"É impossível combater o terrorismo sem violar as constituições e o direito"

Eric Frattini, escritor, professor e investigador universitário, especialista em geopolítica e terrorismo, atualiza obra de referência sobre operações da secreta israelita, a Mossad. Entrevista na TSF.

"Mossad, os carrascos do Kidon" volta em edição totalmente revista e atualizada. Assim é apresentado pela editora Bertrand, o livro de Eric Frattini. Esta obra, há dez anos, foi descrita como «uma bofetada na cara desses sectores obscuros que exercem o poder sem nenhum tipo de respeito pelas leis democráticas e pelas próprias nações onde atuam», como escreveu o presidente uruguaio José Mujica.

Frattini traz-nos o historial das operações de assassinato seletivo, sancionadas pelo primeiro-ministro israelita, e levadas a cabo pela equipa Kidon da Mossad, na defesa do Estado de Israel. Trata-se de uma subunidade da unidade especial dos serviços secretos encarregada de sequestros e assassinatos.

Eric Frattini, como é hoje a sua relação com o Estado de Israel?

Bem, com o Estado de Israel é muito boa. A minha relação com o Estado de Israel sempre foi muito boa, continuo a ser residente do Estado de Israel, na cidade de Jerusalém. Ainda mantenho, embora more em Madrid, mas a minha residência oficial é em Israel, e aliás, já recebi a carta para que, caso eu queira vacinar-me, posso ir a Israel para me vacinar contra Covid, sim, o meu relacionamento com Israel continua muito bom. Tenho grandes amigos que agora estão reformados, mas pertenceram ao serviço de inteligência, à Mossad, e continuo a ter relações muito boas com eles.

Não deixa de ser uma prova de democracia do estado de Israel... e da capacidade de...

De aceitar as críticas...

Exato...

Bem, eu acho que as democracias não têm escolha, certo? Se são democracias, não há outra escolha. Portugal não tem escolha se eu escrever um livro contra Portugal sobre os erros da política portuguesa ou sobre a Espanha, ou sobre os serviços de inteligência ou o que seja. É uma das grandes bases das democracias. Aquilo que nós, jornalistas, podemos escrever sobre os erros cometidos por políticos, serviços de informações ou empresas. Por outras palavras, é a base da democracia. Chama-se liberdade de informação.

O assassinato seletivo em Israel tem uma raiz histórica... aliás, como tudo e não só em Israel, mas em Israel é algo que não pode ser dissociado de um certo sentimento de vingança para com os crimes do Holocausto? É assim?

Essa foi a primeira vez. Na verdade, era uma questão de vingança. Digamos que foi assim com as primeiras operações do Mossad como tais, quando sequestram Adolf Eichmann. Mas mesmo esse sequestro dá um ar democrático. Porque eles poderiam ter ido para a Argentina e terem-no matado com um tiro no pescoço, na cabeça. Mas curiosamente, preferem que o mundo saiba o que os alemães fizeram, o que é muito melhor para a propaganda. E até para a propaganda do Estado de Israel, já que Adolf Eichmann é capturado na Argentina, transferido para Jerusalém, julgado e condenado à morte em 62 e enforcado. E esse julgamento também foi uma das primeiras grandes transmissões globais em escala global. Foi transmitido para todas as estações de televisão do mundo.

Estamos a falar do ano de 1962, quando as coisas não eram transmitidas tão rápido como as coisas são transmitidas agora, as notícias, certo? E acho que foi a primeira grande transmissão disso. Acredito que o início das operações Kidon ou Mossad foi por uma questão de vingança. A segunda operação foi quando mataram o carniceiro de Riga, Herbert Cukurs, foi uma questão de vingança. Foram ter com ele, dispararam, meteram-no num baú no Uruguai e daí de lá, e aí simplesmente, porque os inimigos do Estado de Israel já eram outros, nos anos 60 - é verdade que antes Israel começa a perseguir aqueles criminosos de guerra nazis -, mas nos anos 60 já existem ataques de grupos árabes radicais contra interesses israelitas em diferentes partes do mundo, e é aí que a Mossad percebe que os inimigos são outros e precisam lutar pela sobrevivência do Estado de Israel, já não mais tanto pelo que aconteceu no Holocausto.

