Está a acontecer no Brasil "um genocídio dos índios". O alerta de Marina Silva

A ex-ministra brasileira do meio ambiente do Governo de Lula acusa o Governo de Bolsonaro de ter uma visão "negacionista" dos problemas ambientais e "destruir o que foi feito nos últimos 30 anos".

O Brasil chegou à Cimeira do Clima com uma das principais emergências climáticas na bagagem. A Amazónia viveu este verão uma das épocas mais negras da sua história, devastada por inúmeros incêndios que desataram as críticas internacionais ao Governo de Bolsonaro.

Em entrevista à TSF, Marina Silva, ex-ministra do ambiente do Brasil, que está nesta COP25 como observadora, junto a varias organizações da sociedade civil, lamentou as ações deste governo. "Em menos de um ano, o Governo Bolsonaro destruiu o que vem sendo construído há mais de 30 anos. É a primeira vez que o Brasil vem com uma visão negacionista e, junto com os Estados Unidos, uma posição de impedir os avanços", disse.

Uma das primeiras decisões de Bolsonaro quando chegou ao Palácio do Planalto foi cancelar a oferta do Brasil para realizar a COP25. A Cimeira foi então programada para o Chile e acabou por acontecer em Madrid, pela instabilidade social vivida no país. Além disso. Bolsonaro também ameaçou retirar o Brasil do Acordo de Paris, como fez Donald Trump com os Estados Unidos, mas finalmente acabou por não levar avante a decisão.

Enquanto Bolsonaro estiver no poder, Marina Silva não tem esperança numa mudança de políticas ambientais. "O governo Bolsonaro tem uma visão do inicio do século XX e ele acha que vai desenvolver o Brasil hoje como no início do século XX, como se os recursos fossem infinitos e a floresta fosse um problema e não uma solução. Ele não muda essa ideia", explica.

Por isso a exministra apelou "à responsabilidade do Congresso" para travar Bolsonaro e pediu à comunidade internacional que "comece a exigir às empresas brasileiras que os seus produtos sejam exportados com qualidade social e ambiental". "Favorecer os produtos que respeitam os índios e o meio ambiente, que se produzem em base sustentável e rejeitar os que se produzem em área desmatada e com violência é fundamental", sintetizou.

Perigo para as comunidades indígenas

O Brasil entra nesta cimeira com números recorde de desflorestação da Amazónia. Ainda assim, o ministro do ambiente, Ricardo Salles veio à COP25 destacar o trabalho de proteção feito pelo governo e pedir aos países desenvolvidos mais verbas para compensar o esforço brasileiro.

"Vamos cobrar a promessa dos países ricos aos países em vias de desenvolvimento de proporcionar recursos suficientes para que se pague ao Brasil pelo trabalho que já está a ser feito", disse o ministro numa das conferencias da COP25. Recorde-se que neste verão, a Noruega e a Alemanha congelaram as verbas que enviavam ao Fundo de Conservação da Amazónia depois de Bolsonaro ter mudado, de forma unilateral, a equipa que gere o Fundo.

Confrontada com as declarações do ministro, Marina Silva considera que não faz sentido fazer depender a proteção da Amazónia de um aumento das verbas e apontou o dedo à política de desinvestimento do Governo. "O governo parou com as ações de fiscalização, parou o trabalho de inteligência da polícia federal, cortou os orçamentos para os órgãos de gestão e monitorização e enfraqueceu o trabalho das equipas técnicas", acusou Silva.

As comunidades indígenas, que têm visto desaparecer as suas áreas de reserva protegida, são as mais prejudicadas. Este sábado, já durante a Cimeira do Clima, duas líderes indígenas foram assassinadas no Maranhão. Marina Silva diz que não são episódios isolados: "É um genocídio o que está a acontecer em relação aos índios, de não marcar as suas terras e não fazer frente ao aumento do assassinatos dos que resistem às ocupações e ao desmatamento e queimadas ilegais".

Além disso, a ex-ministra do ambiente acusa o Governo de ter "conivência com as impunidades que estão a acontecer". "Quando os madeireiros ilegais invadem as áreas de conservação dos índios e o governo diz que vai regularizar por lei essas áreas está a estimular essas invasões e a favorecer a violência", explica.

A América Latina vive tempos convulsos e Marina Silva quer aproveitar a cimeira para pedir à comunidade internacional que exerça pressão sobre o governo e obrigue o Brasil a comprometer-se com os requisitos ambientais e os direitos humanos. "De um lado temos uma visão liberal extremada que não olha para os problemas sociais e ambientais, e de outro, grupos supostamente de esquerda que se aferraram ao poder e usam dinheiro de corrupção para se manter no poder, em prejuízo da democracia e do seu povo", explica. "No Brasil, temos Bolsonaro, que quer ficar no poder em prejuízo das questões de direitos humanos, do meio ambiente, de respeito à diversidade social e cultural, à democracia".

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