Encerramento de fronteiras da China inspira comparações com filme "Terminal de Aeroporto"

No mês passado, cerca de cem passageiros chineses oriundos de São Paulo ficaram retidos no aeroporto de Zurique.

As histórias sobre viajantes chineses encurralados nas zonas de trânsito de aeroportos europeus inspiram comparações com a personagem principal do filme "Terminal de Aeroporto", ilustrando as dificuldades criadas pelo encerramento praticamente total das fronteiras da China.

Em fevereiro passado, Yao Mo, um estudante chinês de doutoramento, de 26 anos, viveu no aeroporto de Frankfurt, na Alemanha, durante 18 dias, após o seu voo de ligação para a China ter sido cancelado.

"Como não tinha visto Schengen, fiquei encurralado no aeroporto de Frankfurt, sem conseguir sair da zona de trânsito", descreveu, através da sua conta na rede social Weibo.

As comparações entre Yao Mo e Viktor Navorski, personagem interpretada por Tom Hanks no filme "Terminal de Aeroporto", tornaram-se frequentes entre os funcionários do aeroporto de Frankfurt.

Yao explicou que "não era assim tão mau". No filme de Steven Spielberg, Navorski dorme nas cadeiras do Aeroporto JFK, de Nova Iorque, após o seu passaporte ficar inválido, na sequência de um golpe de Estado no seu país. Yao contou que tinha, pelo menos, uma cama para dormir, no hotel da zona de trânsito, por 200 euros/noite.

A história de Yao não é invulgar.

Ao abrigo da estratégia de 'zero casos' de Covid-19, a China mantém as fronteiras praticamente encerradas desde março de 2020. Quem chega ao país tem que cumprir uma quarentena de até três semanas, em instalações designadas, mas isso é apenas a etapa final de um longo processo.

A China autoriza apenas um voo por cidade e por companhia aérea, o que reduziu o número de ligações aéreas internacionais para o país em 98%, face ao período pré-pandemia.

Os voos estão também sujeitos à política do "circuit breaker" ('interruptor', em português): quando são detetados cinco ou mais casos a bordo, a ligação é suspensa por duas semanas. Caso haja dez ou mais casos, a ligação é suspensa por um mês.

O passageiro só pode embarcar num voo direto a partir do país onde reside. Caso não haja voo direto, é-lhe permitido apenas fazer uma escala.

A escassez de oferta reflete-se nos preços: um voo só de ida pode chegar aos 10.000 euros, em económica.

Os voos podem também ser cancelados devido a medidas de confinamento nas cidades de destino na China.

No mês passado, cerca de cem passageiros chineses oriundos de São Paulo ficaram retidos no aeroporto de Zurique, após o seu voo de ligação para Xangai ter sido cancelado, vinte minutos antes da hora de embarque, na sequência da imposição de um bloqueio imediato na "capital" económica da China.

À semelhança de Yao, também estes passageiros tiveram, nos dias seguintes, a "experiência Viktor Navorski". Vestidos com fatos de proteção química e máscaras FFP2 - um teste negativo para a Covid-19 é exigido para viajar para a China, pelo que os passageiros adotam frequentemente fortes medidas de prevenção - eles dormiram durante dias no chão do aeroporto.

Em fevereiro, 50 estudantes chineses ficaram presos no aeroporto de Copenhaga, após testarem positivo para a covid-19, num voo de ligação para a China. O jornal chinês Hongxing News informou que os passageiros permaneceram no aeroporto durante quatro dias, até que a embaixada chinesa na Dinamarca conseguiu arranjar-lhes alojamento.

A única ligação aérea entre Portugal e a China encontra-se também num estatuto incerto: o voo está sistematicamente a ser cancelado desde dezembro passado, semana após semana.

As autoridades da cidade chinesa de Xian, a capital da província de Shaanxi, suspenderam a ligação aérea direta com Lisboa no dia 25 de dezembro, numa altura em que aquela região enfrentava um surto de Covid-19. A cidade retomou, em 23 de janeiro, os voos domésticos, mas manteve as ligações internacionais suspensas.

Numa carta enviada ao governo de Shaanxi a que a agência Lusa teve acesso, estudantes chineses em Portugal explicaram as dificuldades causadas pelo cancelamento do voo.

"Antes de regressar à China, alguns estudantes foram viver para hotéis, para se isolarem, à medida que as restrições em Portugal foram levantadas e o novo coronavírus se tornou endémico, o que acarreta altos custos", lê-se na missiva.

"Pedimos aos departamentos governamentais relevantes que deem aos estudantes de intercâmbio uma data aproximada para a retoma dos voos", apelaram.

Não houve, até à data, resposta das autoridades.

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