entrevista com Shanna Swan

"Estamos perto de uma crise." Baixas contagens de esperma ameaçam futuro da Humanidade

Shanna Swan, epidemiologista e investigadora na área da reprodução, na Escola de Medicina Icahn no Monte Sinai, de Nova Iorque, junta uma nova crise à das alterações climáticas. Não é apenas o aquecimento global que põe em risco a sobrevivência da espécie. A ação humana conduziu a uma crise de fertilidade cada vez mais difícil de combater. A autora revela mesmo, nesta entrevista à TSF, que o ser humano está a chegar perto do ponto de não retorno.

Compara a crise climática à crise da infertilidade. Em que medida a infertilidade é também uma ameaça à Humanidade, neste momento?

Não as comparo no sentido de qual é a pior ou maior. O que quero dizer é que estamos agora no ponto da crise de fertilidade em que estávamos há quatro anos, com a crise das alterações climáticas.

Não digo que isto seja tão alarmante ou tão terrível, mas penso que é ameaçador. Não penso que se possa equiparar, mas inicialmente a crise climática foi negada, certo? As pessoas diziam que não estava a acontecer, e depois, quando começaram a ver as evidências, reconheceram que o fenómeno existia, mas recusaram que se devesse à intervenção ou ao comportamento humano. Agora gradualmente as pessoas já começam a dizer: 'Sim, podemos fazer algo para travar isto, porque acontece devido ao nosso comportamento.'

É isso que eu considero comparável, porque, em 1992, quando as primeiras evidências do declínio na contagem no esperma em todo o mundo começaram a surgir, sobretudo de acordo com uma investigação feita na Dinamarca, foi completamente rejeitado.

Agora estamos 25 anos atrasados. Quando fiz a minha investigação, em 2017, as pessoas começaram a dizer 'sim, está a acontecer algo, parece haver um declínio na qualidade do esperma, mas não é devido à nossa atividade'.

Quais são os números de referência que permitem definir uma ameaça severa?

A contagem média do esperma está nos 47 milhões por mililitro nos países ocidentais, e, quando chega a níveis tão baixos, estamos a chegar a um ponto em que é cada vez mais difícil conceber uma gravidez naturalmente. E há níveis de 40 milhões por mililitro. Quando chega a esse ponto, demora cada vez mais a ocorrer uma gravidez de forma natural.

É onde estamos agora, e as evidências mostram que continua a baixar. Por isso, acredito que estamos perto de uma crise.

Além destes números, aponto o declínio de muitos outros fatores: a fertilidade, que é o número de filhos que cada casal tem, diminuiu em 50% desde 1960, em todo o mundo. Era habitual uma média de cinco filhos por casal em 1960 e agora esse número situa-se nos 2,4. E, já agora, acredito que Portugal tem números muito baixos. Quando diminui até 2,1, atingimos níveis abaixo da substituição e muitos aspetos na sociedade ficam ameaçados, como as estruturas sociais, a pirâmide demográfica e a capacidade de os mais novos tratarem dos mais velhos. Há muitos aspetos em que isto pode ser problemático para a sociedade. Em muitos países isso já está a acontecer.

Por que acredita que a contagem zero pode ser atingida em 2045?

Se estendermos a linha que desenhámos em 2017, se a prolongarmos sem qualquer inversão de tendência, quando é que a contagem chega a zero? Atinge o número zero em 2045. Se eu acredito que lá vamos chegar? Não, não acredito. Penso que vamos fazer esforços para o inverter, e, além disso, a forma como os sistemas biológicos funcionam não é uma linha reta, não é?

As coisas desaceleram quando chegam a valores críticos como zero. Não é possível ter esperma em contagens negativas. Vamos acabar por ver desacelerar, mas ainda não aconteceu, e, entre agora e o nível zero, é um período muito crítico para as contagens de sémen, porque estamos numa época em que é cada vez mais difícil engravidar.

Acredita que vamos criar soluções inventivas para contornar este problema?

Estou certa de que as pessoas vão encontrar soluções para que desacelere nos países em que os níveis já são muito críticos. Alertar as pessoas para este problema vai ajudar a que haja uma mudança. A não ser que estejamos conscientes desta situação, não estamos motivados para a alterar. Quando as pessoas se aperceberem de que isto é um problema sério, podemos começar a falar sobre o que o está a causar, sobre como removemos as causas de uma forma que preserve a nossa fertilidade.

