"Em Cuba as farmácias e os supermercados continuam a parecer cemitérios"

Entrevista a Abraham Jimenez Enoa, jornalista fundador da revista El Estornudo.

Aos 32 anos, Abraham Jimenez Enoa já perdeu a conta ao número de vezes que foi detido pelos serviços de segurança do regime cubano. O jornalista fundador da revista El Estornudo. É também colunista do Washington Post, já escreveu para o The New York Times, BBC World e Al Jazeera.

Durante os protestos de Julho, o jornalista continuou a transmitir as manifestações nas redes sociais, apesar do Governo de Havana ter cortado o acesso à Internet na ilha. "Tenho uma forma clandestina de aceder", conta à TSF.

Apesar da dimensão nunca antes vista dos protestos, os maiores que o regime fundado por Fidel Castro enfrentou em mais de 70 anos. O jornalista diz que os cubanos são "uma sociedade desarmada".

"A única arma desta sociedade são as gargantas. E isso não chega para fazer cair uma ditadura", garante o opositor. Ainda assim acrescenta que os protestos e a repressão, "serviram para fazer cair a máscara do regime e mostrar ao mundo que Cuba não é uma ilha paradisíaca."

Jimenez Enoa faz parte de uma lista de 200 pessoas que viram o passaporte confiscado. "Proibiram-me de sair do país. É como se estivesse preso numa ilha", conclui. Foi por isso a partir Havana que o jornalista conversou com a TSF para descrever supermercados e farmácias que mais parecem cemitérios.

Como é que se viveu o último mês em Cuba. Depois dos maiores protestos que o regime enfrentou?

O que se seguiu foi uma fase de tranquilidade, uma tensão muito nervosa que se pode respirar nas ruas, precisamente porque ainda estamos a viver o resultado do que foi essa explosão social. Há mais de 800 pessoas que ainda estão detidas ou desaparecidas. As famílias destas pessoas continuam a procurá-las, continuam a exigir a liberdade dessas pessoas. De certa forma, podemos dizer que isto ainda não chegou ao fim. Porque isto é uma cinza que ainda arde e pode em algum momento voltar acender-se. Este número de 800 pessoas nem sequer é um número real. O número verdadeiro ainda não é conhecido. Não se conhece porque o Governo não deu a conhecer o número de pessoas que prenderam. Por isso, a sociedade civil teve que ir juntando dados, através de denúncias, através das redes sociais, através da internet, estas listas. Mas há muita gente que não tem conta de internet, redes sociais. Pessoas que têm dificuldade em comunicar. Além do mais, a internet em Cuba é algo muito caro. 400 MB custam quase cinco dólares. É um luxo ter internet em Cuba. E o Governo desacelerou a internet no país, faz constantemente cortes. Tudo isto impossibilita continuar a fazer estas listas. Por outro lado, ainda há muito medo. Porque a sociedade perdeu o medo e saiu à rua, precisamente porque não temos nada. Porque não temos comida, porque não temos medicamentos, porque não temos direito, porque não temos liberdades. O Governo respondeu de uma maneira terrível, muito violenta e obviamente que as ruas continuam militarizadas e isso faz com de certa forma se tenha dado um passo atrás.

Ou seja, pouco mudou depois dos protestos.

A situação nos supermercados, a situação nas farmácias, continua igual. Continua tudo desabastecido. Continuam a parecer cemitérios. Isso não mudou. A única coisa que se alterou foi que, poucos dias depois das manifestações, Díaz-Canel permitiu que se importassem de forma ilimitada medicamentos e comida.

A repressão aumentou, mesmo depois do fim das manifestações?

Obviamente. Levaram até pessoas que tinham sido identificadas em vídeos ou declarações. Foram buscar pessoas às suas casas. Prenderam menores de idade. Há, nesta altura, pessoas de quem se desconhece o paradeiro. Há pessoas que foram julgadas de forma sumária, a quem nem sequer permitiram apresentar defesa. Nem que a família assistisse aos julgamentos. De certa forma, reconheceram a ditadura que são.

"As ruas pertencem aos revolucionários!" O que sentiste quando o presidente Díaz-Canel fez esta afirmação?

Nesse momento, a situação mudou por completo. Até aí, havia, não diria uma certa tranquilidade, mas permissão. As pessoas estavam mais eufóricas e havia as forças do ódio, em público estavam mais recolhidas. Depois de Díaz-Canel ter dito isso, o cenário mudou por completo. Não foram só as forças policiais que começaram a reprimir com mais violência, mas também os chamados "revolucionários", os trabalhadores do Estado, começaram a sair à rua, com paus, vassouras e tubos. E o que era um protesto pacífico transformou-se, durante algumas horas, numa guerra civil.

O medo mudou de lado?

Não acredito que seja tanto assim, mas acredito que o Governo, de alguma forma, se tenha sentido estranho e nervoso ao ver o que aconteceu. É a primeira vez em 72 anos que Cuba inteira saiu à rua. Aconteceu em mais de 60 cidades. Isto nunca tinha acontecido. Não sei se foi medo, mas obviamente que eles devem ter-se sentido muito nervosos. Até porque, desde há alguns meses, talvez dois anos, que tem havido pequenas faíscas sociais, sobretudo através da internet. O que obviamente lhes diz que há um novo cenário no qual eles não são experientes nem adaptados para conviver com essa inconformidade.

Chegaste a ser preso?

