Envio de armas da Grécia para a Ucrânia foi "opção pessoal" do primeiro-ministro

O ex-primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, criticou a decisão do atual ocupante do cargo, Kyriakos Mitsotakis, por não ter informado o parlamento da decisão de enviar armas para a Ucrânia.

O líder da principal força da oposição na Grécia, Alexis Tsipras, voltou a criticar a decisão do primeiro-ministro, Kyriakos Mitsotakis, de enviar armas para a Ucrânia, referindo-se a uma "opção pessoal", sem informar o parlamento ou outros partidos.

Em entrevista exclusiva ao 'site' Euractiv com a participação da Lusa, o ex-primeiro-ministro grego (2015-1019) e líder do Syriza considerou que a Grécia é um país situado numa região muito frágil do Mediterrâneo oriental e que a doutrina da sua política externa assenta nos pilares da estabilidade, segurança e paz.

"Os nossos vizinhos não são a Bélgica ou o Luxemburgo", disse.

"Assim, e na minha perspetiva, o envolvimento direto numa guerra não é benéfico para o país e também prejudica o seu desempenho. Para a União Europeia e a NATO possuir um mediador seria muito positivo, ter um país que possa falar com outras forças na região", indicou.

No final de fevereiro, a Grécia enviou para a Ucrânia armas de assalto Kalashnikov e lança-foguetes individuais no âmbito da sua ajuda militar. Mas em meados de abril, o ministro da Defesa grego, Nikos Panagiotopoulos, disse que Atenas não estava a planear o envio de mais material.

No entanto, no final de maio, o chanceler alemão, Olaf Scholz, anunciou um acordo no âmbito do qual a Grécia entregaria armas à Ucrânia, enquanto Berlim forneceria aos gregos veículos blindados para o transporte de tropas.

"Soubemos não através de Mitsotakis, mas pelo chanceler Scholz que estávamos a enviar mais armas", indicou Tsipras, referindo um processo "evasivo".

"Nem mesmo a Alemanha se atreveu a enviar diretamente armamento pesado [...). E aqui existe outra questão: é um armamento que é útil para a Grécia, num momento em que a Grécia também está submetida a intensa pressão e ameaças à sua soberania", frisou, numa referência à nova escalada com a Turquia, que atingiu uma retórica beligerante.

Tsipras, 47 anos, descreveu a Rússia como um país que desrespeita a lei internacional, invade um país e questiona as fronteiras, mas assinalou ser extremamente importante para a Grécia e a Europa no seu conjunto que se empenhem ativamente numa solução diplomática antes que seja demasiado tarde.

"Primeiro, o fim das hostilidades, o fim da invasão e a possibilidade de um tratado de paz que garanta uma saída", afirmou.

"Também quero manifestar a minha preocupação que as consequências, caso a guerra se prolongue por muito tempo, sejam muito pesadas para a Europa (...), em particular para países como a Grécia, onde o nível salarial é muito baixo e a inflação está já a originar uma crise social".

Numa referência particular às relações greco-turcas, Tsipras também manifestou preocupação pelo facto de a função internacional da Turquia estar a ser incrementada.

"A Turquia, que ocupa ilegalmente a parte norte de Chipre há 48 anos, pretende mediar a paz na Ucrânia e [a sua função] está a ser valorizada em simultâneo pelo ocidente e o leste", considerou.

"Isto preocupa-nos no sentido em que a Grécia, em simultâneo, não apenas abandona os seus dogmas em política externa, mas se torna num particular aliado do ocidente (...) e, em última análise, torna-se uma peça de xadrez de terceiras potências", acrescentou.

Numa referência à recente escalada das relações greco-turcas, considerou que o Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, pretende promover manobras de distração face à crise económica sem precedentes que afeta o seu país e, nesse sentido, concentrar o foco na sua política externa.

O líder do Syriza manifestou também preocupação pelo facto de não existirem canais de comunicação em funcionamento entre Atenas e Ancara.

"Erdogan sempre foi o mesmo (...), mas quando era primeiro-ministro [entre 2003 e 2014] em todas as fases críticas com a Turquia havia um canal de comunicação e o pior foi evitado", disse, para avisar que a atual situação comporta riscos elevados.

Tsipras também se manifestou contra o acordo na área da Defesa assinado entre a França e a Grécia em outubro passado.

O acordo militar prevê uma cláusula mútua de defesa que inclui os territórios dos dois países, mas não zonas económicas exclusivas (ZEE) como as existentes nas águas do Mediterrâneo oriental, segundo indicou ao Euractiv France o Ministério da Defesa francês.

"Assim, vemos que isto é uma falha. (...) a Grécia paga de forma substancial este acordo com vários milhares de milhões de euros, através da compra de Rafales (caças) e fragatas (...), e, logo a seguir, a França, juntamente com a Itália, vendem sistemas de defesa antiaéreos à Turquia. Isto é um caso", frisou Tsipras.

O ex-chefe de Governo grego defendeu que os países da União Europeia não devem tornar-se inimigos da Turquia, "mas pelo menos fornecerem claras garantias de segurança à Grécia contra a delinquência e provocação turcas". "E isso não diz apenas respeito à França, mas antes à UE (União Europeia) no seu conjunto", adiantou.

"Estamos atualmente a discutir a forma de fornecer garantias de segurança à Finlândia e Suécia e é por isso que pretendem aderir à NATO, devido a perigo que sentem vir da Rússia", referiu.

"Será que a Grécia não se sente ameaçada pela Turquia? Somos um país da UE e da NATO ameaçado por um aliado da NATO", acrescentou.

Ao comentar as recentes eleições legislativas franceses, que implicaram uma derrota para o Presidente Emmanuel Macron com a perda da maioria absoluta na Assembleia Nacional (parlamento), considerou que foi consequência de ter negligenciado a sociedade e as suas necessidades.

"Insistiu numa política económica neoliberal que agravou as desigualdades. E também pagou pela arrogância política que o levou a atuar exatamente assim, porque os seus principais opositores políticos vêm dos designados extremos do espetro político", considerou.

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