"Diplomacia do Zoom" marca presidência alemã do Conselho da UE com "ambições elevadas"

A pandemia de Covid-19, considerada pela chanceler Angela Merkel como "maior teste da história da União Europeia", vai dominar a agenda. Depois de 2007, a Alemanha, Portugal e Eslovénia voltam a assumir a presidência do Conselho da União Europeia que começa esta quarta-feira, 1 de julho.

O investigador Nicolai von Ondarza acredita que a pandemia "mudou completamente os planos" da presidência alemã do Conselho da União Europeia (EU) que arranca na quarta-feira, com a "diplomacia do Zoom" e novas "ambições elevadas".

O vice-diretor do departamento de investigação de estudos Europeus do Stiftung Wissenschaft und Politik (Instituto Alemão para os Assuntos Internacionais e de Segurança) admite que as presidências são preparadas com cerca de um ano e meio de antecedência e "os planos da Alemanha eram outros".

"Tudo o que a Alemanha fizer será influenciado pelo sucesso ou não da contenção do contágio durante a presidência, pela manutenção ou não das fronteiras abertas, da coordenação entre os estados-membros na altura de responder à crise provocada pela pandemia de Covid-19", revelou, definindo "três níveis de prioridades".

"O primeiro é a pandemia e as consequências económicas e sociais. Está no topo. No segundo nível está o Brexit com a transição a terminar no final deste ano. E no terceiro nível estão alguns objetivos como o "green deal", as migrações ou o Estado de direito", definiu, acrescentando que o progresso das últimas depende do avanço das primeiras.

"Obviamente que a pandemia causou muitas vítimas em toda a Europa, na Alemanha a situação não é tão má como em Espanha ou em Itália, por exemplo, o que pode ajudar claramente", destacou, assumindo estarmos a assistir a uma evolução do estado das conversações e das ambições.

"As ambições para a presidência eram claramente modestas, pretendia-se que a Europa avançasse passo a passo. O governo alemão apercebeu-se então que o momento atual representa um ponto crucial para a UE, a que a chanceler Merkel chamou de "o maior teste da história da EU"", frisou Nicolai von Ondarza.

"Isto tem bastante significado uma vez que, recentemente, tivemos uma crise financeira, o Brexit, a crise de refugiados e outros mais, e tomar isto como o "maior teste da história da UE" significa que a Alemanha pretende subir o nível da presidência e investir no fundo de recuperação. É algo que mudou as ambições para esta presidência", continuou.

O vice-diretor do departamento de investigação de estudos Europeus do SWP admite que as presidências do Conselho da União Europeia são sempre "grandes desafios para os sistemas burocráticos nacionais", acreditando que a Alemanha "está preparada".

"Requer muita preparação por parte dos ministros, um trabalho que normalmente não passa para o público. Acredito que a Alemanha vai conseguir desempenhar bem a função, mas reconheço que estas circunstâncias extraordinárias seriam difíceis para qualquer país da União Europeia", realçou.

"Sabemos que trabalhar como esta "diplomacia do Zoom", como lhe chamo, tentando conduzir negociações internacionais através da videochamada não é o mesmo. Discutir temas essenciais como o Brexit ou o plano de recuperação é muito difícil", declarou.

O desafio, esclarece o investigador alemão, "será encontrar um meio-termo entre os encontros presenciais ou através de vídeo para conseguir avançar nestes assuntos, que já por si só são complexos."

Esta presidência praticamente coincide com o início do último ano da chanceler Angela Merkel na vida política ativa na Alemanha.

"Esta presidência é vista por muitos como uma espécie de legado de Angela Merkel. Penso que ela começa este período mais fortalecida, no antigo cenário teria sido escolhido um novo líder para o seu partido, a CDU, durante a primavera, mas esse processo foi adiado", lembrou.

"Ela tem um alto índice de popularidade, dentro e fora da Alemanha, mesmo que todos saibam que ela não avançará para um novo mandato, no próximo ano. Julgo que tem o apoio necessário para concretizar uma boa presidência", sentenciou.

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