"Elas viram um mundo bonito" e agora só pedem ajuda para sair do Afeganistão

Uma jornalista afegã refugiada em Londres diz à TSF que tem recebido muitos pedidos de ajuda de mulheres que querem sair do país. Zarghuna Kargar descreve uma situação assustadora com a chegada dos taliban ao poder, mas espera que a nova geração de mulheres não se deixe controlar.

Para Zarghuna Kargar, jornalista afegã a viver em Londres, é desolador olhar para as mudanças dos últimos dias no Afeganistão. "Estou de coração partido".

Nasceu em Cabul em 1982 mas fugiu com a família para o Paquistão durante a guerra civil. Lá formou-se em Jornalismo e em 2001 mudou-se para o Reino Unido. Hoje, trabalha na BBC World News, onde conduziu o programa "Afghan Woman"s Hour" durante vários anos.

"Eu estou desolada enquanto afegã, mãe, enquanto mulher que trabalhou tanto. Eu dediquei a minha vida a tentar ver progresso no meu país, para as minhas mulheres, as minhas meninas. É tão difícil ver isto", conta à TSF.

Zarghuna Kargar refere-se às centenas de mulheres afegãs que entrevistou ao longo dos últimos anos. São elas que agora lhe pedem ajuda para sair do Afeganistão.

"Uma viúva cujo marido foi morto pelos taliban, fez todos os esforços para o filho e a filha poderem estudar e só me dizia: eu não sei o que fazer, o meu filho só chora a dizer que não quer acabar como o pai, morto. Então ela pediu-me ajuda para sair, para ir para algum sítio seguro. Toda a gente com quem eu falo só pede ajuda para sair".

Em declarações à TSF, a jornalista afirma que a chegada dos taliban ao poder "é uma situação muito assustadora para mulheres e raparigas no Afeganistão", sobretudo para as que conseguiram chegar a posições no governo, para as jornalistas ou que para as mulheres que trabalham em organizações não governamentais que lutam pela igualdade de género.

"É assustador. Elas trabalharam no duro nos últimos 20 anos para chegar onde chegaram. Elas viram um mundo bonito pela primeira vez, desde a queda dos taliban. Elas tiveram noção do que é a educação, do que é viajar, viram o que há para fazer".

Os taliban já prometeram dar direitos às mulheres mas Zarghuna admite que é difícil acreditar e lembra os relatos que vão chegando de mulheres impedidas de ir à universidade ou de trabalhar.

Ainda assim há uma geração de mulheres que cresceu sem as regras do taliban. A jornalista da BBC World News acredita que elas não vão baixar a cabeça.

"Nos últimos 20 anos, elas cresceram, agora vão à escola, vão à universidade, elas vêm mulheres na televisão, mulheres a jogar futebol, a andar de bicicleta, a conduzir carros. Elas cresceram com o sentimento de: sim, eu sou uma pessoa. Como será possível reprimir esta geração?".

A jornalista afirma que o caminho pode até passar por chegar a acordo com o novo regime, tal como apontam alguns especialistas em paz e reconciliação.

"Temos de falar e de lutar pelos nossos direitos. Uma especialista em paz e reconciliação defendia que devemos ver primeiro o que eles têm para oferecer, e perceber o que fazemos a seguir. Acho que essa é a melhor forma de seguir agora porque, caso contrário, não há qualquer escolha. Vamos ver uma geração de mulheres afegãs a deixar o país e onde é que isso significa para o país, em termos das mulheres mais educadas, das mais progressivas? Vamos ficar sem ninguém", lamenta.

Zarghuna Kargar foi responsável pelo programa da BBC "Afghan Woman"s Hour", transmitido entre 2005 e 2010, com o objetivo de inspirar mulheres e raparigas a participarem na reconstrução do Afeganistão. Em 2012 lançou o livro "Mulheres Afegãs - Histórias por detrás da Burka" e foi responsável por uma das histórias no documentário Girl Rising de 2013.

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