Do cabelo para produtos a anos de pirataria. O poderoso esquema chinês contra minorias

Remonta a 2013 a tentativa de controlar a minoria uigur na China. Os esquemas têm sido desvelados à medida que empresas de segurança investigam e descobrem documentos do Governo.

Piratas informáticos chineses já produziam, em 2013, software malicioso para manter sob mira os muçulmanos a viver na China, mas também a diáspora de outros países. As anteriores denúncias não relatavam que o controlo através de câmaras de vigilância e captura da minoria étnica na região de Xinjiang tivesse sido iniciado tão cedo.

De acordo com o jornal The New York Times, investigadores da Lookout, empresa de segurança móvel de São Francisco, apuraram que a campanha para controlar a população de uigures na China foi iniciada há sete anos e empreende, até ao momento, esforços invisíveis para extrair dados dos smartphones das pessoas da comunidade residente na região chinesa conhecida pelos desertos e pelas montanhas, mas também pela dominação de minorias.

A Lookout detetou ligações entre oito tipos de software malicioso que provam como grupos ligados ao Governo da República Popular da China invadiam os telemóveis Android dos uigures, na sua maioria muçulmanos. Mais tarde, o controlo expandir-se-ia à recolha de amostras de sangue, às análises de perfis de vozes, ao reconhecimento facial e ao furto de outros dados pessoais. Tudo para tornar Xinjiang num estado virtual da polícia. Uma coisa parece certa aos investigadores da Lookout: a China estava disposta a controlar esta população, mesmo depois da fuga em massa para 15 países, tais como Taiwan, Indonésia, Malásia, Turquia, Paquistão e Afeganistão.

Teatro de operações

As ferramentas utilizadas pelos piratas informáticos (hackers) eram escondidas em teclados especiais utilizados por uigures, ou em aplicações. Era então possível aos invasores digitais ligar remotamente o microfone de um telemóvel, gravar chamadas, exportar fotografias, localizações e conversas de redes sociais. Outra forma de contornar a segurança dos dispositivos era incorporar software malicioso em aplicações de notícias em idioma uigur, dicas de beleza destinadas à comunidade, textos religiosos como o Corão e detalhes sobre as mais recentes detenções de clérigos muçulmanos.

Há uma década, os piratas informáticos do Exército de Libertação do Povo eram conhecidos pelo volume dos ataques empreendidos. Mas, em 2015, sob ameaça de sanções norte-americanas, o Presidente chinês Xi Jinping fechou um acordo com o Presidente Barack Obama para travar a pirataria de alvos norte-americanos para obtenção de ganhos comerciais. O acordo prevaleceu durante algum tempo, com uma queda significativa dos hackers chineses nos Estados Unidos.

Em 2019, investigadores privados apuraram que, durante esse mesmo período, a China utilizou as ferramentas de pirataria para controlar os funcionários do Governo. Já investigadores da Google, da empresa de segurança Volexity e do Citizen Lab da Universidade de Toronto descobriram, separadamente, o que equivalia a um ataque sofisticado contra iPhones e telefones Android pertencentes a uigures e tibetanos chineses em todo o mundo.

A análise mais recente da Lookout sugere que o furto de dados foi mais amplo e agressivo do que os especialistas em segurança e os ativistas de direitos humanos consideravam. Mas especialistas em vigilância chinesa assinalam, em declarações ao jornal The New York Times, que a denúncia não deve ser recebida com surpresa, dado o tempo em que Pequim monitorizou Xinjiang.

Em 2015, a polícia começou a confiscar os telefones dos uigures pelas ruas de Xinjiang. Por vezes, os dispositivos eram devolvidos meses depois com um novo software malicioso instalado. Outras vezes, as pessoas recebiam outros telemóveis. Os funcionários que visitavam as vilas uigures registavam regularmente os números de série usados ​para identificar smartphones, e equiparam as ruas com nova tecnologia que rastreava os telemóveis das pessoas que passavam. As autoridades chinesas chegaram mesmo a arrastar uigures até campos de detenção por terem dois dispositivos ou um telemóvel de modelo antiquado, de acordo com documentação do Executivo.

Uma pista para as identidades dos atacantes surgiu quando os investigadores da Lookout descobriram o que pareciam ser versões de teste do software malicioso em vários smartphones ligados à sede do empreiteiro de defesa chinês Xi, um grande fornecedor de tecnologia de defesa. Em 2015, a empresa enviou funcionários para uma grande conferência de defesa em Xinjiang para comercializar produtos que pudessem monitorizar multidões.

Cabelos para tecelagem

Os Estados Unidos da América apreenderam produtos que terão sido produzidos a partir de cabelos de muçulmanos em campos de trabalho chineses de Xinjiang, relata o jornal The Guardian. As autoridades alfandegárias norte-americanas reportaram a deteção de 13 toneladas de itens de tecelagem e de outros produtos fabricados a partir de cabelos, no valor de 800 mil dólares.

Os Estados Unidos querem assim transmitir uma mensagem clara de que não compactuarão com abusos de direitos humanos, advoga Brenda Smith, do departamento de Negócios Estrangeiros norte-americanos.

Nos últimos quatro anos, o Governo chinês deteve mais de um milhão de pessoas pertencentes a minorias étnicas. Os detidos são enviados para campos de trabalho e prisões, onde são sujeitos a disciplina ideológica, abusos físicos e forçados a renunciar ao islamismo e à língua própria.

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de