A pandemia terá um impacto significativo, sendo que falamos de um fenómeno que começou há menos de dois anos?

Já tem tido um impacto tremendo, não é? Aliás, não são apenas os humanos que estão a ser afetados. Vemos claramente as ameaças a outras espécies que estão a ficar em risco e até extintas, à medida que perdem a sua capacidade de reprodução. Estamos perto de nos podermos juntar a elas, infelizmente.

O sucesso do sistema reprodutor está a tornar-se cada vez mais difícil para as pessoas que têm químicos nos seus corpos. Quando tentam com métodos de reprodução assistida, os químicos interferem e impossibilitam o sucesso das técnicas. Já estamos a assistir a impactos severos destas alterações. A menos que tentemos inverter, isto só se vai tornar pior. Por isso, é um problema de agora, e não do futuro.

São ambas as células - femininas e masculinas - do aparelho reprodutor que estão a ser ameaçadas?

Sim. Se olharmos para a taxa de abortos, vemos que está a aumentar na mesma medida em que a fertilidade está a diminuir e os níveis de esperma estão a diminuir. A testosterona também está a diminuir em todo o mundo, e podemos continuar... Mas olhamos para estas medidas de função reprodutora e todas estão a decrescer na mesma proporção. Isso significa que algo está a acontecer e que é comum a todos os fatores, que são as causas da diminuição nas contagens.

E quais são as causas que estão a contribuir para uma redução em tantos fatores essenciais à fertilidade?

As principais causas são os químicos que podem afetar, e afetam, as hormonas produzidas pelo corpo, porque as hormonas, sobretudo as hormonas sexuais, como a testosterona e o estrogénio, são absolutamente essenciais para uma vida reprodutora saudável. Isso começa muito cedo, no útero, logo que uma gravidez é concebida. Esse é o período mais delicado, mas há também a possibilidade de interferência com a função do esperma e da saúde reprodutora da mulher na idade adulta. Temos químicos no nosso ambiente que podem afetar e afetam as hormonas do corpo de formas que conseguimos medir. Esses químicos estão interferir com a nossa capacidade de nos reproduzirmos.

Que critérios estão a ser atendidos para dizermos que a espécie humana pode estar em perigo?

Bom, nós temos alterado o ambiente de uma forma que é prejudicial. Não estamos a legislar adequadamente para controlar esta exposição, e, claro, estamos a ter problemas em reproduzirmo-nos. Não estamos a ir muito bem...

E os químicos que fazem isto não são desconhecidos, não são raros, claro, estão em si, estão em mim, e, se os medíssemos agora, veria talvez cem destes químicos no seu corpo neste momento. É surpreendente porque não está consciente da presença deles. Eles entram, escondidos, sem qualquer aviso. Não são como o fumo; estamos conscientes do fumo ou da toma de uma droga, mas não estamos alerta para a entrada destes químicos. Vêm na nossa comida, na nossa água, no pó, no nosso ar, na nossa pele... Estão em todo o lado. E estão em todo o lado nas nossas casas. Parece impossível evitá-los, mas, por acaso, há coisas que podemos fazer para os evitarmos para diminuir a exposição.

O que podemos fazer?

A comida é provavelmente a pior causa. Por isso, se as pessoas puderem... Não conheço bem a regulamentação em Portugal para os químicos e para a comida, mas na União Europeia é muito melhor. Nos Estados Unidos, é muito pior. Há centenas de químicos nos Estados Unidos que ainda nem sequer foram testados. Estão na nossa comida, particularmente em plastificantes, aditivos que estão no plástico. Podem estar em recipientes de plástico ou podem estar no plástico para onde a comida vai quando é processada, quando está numa fábrica e é colocada em embalagens e em frascos.

Os químicos saem desses plásticos e permanecem na comida. Também podem entrar quando a armazenamos ou aquecemos no plástico, algo que não devemos mesmo fazer. Por isso, é uma combinação de aquecimento e plástico, o que deve mesmo ser evitado, certo?

