"Espanha é um circo." Os espanhóis vão a votos num clima de frustração

Os cidadãos estão cansados das repetições eleitorais e a abstenção ameaça ser a protagonista do próximo domingo.

Cansados, desiludidos e fartos. É assim que se sentem os espanhóis à porta de mais umas eleições legislativas: as quartas em quatro anos. "Agora mesmo, Espanha é um circo e, sinceramente, não vale a pena investir tempo nos políticos", diz Lorena. Ao lado, Israel também não esconde o desânimo: "É horrível. Supostamente deviam ter feito o seu trabalho que é chegar a acordo e não o estão a fazer".

A repetição constante de ciclos eleitorais instalou na sociedade a descrença e a frustração. As sondagens dizem que, no próximo domingo, todos esses sentimentos se podem transformar em abstenção e muitos cidadãos podem decidir não ir votar. "Nenhuma das pessoas candidatas a presidente merece a minha confiança de maneira que prefiro não votar, sinceramente", confirma Lorena. Nas passadas eleições exerceu o direito de voto, mas a falta de entendimento entre os partidos fez-lhe perder a paciência: "É ridículo. Espanha não é um país estável e a culpa é dos políticos. Não quero dar o meu voto a nenhum deles. No final das contas, tantas votações para quê?"

​​​​​​​Nas últimas eleições, votou mais de 75% da população. Para o próximo domingo, os especialistas preveem uma descida de pelo menos 4 pontos na participação. E nesse caso, explica o politólogo Xavier Peytibi, será a esquerda a sofrer as consequências."Quanto maior for a abstenção, menos votos conseguirá a esquerda, historicamente é assim. A direita costuma mobilizar-se sempre e, no mínimo, uns 11 milhões de pessoas não costumam falhar, votam sempre à direita", explica.

Além disso, os estudos de opinião revelam uma percentagem de indecisos que ronda os 30%. "Sabemos que é uma característica do eleitorado. Nas últimas eleições, a 15 dias da votação, 40% ainda não sabia em quem ia votar. E nas eleições de 2016, 18% dos eleitores decidiu o voto no próprio dia das eleições", diz Peytibi. É o caso de Israel : "Ainda não sei se vou votar nem em quem. Estou um pouco desiludido, não me sinto identificado com nenhum partido".

Em abril, foi o medo à extrema-direita que mobilizou a esquerda. Com o Vox a crescer nas sondagens, que lhe dão mais de 40 deputados, o PSOE espera que esse medo reapareça e faça com que os seus votantes não fiquem em casa. Alguns, como Juan, confessam que é o medo que os move: "Vou votar e vou votar diferente daquilo que votei em abril só para que não governe a direita".

Com cada vez menos gente dada à fidelidade partidária, é mais difícil acertar nas sondagens até porque, diz o politólogo, "grande parte da percentagem de indecisos transforma-se depois em abstencionista". Mas no que todas parecem estar de acordo é que, com mais ou menos votos, Sánchez vai ganhar mas nem a direita nem a esquerda terão números suficientes para governar. E aí, começa a dança dos pactos: "Acho muito improvável um governo de esquerda, diria mesmo impossível. Há uma falta de sintonia absoluta entre o presidente do Governo Pedro Sánchez e o líder do Unidas Podemos", explica o politólogo Ismael Crespo.

Com este panorama, os cidadãos já não afastam a hipótese de umas novas eleições depois destas e não escondem a frustração. "Há muitos partidos novos, não estão habituados a negociar, a falar uns com os outros, a ceder... Não sabem fazê-lo, mas em algum momento terão de chegar a acordo e se for preciso fazer outras eleições... O que é que podemos fazer? A culpa não é dos cidadãos, a culpa é deles que não fazem o seu trabalho. Esta classe política não está preparada. Com outros políticos isto não teria acontecido", diz Eva.

Para os analistas, um cenário de terceiras eleições seria um suicídio político para todos. Ismael Crespo aposta uma abstenção do PP para desbloquear um Governo dos socialistas, um Executivo que também poderia ter um prazo de validade curto. "Muito me temo que Sánchez não vai querer a soma da esquerda com os nacionalistas e que vai pedir ajuda ao PP para o livrar desta confusão em troca de uns pactos de Estado. Sánchez poderia governar com alguma tranquilidade algum tempo, sabendo que depois iria haver eleições em qualquer caso", analisa.

Este domingo, Espanha começa fazer as contas.

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