho, Diogo destaca que deveria "haver mais debates criados pela UE em vários países, deve fomentar-se a relação entre os deputados nacionais e os cidadãos do próprio pais, e haver relatórios dos trabalhos dos eurodeputados e dos cidadãos".

O jovem considera que a Europa tem agido bem no que toca ao acesso ao trabalho, mas admite que ainda há melhorias a fazer, como nas diferenças salariais e no respeito pelas diferenças culturais. Por isso, Diogo espera que a Europa tenha um futuro "mais verde, mais amigo do ambiente e dos países fora da Europa".

Para Diogo, os jovens como ele são o futuro e têm um papel "extremamente importante. Há pessoas de 16 anos que vieram cá e deram a sua opinião... Devia ouvir-se mais os jovens em questões como o emprego, saúde e ambiente", considera.

Diogo espera também um futuro sem guerra na Europa. "A UE deve ter um papel de ajuda e coesão do seu território. Se a Ucrânia faz parte da Europa em termos geográficos, acho que a UE só tem o dever de apoiar de forma militar, de forma económica, agilizar o processo de adesão da Ucrânia como membro da UE. Por isso acho que é um dever da UE ter esse papel fundamental. Acho que os refugiados podem ser melhor incluídos na sociedade europeia, tanto em Portugal, como noutros países."

Inês: a guerra na Ucrânia e as sanções da União Europeia

Inês Pascoal da Silva tem 24 anos, é estudante de Ciências da Visão, trabalha numa esplanada, aos fins de semana, e também em limpezas. Para esta jovem, a participação na conferência sobre o Futuro da Europa começou por volta de outubro do ano passado. "Na semana em que me ligaram soube que não ia ser possível fazer algumas cadeiras da faculdade, estava super triste e um dia ligaram-me e por acaso atendi. Começaram a falar sobre o que era a conferência que, para mim, iria começar dali a uma semana porque a rapariga no meu lugar tinha desistido. Soube na segunda e na quinta já estava aqui."

"Tenho por hábito dar opiniões, mesmo que não saiba muito sobre os assuntos. Aquilo que sei tento sempre questionar. E pensei: porque não ir a Estrasburgo questionar coisas?"

Inês fez parte do painel sobre a UE no mundo e as migrações, um tema que se tornou especialmente importante depois da escalada do conflito entre a Rússia e a Ucrânia. Admite que sobre o tema pouco sabia e por isso teve de investigar e pesquisar para poder aprofundar as suas questões. "Foram pertinentes para tentar saber coisas. A meu ver, as duas propostas sobre as sanções serem eficazes e mais rápidas a serem processadas não são nada de novo. Só queremos que as coisas sejam fiscalizadas. Eliminar a unanimidade relativamente a segurança e defesa. É preciso que, por dentro, a casa esteja arrumada para que consigamos trazer pessoas novas sem ser por unanimidade", explica.

Relativamente às sanções, houve uma proposta que foi totalmente aprovada, diz Inês: "Que haja alguém que controle e que seja transparente. As sanções que já existem e que podem ser aplicadas a entidades, estados-membros, indivíduos, diz-se que vão ser aplicadas, mas não são efetivamente aplicadas. Não achamos que isso seja correto", sublinha.

Para o futuro da Europa, Inês espera que haja mais união. "É aquilo que falta. Se existisse união, a unanimidade não seria nenhum problema, nem estaria a ser debatida, porque iria tudo tentar remar para o mesmo lado e não tentar dificultar as coisas."

Para os jovens, o futuro é "mais difícil". Contudo, Inês reconhece que têm sido "muito ativos".

"Compreendo quem não participe, há muito pouca informação sobre política no geral", reconhece, frisando que também foram dadas recomendações no sentido de haver mais transparência e mais informação sobre o que cada instituição europeia faz.

Carlos: o combate às alterações climáticas

Carlos Vítor é mais velho. Tem 49 anos e é funcionário público na área do emprego. "Estava para ir de férias e recebi na secretária do meu trabalho uma chamada de uma empresa que estava a fazer uma seleção de cidadãos europeus para participarem nas conferências sobre o futuro da Europa", recorda, afirmando que é "interessado sobre estas questões de política europeia e nacional". Por isso, "foi uma oportunidade interessante. Sermos nós, enquanto cidadãos, podermos decidir alguma coisa sobre as políticas que nos regem é fundamental".

"Os cidadãos foram chamados a pronunciar-se sobre assuntos em que não se sentiam confortáveis, temas completamente desconhecidos em muitos casos, o que nos dá uma perspetiva diferente daquilo que é o sentido comum, do que é ser cidadão europeu quando confrontado com questões de que não estamos habituados a tratar", reconhece.

Carlos participou no painel sobre alterações climáticas e saúde, e uma das suas propostas passou mesmo para as conclusões finais: é sobre o financiamento, por parte dos cidadãos europeus, do tratamento do lixo. "Expliquei que, em Portugal e noutros países do contexto europeu, provavelmente um cidadão alemão ou finlandês teria facilidade em pagar pelo seu próprio lixo e a sua reciclagem, ao passo que um cidadão português, húngaro ou búlgaro, talvez tivesse dificuldades acrescidas. Não seria justo os cidadãos dos vários Estados pagarem a mesma coisa pelo mesmo serviço quando, na verdade, em termos de rendimento, são diferentes."

Mas há outras dimensões que devem ser tidas em conta pela União Europeia no âmbito da luta contra as alterações climáticas, como a "redução das embalagens plásticas dos produtos comercializados na Europa ou a taxação das empresas que não contribuam para a redução da pegada ecológica nos produtos que produzem".

Carlos, "europeísta convicto", refere que a Europa tem "várias culturas, línguas e religiões, um emaranhado de várias diferenças", mas, apesar de tudo, "está no bom caminho para uma sociedade europeia mais justa e solidária", no fundo há um "caminho em construção."

Carlos aplaude também a participação dos jovens nestas conferências. "São um público muito volátil a nível das decisões estruturantes. Em termos europeus, há sempre uma mensagem de esperança", de que apesar de serem jovens, a Europa "conta com eles para a solução e para as decisões do seu futuro".

A par dos outros três portugueses, a guerra é algo que também preocupa Carlos. "É importante que a UE esteja do lado do país que foi agredido pela Rússia e temos de dar, enquanto europeus, uma mensagem forte ao país invasor, que pretende fazer com que aquilo que é a sua vontade seja imposto aos outros povos sem que estes outros possam ter o apoio da UE."

Carlos apoia as sanções que estão a ser tomadas pela União Europeia. "A UE tinha relações comerciais e contratos com a Rússia, mas à medida que o conflito for avançando deve ir cessando estes contratos. Aquilo que está a fazer é o mais adequado, ou seja, ajudar financeira e militarmente", considera, frisando ser essencial não ser a UE a "intervir diretamente naquilo que é a política externa da Ucrânia e na sua relação".

A UE deve transmitir a ideia de que "vamos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para que a Ucrânia não seja engolida pela Rússia", finaliza.

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