Dia do Armistício. As memórias de um alferes português na I Guerra Mundial
I Guerra Mundial

Dia do Armistício. As memórias de um alferes português na I Guerra Mundial

Noutro 11 de novembro, o de 1918, chegava ao fim a primeira Guerra Mundial. Portugal enviou para a frente de batalha 55 mil soldados do CEP. O diário de um destes homens, o alferes Fernando de Castro foi resgatado e publicado pelo arquivo dos diários, uma associação sem fins lucrativos dedicada à preservação de memórias autobiográficas.

O diário começa a 6 de julho de 1917 quando o autor chega a Paris, ainda mal refeito da partida e vai até 8 de dezembro do mesmo ano.

As páginas das memórias deste alferes estão agora editadas em livro e prefaciadas por Jorge Sampaio. Ao longo do diário percebem-se os avanços e os recuos dos aliados. Por exemplo, no dia em que a guerra acabou na frente oriental, Fernando de Castro identifica o setor português como o ponto mais vulnerável dos aliados e teme que seja por aí que os alemães ou os boches, como escreve, façam o próximo grande ataque. Antecipa em mais de quatro meses a batalha de La Lys.

Mas este é um livro de guerra, quase sem combate, sublinha Clara Barbacini, a fundadora do arquivo dos diários.

No entanto, o conflito não era a única preocupação do alferes Castro. Aqui percebemos também os efeitos que a greve geral e a dos correios, de 1917, tiveram na frente de batalha.

A ausência está registada desde a primeira data.

Pelas palavras de Castro, ficamos a saber que o Presidente da República, e o primeiro-ministro Afonso Costa foram recebidos com desagrado pelo Estado-maior quando visitaram as trincheiras. Mas não só. O chefe do Governo era também o futuro sogro de Castro.

Entediado com o trabalho no quartel-general, o alferes não via a hora de ser transferido para uma unidade de combate. Aproveita, por isso, para tentar meter uma cunha, durante a visita presidencial. Mas foi em vão.

Uma das personagens mais referidas neste diário é Sebastião o filho mais velho de Afonso Costa.

O diário de Sebastião Costa também foi parar, de forma anónima, às mãos da associação. Os dois cunhados tinham modos de vida muito diferentes. O diário de Sebastião Costa é um dos muitos à guarda da associação que ainda aguardam publicação.

Nas prateleiras há ainda um diário de um trabalhador agrícola que foi escravizado, em Espanha, e o de uma mulher que acabou presa em Paris por tráfico de droga.

Nem todos são publicáveis, tal como o caso do fabuloso diário de um autointitulado ateu cristomaníaco. Todos podem ser consultados na biblioteca de São Lázaro, em Lisboa.

Nesta altura, a associação tem em curso uma campanha para a recolha de diários de migrantes nas línguas maternas. No prelo, já estão as memórias de um soldado na guerra colonial.

Quanto a Fernando de Castro, depois da guerra voltou à advocacia, esteve preso no Aljube, mas nunca cumpriu o sonho de voar.

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