Dez anos depois, o que aconteceu aos 33 mineiros que passaram dois meses debaixo de terra?

A fama do primeiro ano após o resgate que correu o mundo criou expectativas de uma vida melhor para "os 33 de Atacama" que acabaram por não se revelar reais.

Já passaram dez anos. Uma década depois daqueles 69 dias, seis horas e 51 minutos em que 33 homens estiveram presos a cerca de 700 metros de profundidade numa mina de ouro e cobre no norte do Chile.

Se terminou com um final feliz a história dos 32 chilenos e um boliviano resgatados da mina de San Jose, em pleno deserto de Atacama, a realidade é hoje mais dura. O estrelato foi breve e agora os antigos mineiros lidam com doença, desemprego e processos judiciais.

"É triste constatar que dez anos depois eles não estão uma situação muito melhor do que aquela em que estavam antes do acidente", conta à TSF a jornalista Sylvia Colombo, correspondente da Folha de São Paulo para a América Latina.

Depois do resgate, no dia 13 de outubro de 2010, as pessoas foram para a rua comemorar como se os mineiros fossem vencedores do Mundial de futebol. Houve uma grande cobertura mediática do caso e os mineiros "criaram expectativas muito grandes" que não eram reais, nota Sylvia Colombo.

Além disso, são pessoas "muito humildes", que nunca tinham saído daquela região isolada, lembra, e não faltaram pessoas com interesses, como advogados, lhes disseram que iam ficar milionários.

"Para eles era um grande evento de repente ser convidado para ir à Disneylândia, a Jerusalém, a uma partida do Manchester United, a vários países ou ao programa do David Lettermen", onde Edison Peña fez uma imitação de Elvis.

A grande agitação desse primeiro ano de fama "fez antever que a vida ia passar a ser assim para eles. Mas não foi".

Se um ano depois do resgate os antigos mineiros "ainda estavam muito agradecidos" ao então presidente Sebastián Piñera, neste momento esperavam mais reconhecimento público e gostavam que a pensão vitalícia que recebem, o equivalente a pouco mais de 400 euros, fosse maior.

Edison Peña diz que se sentiu "muito usado" porque foi recrutado para anúncios publicitários que acabaram por ser muito mal pagos. Também o reconhecimento na rua o incomodava devido à superstição - muitos diziam que "trazia azar" - e pelas lembranças que isso lhe trazia. Mudou de casa e isso "em parte ajudou", mas continua a ter más memórias e pesadelos.

Contactado pela jornalista Sylvia Colombo, Ariel Ticona nem se lembrava da efeméride. Dez anos depois do resgate, tem mais em que pensar, como o cancro que foi recentemente diagnosticado ao pai. "Católico fervoroso", aceita o que lhe aconteceu como uma forma de Deus de comprovar que existem milagres.

Outro, Jorge Galleguillos, ultrapassou o trauma e voltou a trabalhar na mina de San Jose. Passou a servir de guia turístico para quem queria conhecer a história no local, atividade interrompida pela pandemia de Covid-19.

"A maneira de [Jorge Galleguillos] se reconciliar com ele mesmo e com a sua experiência não foi afastar-se da mina nem mas sim cuidar da sua memória", o que mostra que "cada ser humano lida com os seus traumas à sua maneira", nota Sykvia Colombo.

Alguns antigos mineiros conseguiram refazer a sua vida na comunidade - há entre eles até oradores motivacionais - outros viram agravados estados psicológicos preexistentes, como ansiedade, depressão, explicou à jornalista o psiquiatra Alberto Iturra.

Atualmente, muito poucos homens do grupo que ficou conhecido como "os 33" trabalham no setor das minas e os poucos que o fazem dedicam-se a funções administrativas, nada que tenham de fazer debaixo de terra.

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