"Está em curso uma revolução ambiental muito grande. E Portugal está bem situado"

Em entrevista à TSF e ao DN, a comissária portuguesa para a Coesão e Reformas garantiu querer "dar um contributo" para a mudança "muito grande" no panorama de crescimento da economia europeia, impulsionado pelo pacto climático.

Elisa Ferreira terá a seu cargo a criação de um fundo para ajudar as regiões mais severamente atingidas pela transformação do processos industriais, para os tornar "mais amigos do ambiente". Em declarações à TSF e ao Diário de Notícias, a comissária da Coesão e Reformas afirma que Portugal já "está bem situado", em matéria de ambiente.

O que representa o pacto climático "Green Deal", no futuro da UE?

Aquilo que me parece que é importante é as pessoas terem a noção de que está em curso uma revolução ambiental muito grande, que vai obrigar a que se repense todo o processo produtivo [ou] a própria agricultura. É um grande desafio para a Europa. E, sobretudo no contexto global, é preciso tratar com muito cuidado a inserção da Europa num mundo global, com este grande desafio pela frente.

Como vai funcionar o fundo para a transição justa?

O fundo é um fundo e uma parte sozinha, pequenina, deste grande envelope. Sendo que nosso envelope - mais conhecido e que é mais querido dos Portugueses - é parte da coesão. E a coesão também vai ter uma percentagem de fundos, que têm de ser dedicados a melhorar a nossa relação com o ambiente e os aspetos que são muito importantes e que têm de ser tomados em conta. Por exemplo, uma gestão mais equilibrada e mais eficientes de transportes ou o processo de proteção das nossas habitações para gastarmos menos energia.

Ou seja, a política de coesão também contribui para a ação climática?

Há, de facto, aqui toda toda uma quantidade de temas que vão estar também na política de coesão e a política de coesão na proposta da Comissão Global para a Europa estamos a falar de 330 mil milhões de euros. No fundo [para a transição justa], neste momento pode ser 100 [mil milhões] - se for. Mas é alavancado, como se costuma dizer, em cima de um bocadinho do orçamento que é 5 [mil milhões de euros].

Quem beneficia?

O fundo é importante [e] vai ajudar a fazer a transição em regiões que dependem totalmente de indústrias muito poluentes ou mesmo só do carvão. Mas, com tudo o resto que nós temos à nossa disposição, temos de fazer opções que sejam ambientalmente compatíveis, para não fazermos uma gestão em que hoje, ao crescer, crescemos de qualquer maneira, e amanhã temos de vir limpar um impacto que foi gerado por uma desatenção no processo de crescimento. Esta agenda vai radicalmente alterar a Europa.

De que forma pode Portugal adaptar-se para também beneficiar?

Esta política vai provocar uma mudança. E Portugal está bem situado nesse aspeto. Já tem uma possibilidade - ao contrário de outros países - de utilizar muita energia renovável, muita energia solar, energia hídrica, energia retirada das marés, portanto, já faz os moinhos de vento. Podemos e devemos desenvolver as tecnologias de poupança de energia porque todas as indústrias vão começar a ter de trabalhar em cenários de menores emissões. Pessoalmente, penso que, com as nossas universidades, os nossos politécnicos, os nossos jovens, teremos condições de também dar conteúdo e aproveitar esta agenda em nosso benefício. [Por exemplo], também nas políticas urbanas e na utilização dos fundos estruturais.

Espera que esta discussão se faça a tempo da entrada em vigor do quadro do próximo quadro financeiro plurianual?

Já está a ser feita neste momento. Já há limiares recomendados que são variáveis, relativamente ao modo como podem ser utilizados os fundos estruturais e, portanto, essas fazem parte das regras. Conforme as regiões, há um mínimo de 30%, mas que pode ir a valores mais elevados dos fundos, que têm de ser utilizados em projetos que sejam verdes, isto é que ajudem a recuperar a relação das atividades económicas com o ambiente, [e] é combinado com a digitalização, isto é, a utilização de novas tecnologias, porque elas mesmas têm de acompanhar e são consentâneas, - em princípio, ou têm de ser - com este objetivo de tornarmos a economia mais sustentável.

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