Tentaram deter-me. Tive um pequeno confronto com um agente, mas consegui fugir a correr. Mas noutras alturas, sim. Não em manifestações, mas sim. A imprensa independente em Cuba vive sob assédio, perseguições tremendas. Esse é o nosso dia-a-dia. Passam a vida a levar-nos para interrogatórios, para esquadras. Chegaram a despir-me. Já me levaram num carro como se tivesse sido sequestrado, com a cabeça escondida, para não ver para onde ia. Ameaçaram-me com prisão, ameaçaram a minha família. Este é o dia-a-dia dos jornalistas independentes aqui em Cuba.

E como é fazer jornalismo nesse ambiente?

Temos de nos agarrar ao compromisso social do jornalismo. Ainda mais em contextos hostis, como o cubano. Porque se nós não contarmos o que se passa, ninguém o vai fazer. Não tenho alternativa. Outra represália que me impuseram por fazer este trabalho é impedir-me de sair do país. Nem sequer tenho passaporte. Há uma lista de mais de duzentas pessoas que não podem sair do país. Eu estou nessa lista. Portanto, se estou aqui, não tenho alternativa senão continuar a contar o que acontece. De alguma forma, estou preso, eu e o resto das pessoas que estão nessa lista, estamos presos numa ilha.

Foste preso pela primeira vez há cinco anos. Sabes quantas vezes já foste preso desde essa altura?

Não. Já perdi a conta.

Falaste há pouco na Internet. Ela foi fundamental para estes protestos?

Sim. A internet mudou por completo a fisionomia deste país. Porque, durante muitos anos, em Cuba, só prevaleceu a perspetiva e as matrizes de opinião que saíam dos discursos governamentais e dos meios de comunicação do Estado. Mas obviamente que, com a internet, não só houve um auge da imprensa independente, mas também os cidadãos comuns começaram a narrar as suas vidas nas redes sociais. Obviamente que essa realidade, até então escondida, começou a aparecer. E não foi só isto, mas também a sociedade civil começou a unir forças e a organizar-se. Tudo isto culminou nas manifestações de 11 de julho. Não se pode explicar o que aconteceu sem ser através da internet. A internet é o coração do que aconteceu.

Talvez por isso o Governo tenha decidido cortar a internet durante os protestos. Mas tu estiveste quase sempre ativo e contactável...

Temos de estar sempre a reinventar-nos e procurar novas formas de fazer jornalismo independente. Por isso, quando há estes cortes, tenho uma forma clandestina de ligar-me.

Os Estados Unidos já anunciaram novas sanções. Isto ajuda-vos de alguma forma ou só prejudica?

São sanções apenas diplomáticas. Não têm qualquer benefício na vida dos cubanos. Pelo contrário, o que fazem é piorar a situação. Porque o Governo agarra-se a essas medidas como argumento para aumentar a repressão e para aumentar a ideia de que o que aconteceu aqui é uma estratégia montada nos Estados Unidos e com isso aumentar a repressão contra a sociedade civil. Por isso, se tem algum efeito, ele é contrário ao que pretendem os Estados Unidos e quem acaba prejudicado é o povo cubano.

E a pandemia? Como é que está o quadro aí em Cuba neste momento?

Estamos no pior momento. O sistema sanitário está completamente colapsado. Temos quase dez mil casos diários. Neste momento, somos o segundo país do mundo com mais casos diários. Tudo isto com números do Estado, que nem sequer são fiáveis. Não há camas nos hospitais, não há medicamentos. Estamos a passar por um momento muito crítico.

E as vacinas que o Governo tinha prometido?

Essas vacinas começaram a ser dadas ao povo. Mas há muita gente que diz que elas não têm eficácia. O certo é que a eficácia destas vacinas só foi atestada pelo Governo cubano. Claro que nenhuma vacina impede completamente os contágios. Mas o certo é que as pessoas estão a receber as vacinas, mas estamos no pior momento da pandemia.

Podemos voltar a ver grandes manifestações nos próximos tempos?

Sim. Porque a situação não mudou. As pessoas saíram das ruas, mas voltaram ao sofrimento das suas vidas, voltaram às suas casas sem comida, às suas casas sem medicamentos, às suas casas com os cortes eletricidade. Isso deixa sempre presente o incómodo e a indignação. Por outro lado, se não tens nada disso, que é o mínimo exigível para viver com dignidade, obviamente que também não tens medo, não tens medo de sair à rua. E também porque este continua a ser um país com uma profunda falta de liberdades e direitos. Então isso gera também um ambiente de tensão. Há ainda um terceiro elemento: é que o Governo e o regime cubano deixaram cair a máscara ante o mundo inteiro. Há muita gente que pensa que Cuba é uma ilha paradisíaca. Que Cuba é um país utópico, de progresso. Que Cuba é um lugar romântico em que todas as pessoas são iguais e é tudo uma maravilha, e evidentemente que, com esta repressão tão violenta, o Governo deixou cair a máscara.

Acreditas que estamos a assistir aos últimos meses do regime?

Não. Não creio que sejam os últimos meses. Porque continua a ser um regime militar que tem controlo absoluto do país. A sociedade civil é uma sociedade desarmada, uma sociedade que a única arma que tem é o poder da sua garganta. E com isso não se pode fazer cair uma ditadura. Acredito que se abriu uma brecha. Mas uma brecha pequena e ainda falta mais algum tempo para que este regime caia.

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