Eleições em Moçambique. Vitória da Frelimo, resta saber por quantos

Depois da paz entre Governo e Renamo, é de esperar ou não o reforço do domínio da Frelimo num contexto de (ainda) crise económica e de violência de caráter religioso no norte do país? A TSF conversou com o investigador Pedro Vicente para traçar o cenário mais provável.

A vitória do partido Frelimo é mais do que certa, mas resta saber qual o tipo de expressão dessa vitória, nomeadamente nos grandes centros urbanos do país. Se na parte rural de Moçambique, "o que quer que aconteça", a vitória "vai ser sempre da Frelimo", o mais interessante vai ser perceber o que acontece "em termos de espaço urbano, em que existe mais informação, em que as pessoas estão mais cientes do que tem acontecido nos últimos anos". Principalmente, "o escândalo relativo à dívida oculta", além da violência que tem surgido com "assassinatos cirúrgicos".

A Human Rights Watch denunciou, na semana passada, a morte de um observador eleitoral Anastácio Matavel, em Xai-Xai, província de Gaza. Foi assassinado por agentes policiais, em circunstâncias ainda por esclarecer. Um relatório policial, no espaço de duas semanas - assim terá sido prometido - esclarecerá a razão pela qual matável foi morto pela polícia.

Uma campanha eleitoral que arrasta multidões desde 31 de agosto e pouca segurança preparada para o efeito será certamente uma das razões para a violência que já custou a vida a mais de quatro dezenas de pessoas. Pedro Vicente, diretor científico do centro Novafrica da Nova School of Business and Economics, afirma que, "obviamente, há nestas mortes uma motivação política que é inescapável, da parte de grupos ligados à Frelimo".

Um país que há três anos sofreu bastante com a questão das dívidas ocultas e onde se deu um momento de "uma total perda de confiança dos doadores num país ainda muito dependente da ajuda internacional", que, aliado à descida dos preços das commodities nos mercados internacionais "trouxe um momento de grande dificuldade para a economia moçambicana, com uma desvalorização imensa do metical". Admite o investigador português que as coisas começaram, lentamente, a mudar: "As coisas estabilizaram um pouco e já se sente algum crescimento económico, embora não se tenha chegado aos níveis que tínhamos antes da crise."

Moçambique não deixa de viver na ilusão de uma vindoura bonança, que chegará com os lucros da exploração do gás natural, "mas infelizmente ainda estamos naquele momento em que mal saímos da crise". Regressar aos níveis de crescimento pré-crise não pode ser dissociado do contexto político que o país vive, uma vez que a componente política é que "estabelece as bases de confiança para os agentes económicos", portanto estes esperam para ver como as modas param na política.

Favorito perante os adversários Ossufo Momade (Renamo), Daviz Simango (Movimento Democrático de Moçambique, MDM) e Mário Albino Muquissinse (Ação do Movimento Unido para a Salvação Integral, AMUSI)Filipe Nyusi, o chefe de Estado que se recandidata pela Frelimo, não deixa de "estar muito conotado" com o escândalo da dívida oculta, "com justiça ou menos justiça é muito conotado com esses acontecimentos", o que acaba por ter reflexo na "confiança dos investidores estrangeiros"; ou seja, o líder da Frelimo que sucedeu a Armando Guebuza, ainda um dos homens mais fortes do país, por muito que aposte num discurso marcado pela integridade e luta contra a corrupção, tem a sua imagem bastante beliscada.

Depois, há a questão da violência no norte do país, nomeadamente na província de Cabo Delgado, numa mistura incomum mas explosiva de luta sem tréguas pelo domínio dos recursos e violência religiosa ou religiosamente manipulada. Para Pedro Vicente, "a partir do momento em que há gás natural e todas estas movimentações em torno do interesse estrangeiro, há aqui um problema de conflito". Quem já lá estava a "e dominava aqueles meandros de Cabo Delgado, nomeadamente junto à costa, vê-se aqui em conflito com a polícia e com as autoridades do Estado. Em teoria, isto é um problema que nada tem que ver com radicalização islâmica", admitindo contudo que "aqui aparece uma correlação importante que é a forma como as pessoas se estão a organizar para contrariar a autoridade do Estado, que é muitas vezes associada à radicalização islâmica e isso é também um facto irrefutável".

Nyusi nega que haja um problema religioso no norte do país e Vicente tende "a concordar que não há". "Mas pode vir a haver." Porque o elemento de mobilização das pessoas é baseado na radicalização islâmica de jovens, especialmente, "que pode ter um perigo imenso no futuro". "Eu concordo que não exista um problema religioso, o que não quer dizer que no futuro não haja um profundo problema religioso que ninguém consegue resolver." Em suma, não será a religião a causa fundamental da conflitualidade no norte do território moçambicano, mas poderá vir a ser.

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