Mas essa unidade na Mossad nasceu muito por causa de Adolf Eichmann...

Sim efetivamente. O Kidon como tal, como unidade, foi criado a partir do sucesso do sequestro de Adolf Eichmann em 1960. Naquela época, quem tomou a decisão de sequestrar Adolf Eichmann foi Iser Harel, o poderoso diretor da Mossad, que decide com David Ben Gurion e é Bem Gurion quem dá a luz verde para sequestrar Adolf Eichmann. A partir daí, com esse sucesso, é quando o mito da Mossad começa com operações míticas que eles fizeram, também com os grandes erros que cometeram, mas digamos que o sistema para alcançar o sequestro ou matar alguém passa, digamos, a ter certas normas, não é assim tão simples. Não é dizer "vamos matar uma pessoa dessas em Lisboa" e já está... não, isso passa por um processo. O nome dessa pessoa, desse alvo, vai para um documento chamado The Red Page, Folha Vermelha, que são alvos propostos pela Mossad ou pelo serviço de segurança do Shin Bet para matar um alvo, ou sequestrá-lo, levá-lo para Israel. Há também um julgamento formado pela chamada Comissão X, por um juiz do Supremo Tribunal Federal que preside, um advogado que defende o alvo e um procurador que apresenta as provas contra aquele alvo. Se disso efetivamente resultar que um alvo tem que ser liquidado, esse tribunal não decide nada, apenas faz uma recomendação que é passada ao primeiro-ministro de Israel que é quem toma a decisão final, ou seja, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, é quem toma a primeira e a última decisão sobre se essa execução é realizada. É por isso que os primeiros-ministros são os responsáveis ​​máximos por todos os assassínios seletivos que a Mossad faz.

É por isso esta versão atualizada do seu livro sobre as operações de sequestros e assassinatos da Mossad?

Bem, o Mossad realizou duas operações principais. No total, o livro é atualizado em mais oito capítulos, é o que se atualiza. Houve capítulos que a princípio, operações que a princípio eu ia incluir nessa primeira edição que tu conheces há dez anos. O que acontece é que não tinha informações suficientes sobre essas operações nessa altura. Bem, com o passar do tempo, mais informações foram reveladas sobre aquelas operações que eu não incluí no livro e que agora incluo. E depois há duas operações muito importantes que acontecem em agosto e novembro de 2020. Em agosto, a Mossad, uma equipa do Kidon Mossad, liquida o número dois da Al-Qaeda numa rua de Teerão e em novembro uma equipa da Mossad com informações da CIA, numa operação conjunta, da CIA e do Mossad, mata o homem forte do programa de armas nucleares e químicas do Irão numa estrada nos arredores de Teerão, a que a imprensa também deu muita pompa e circunstância. Foi também uma equipa da Mossad.

Uma caraterística destas operações é que a Mossad leva a cabo a operação mas a Mossad jamais o reconhece... portanto, são normalmente outros países ou a imprensa estrangeira que dizem que esta ou aquela operação aconteceu...

Bem, vamos ver, essa foi uma operação ordenada por Donald Trump. Comprovadamente, mataram esse alvo no Irão, o último, em novembro de 2020. O que acontece é que a divisão de Ação Especial da CIA parece ter tido informações muito boas. Mas não tinha tropas que pudessem realizar o golpe dentro do Irão. Porque ao longo dos anos, as ações de inteligência do governo dos Estados Unidos, da CIA, no Irão têm sido mais por meio de satélites, comunicações, satélites de vigilância do que do agentes em terra, ok? Porque digamos que as últimas presidências, tanto a de Bush Jr. e a de Donald Trump, quanto a de Barack Obama, transformaram-se mais em inteligência tecnológica do que em inteligência de campo. Isso mostra que para os israelitas a inteligência de quem tem comandos dentro do território dos países inimigos tem sido mais importante, e isso fez com que os Estados Unidos localizassem o homem forte do programa nuclear iraniano e decidissem que era Israel quem o liquidaria. O que eles fizeram. E também o mesmo aconteceu no caso do número dois da Al-Qaeda, que foi morto em agosto.

