Escola em Miami transmite aos alunos teorias da conspiração antivacina. Pedidos de inscrição aumentam

A Centner Academy proibiu os professores vacinados contra o coronavírus de estarem perto dos alunos. Há pais preocupados e a quererem retirar as crianças da escola. Mas outros procuraram mesmo por isto a escola, para inscrever os filhos.

Um professor de Matemática e Ciências tentou incutir nos alunos do 5.º ano da Centner Academy, uma escola privada em Miami, uma teoria da conspiração, segundo a qual não deveriam abraçar os seus pais já vacinados contra o coronavírus por mais do que cinco segundos, ou correriam um risco elevado de exposição a substâncias libertadas devido à vacinação.

De acordo com o jornal The New York Times, um aluno ter-se-á queixado aos pais, por e-mail, denunciando que o docente orientou a turma para que se "afastasse" dos familiares. E uma semana antes, conta também o norte-americano The New York Times, o estabelecimento de ensino tinha ameaçado os professores com despedimento, caso fossem vacinados contra a Covid-19 antes do final do ano letivo. Os acontecimentos deixaram os encarregados de educação assustados, e, em conversas pelo WhatsApp, começaram a questionar-se sobre o melhor plano para tirar as crianças da Centner Academy o mais rapidamente possível.

Houve, no entanto, também o movimento oposto, registando a escola privada um aumento flagrante da procura, apesar de a prestação anual rondar os 25 mil euros (30 mil dólares). O jornal The New York Times veicula mesmo que a escola se terá tornado num "farol nacional para ativistas antivacinação, praticamente da noite para o dia", numa altura em que as autoridades de saúde pública nos Estados Unidos lutam para derrotar o ceticismo em relação à vacina contra a Covid-19.

A política de proibição de contacto dos professores com os alunos após a vacinação desencadeou uma atenção mediática muito intensa, com equipas da televisão norte-americana a rondar a escola. Os professores viram-se forçados a manter as crianças em espaços interiores, mesmo durante as aulas de Educação Física e os períodos de recreio.

Leila Centner, a cofundadora da escola, que garante não ser contra as vacinas totalmente testadas, escreveu na rede social Instagram que os jornalistas estavam a "tentar destruir" a sua "reputação" por ter contrariado aquela que é "a narrativa" dos média.

Apesar das frequentes publicações antivacinação e antimáscara, a responsável tem sido aplaudida por muitos apoiantes. Leila Centner assumiu a liderança da escola no ano passado, durante a pandemia, e desde o início frisou que adotaria uma política voltada para a "felicidade" e a "liberdade médica".

Entre os pais e os alunos acentuou-se a divisão. Iris Acosta-Zobel retirou a filha da escola na sexta-feira e confidenciou ao jornal The New York Times que todas as tardes tinha de explicar que o que lhe era dito nas aulas não era correto. David J. Centner, cofundador da escola juntamente com a sua mulher, reagiu, garantindo que a escola estava a garantir que as famílias são ouvidas. "Reunimo-nos com mais de 70 pais e estamos satisfeitos por tantas famílias continuarem a apoiar a nossa missão e a confiar-nos os seus filhos." Sara Dagan, que tem quatro filhos na escola, disse ao jornal norte-americano que a polémica não a incomoda e que se sente "confortável em adiar a vacina", já que a sua "principal preocupação é a felicidade das crianças".

Outras pessoas entrevistadas pelo NYT pediram anonimato. Alguns pais e professores receavam sofrer retaliações ou invocaram a contratualização com acordos de confidencialidade com a escola.

A política antivacinação exige que os professores recentemente vacinados mantenham a distância em relação aos alunos. A cofundadora da Centner Academy ordenou aos professores que não abraçassem as crianças. A medida gerou tamanha controvérsia que a Casa Branca foi questionada sobre o assunto.

A Centner Academy recebeu 667.554 euros (804.375 dólares) em apoios durante a pandemia. Os Centners tinham doado nos últimos anos quantias muito avultadas ao Partido Republicano e ao antigo Presidente dos EUA Donald J. Trump.

Os encarregados de educação garantem que tudo começou a mudar na escola assim que Leila Centner e David J. Centner assumiram a liderança. Foram instaladas câmaras de vigilância para captar vídeo e áudio, alegadamente para fins de segurança. Leila Centner já tinha determinado que as crianças se mantivessem longe das janelas, por recear a radiação das torres de rede 5G, outra teoria da conspiração sem qualquer base científica.

As janelas da escola, nos níveis mais baixos de ensino, têm agora "bloqueadores de proteção" de frequência eletromagnética, disse Leila Centner, em resposta aos jornalistas.

A escola também se opôs à inclusão de açúcar e glúten na alimentação das crianças, e exigiu o uso de calçado diferente para os espaços interiores e exteriores. Alguns pais consideraram as ideias estranhas, mas inofensivas, ao contrário do que começou a acontecer com a resposta da escola ao coronavírus.

O estabelecimento de ensino reabriu para ensino presencial em setembro e inicialmente comprometeu-se a seguir as diretrizes do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças, bem como a orientação para uso de máscara. Todavia, os professores não foram instruídos em agosto para o uso de proteção individual, e a cofundadora Leila Centner desencorajou o uso de máscara. Os professores tiveram então de assinar declarações em que reconheciam que havia um risco para a saúde associado ao retorno ao trabalho. Quando responsáveis do Departamento de Saúde da Florida visitaram o local, em agosto e dezembro, os docentes foram então orientados para usarem máscara.

Os pais tiveram de preencher formulários para desobrigar os seus filhos do uso de máscara. O mesmo aconteceu em relação às vacinas. No WhatsApp, Leila Centner formou um grupo chamado "Conhecimento é a Chave", no qual a adesão era opcional, segundo a cofundadora da escola, onde era divulgado conteúdo antivacinação com os professores.

Um pai já tinha levantado a questão sobre se a escola tornaria obrigatória a vacina contra a gripe, e Leila Centner fez questão de expor o seu ceticismo em relação às vacinas, numa carta endereçada aos pais, em que citou uma organização sem fins lucrativos fundada por Robert F. Kennedy Jr., um defensor de teorias antivacinação.

Numa chamada numa plataforma de videoconferência, a responsável pela escola disse mesmo aos docentes: "Se querem recebê-la [a vacina], esta não será a escola certa para vocês."

Apesar de negar que a polémica em torno das políticas da escola tenha razão de ser, Leila Centner publicou na sexta-feira, na rede social Instagram, que falará no próximo mês num "festival de luta pela liberdade", de tema "reabrir a América", com vários políticos conservadores, incluindo Michael T. Flynn e Roger J. Stone Jr.

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