Dos capítulos novos, qual foi o que lhe deu mais gozo escrever?

Bom, eu creio que foi o último, porque claro, quando escrevo os últimos capítulos, tanto o de agosto como o de novembro de 2020, digamos que são capítulos que se vão compondo dia-a-dia. Por quê? Porque muita informação começa a sair. Recorda-te do ataque de novembro. Saiu de tudo na imprensa... que tinha sido com recurso a um drone, um aparelho teledirigido... que foi uma operação que envolveu quarenta pessoas... Então, é claro, no final temos de contar com fontes nos serviços de informações ou fontes dos média ou analistas. Por exemplo, eu sigo muito dois grandes analistas israelitas que escrevem sobre questões de inteligência no Haaretz e no Yedioth Ahronoth, que são os dois grandes jornais israelitas que têm muitas fontes de informação muito boas e são eles que escreveram os grandes livros sobre a Mossad, Joshi Melman e Dan Rabbit, eu sei que as suas informações são, no mínimo, 80 ou 90 por cento precisas. E então, também se confirma com as fontes de informação do Ministério de Relações Exteriores do Irão, que dão sua versão, ok? Israel dá sua versão, os Estados Unidos dão sua versão, e digamos que o que eu faço é analisar as três versões e mostrá-las aos leitores. Não faço nenhuma análise de quem foi ou quem poderia ser, mas mostro todas as possibilidades que existem sobre esse ataque e sem dúvida, porque tem sido o mais polémico... fui incluindo sempre mais informações no capítulo até que a Bertrand me disse que não podia esperar mais e tinha que fechar o capítulo.

E foi assim com Mohsen Fakhrizadeh?

Sim, sim, sim, foi. É claro que foi assim porque, lembre-se, em novembro, depois do ataque, foi dito que tinham sido iranianos que se opõem ao governo de Teerão. Mas é claro que começaram a aparecer informações em jornais franceses e americanos que afirmavam que não eram iranianos, que tinha sido um comando formado por opositores no Irão, mas apoiando uma equipa da Mosssd, ou da CIA que executou o golpe. Então, no fim de contas temos de mostrar todas as versões que ocorrem desse mesmo ataque. E isso foi o mais complicado. Os capítulos históricos são os mais fáceis porque já existe documentação, mesmo semi-desclassificada, a que podemos ter acesso. Nos últimos, seja o de novembro, seja o do assassinato do número dois da Al-Qaeda no início de agosto, é mais difícil encontrar informações confiáveis ​​sobre esse ataque. Mas sim, ainda assim, encontra-se informações.

Para Israel. o objetivo é sempre proteger a segurança do Estado de Israel...

Sim, sim, sem dúvida, sem dúvida. Sabes, em Israel, vivi lá quatro anos... para os israelitas, um agente da Mossad ou a próprio Mossad é como mais uma unidade de infantaria. É como se fosse mais uma unidade da Força Aérea de Israel, é uma unidade que o povo de Israel entende que é para proteger a segurança do Estado... a Mossad nas operações estrangeiras e o Shin Bet nas operações internas dentro do país. Ou seja, a partir daí, eles sabem que qualquer operação que a Mossad realize fora do Estado de Israel é para proteger os interesses do país. Eles entendem, não há discussão na opinião pública, nem mesmo nos partidos políticos. Israel é um caso muito curioso, enquanto nas grandes democracias, por exemplo, como Portugal, como a Inglaterra, como a França, como a Espanha, quando muda o governo, a primeira coisa que se faz é mudar todos os chefes de os serviços secretos, todos eles são encarados como lugares de confiança política, mas não para Israel.

Pode haver um governo trabalhista e depois dois governos Likud, depois outro governo trabalhista e o chefe da Mossad permanece o mesmo. Por quê? Porque, como acontece com qualquer general de uma divisão de infantaria... ele é o general de uma divisão, não o mudas por razões políticas. Então, isso faz com que os israelitas entendam que as operações da Mossad não precisam ser tornadas públicas nem apresentadas aos média.

Para combater o terrorismo é preciso violar a constituição ou o direito internacional?

Nada, é impossível, é impossível. Tens que violar, infelizmente. Claro, o terrorismo move-se para lá das linhas constitucionais, certo? Os terroristas movem-se para o terreno das constituições protegidos pelas emendas que as próprias constituições das democracias têm. Os terroristas agora têm o mesmo passaporte da União Europeia que tu ou eu. Por quê? Porque são cidadãos que são efetivamente cidadãos de segunda ou terceira geração, filhos de imigrantes vindos de países árabes ou islâmicos e que se converteram ao islamismo e se radicalizaram nos nossos países. Como se faz para combater esse terrorismo? Pede-se autorização ao juiz para investigar uma célula num bairro do Porto, ou em Sintra, ou em Lisboa, ou em Madrid? Não pode. Precisas ter os telefones sob escuta e ter autorizações automáticas para o fazer.

Entrevistei Hassan Nasrallah, o líder do Hezbollah e houve uma frase que ele me disse ... entrevistei-o em Beirute e ele disse-me que o terrorismo é criado para que as sociedades amem a sua liberdade, tenham a sua segurança em defesa da sua própria liberdade. Então, o que é que isso significa? Que os cidadãos, nós ou as nossas esposas ou os nossos filhos, tenho a certeza que eles não terão nenhum problema em termos os nossos telefones sob escuta, porque afinal não cometemos nenhum crime. Mas é claro que muitas vezes os serviços de inteligência têm que chegar a questões que estão do outro lado da linha das constituições para combater esse terrorismo. Do contrário, é impossível combater esse terrorismo. Muito difícil.

Benjamin Netanyahu está há mais de dez anos no poder... Israel tem tido menos atentados nos últimos anos... De quem é o mérito?

Bem, o mérito vai para todos os órgãos de segurança do Estado de Israel. E depois, as negociações e a pressão política que Israel exerceu sobre a Autoridade Nacional Palestiniana. Por outras palavras, por fim, a Autoridade Nacional Palestina entendeu que todos os ataques que o Hamas comete em solo israelitas, lançando roquetes, são prejudiciais à própria população palestina. Quanto? Bem, ao nível do fechamento das fronteiras em Gaza para a passagem de trabalhadores palestinianos para Israel. Ou simplesmente um assassinato direcionado. Nos últimos anos, vimos o assassinato direcionado dos líderes do Hamas, Israel matou-os todos e não se importaram se viviam em Malta ou em Gaza ou viviam em Ramallah, foram lá e mataram-nos. O que também fez com que a Autoridade Nacional Palestiniana tomasse medidas com os seus aparelhos de segurança para controlar o Hamas, porque isso é ... Sempre faço a seguinte comparação quando Israel é criticado pela violência com que realiza um contra-ataque, sempre digo que isso é como quando se entra num bar e começamos a lutar contra um tipo como Mike Tyson, o pugilsita. Bem, tenho certeza que Mike Tyson não vai saber controlar a sua força para responder a uma pessoa como tu, que não tens certamente a mesma força. E é o que acontece com Israel, que não mede a sua força de contra-ataque em caso de ataque em solo israelita. E é isso que gera enormes críticas. Mas o que diminuiu o nível de ataques em Israel foi: primeiro, a eficácia dos golpes de segurança israelita tanto da Mossad quanto do Shin Bet, o serviço de segurança. E claro, a pressão de Benjamin Netanyahu sobre a Autoridade Nacional Palestiniana.

Mas não pensa que no quotidiano Israel pratica um certo Apharteid sobre os palestinianos?

Sim sim sim. Certamente. Sem dúvida, aquilo de que estamos falando é a Faixa de Gaza, onde se encontra a maior densidade populacional do mundo. Onde há mais de um milhão de pessoas presas lá e que dependem da própria economia. Mas é claro, Israel isola-os economicamente. A única fonte económica que eles têm é a ajuda de países estrangeiros que, com esta pandemia, foram cortados absolutamente porque os países não têm dinheiro para lhes dar. A única fonte de rendimento que a Palestina tem, são os trabalhadores que vão para Israel todos os dias. Mas, claro, isso também se tornou muito complicado com a pandemia. E também porque Israel, quando faz qualquer retaliação, o primeiro passo é sempre fechar o acesso de Gaza a Israel. Então, de fato, pode ser apartheid.

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