Também podemos apanhá-los em tecidos e em revestimentos de pavimentos. Há riscos associados a revestimentos de paredes e ao pó dentro de casa. Por isso, a resposta a que temos de tentar estar conscientes. Temos de estar mais atentos: de onde poderão estar a surgir? Os materiais serão seguros, serão inócuos? Será que isto é bom, ou não? Podemos ler sobre esses produtos, podemos aprender a fazer escolhas melhores, certo? E há muitos sites na internet que podem fornecer pistas e conselhos sobre como fazer escolhas melhores em termos de produtos de limpeza, por exemplo.

Os sites que eu conheço são ingleses e norte-americanos e referem produtos desses países, mas tenho a certeza de que há também recomendações para utilizadores europeus.

Por isso, a resposta é: se não temos a certeza do que há num produto, em primeiro lugar, devemos evitá-lo. Não o compre. E, se o quer comprar, tente descobrir o que é que os misteriosos químicos no rótulo querem dizer, antes de o comprar. Tente evitar tudo o que seja um plastificante ou uma substância inflamável ou um pesticida. Há muitos, mesmo muitos, destes químicos, e só temos de estar alerta. Essa é a mensagem, especialmente quem estiver grávida ou a planear engravidar, porque esse é o período mais arriscado.

Diz que não estamos a sair-nos bem, mas não é o que diz a evolução demográfica. O número de pessoas no planeta é hoje cinco vezes maior ao número de pessoas existentes em 1900, e a esperança média de vida aumentou para o dobro. Isto não significa que estamos a expandir-nos demais?

Estamos a expandir-nos neste momento, isso é certo. Mas, se olharmos mais à frente para o que os números fazem prever, vamos continuar a expandir por algum tempo... Os estudiosos da demografia avançam com datas diferentes. Alguns dizem que vamos expandir até 2060, outros dizem que vamos aumentar até 2070. Depois, vamos entrar em declínio, e dizem que, depois disso, já não recuperamos.

Isto acontece porque, quando uma sociedade se habitua a ter uma criança, ou duas crianças, por casal, não quer aumentar. Por várias razões, e boas razões, eu acho: razões relacionadas com a educação da mulher e a capacidade da mulher de se juntar ao mercado de trabalho, por razões económicas... Mas também tenho de dizer que há agora novos lugares em que os níveis já são bastante baixos, que são os países asiáticos. O número é agora próximo de 1,0. É muito baixo em lugares como a Coreia e Singapura. No Japão, não é tão baixo, mas também é reduzido. E estes países já tentaram incentivar as pessoas a terem mais filhos. Estão a pagar-lhes para terem mais filhos, e as pessoas não o estão a fazer. Não estão a conseguir dar a volta ao problema. Isto é que é o mais surpreendente. A conjuntura de se ter mais filhos é uma conjuntura de pobreza, de países de terceiro mundo. Assim que se livram dessa condição, por que haveriam de voltar para trás?

Por isso, o que vemos são estes números a baixar, e, no entanto, em países em que as pessoas querem ter filhos, não conseguem. O uso de métodos de reprodução assistida tem aumentado dramaticamente, e isto está a tornar-se cada vez mais difícil.

Temos uma narrativa muito complicada no Ocidente. Neste momento, temos muitas pessoas no planeta, e temos muitas pessoas que não conseguem ter filhos, ao mesmo tempo, dependendo de onde o estivermos a ver. A história não é a mesma em todo o mundo. É uma história de disparidade e desigualdade. À medida que a desigualdade for mudando, e espero que mude, tornar-se-á mais difícil para todos terem filhos.

Portanto, não são apenas fatores biológicos que estão a contribuir para a diminuição da fertilidade... Há também fatores sociais, culturais e económicos.

Não são só os químicos, devo dizer; também estamos a fazer coisas que enfraquecem a nossa saúde de uma forma geral e a nossa saúde reprodutora. Por exemplo, a obesidade é um fator de risco para a diminuição da contagem de esperma e para a fertilidade. Fumar, beber bebidas alcoólicas... O uso excessivo de drogas recreativas, o stress... Todas as coisas que sabemos que afetam a nossa saúde cardíaca também afetam a saúde do nosso sistema reprodutor e a nossa capacidade de conceber uma gravidez. Por isso, as pessoas podem melhorar, se quiserem ter um bebé. Devem minimizar, não só os químicos que levam para dentro de casa, mas também os comportamentos que afetam a fertilidade.

Está a dizer que as nossas ações, as ações da Humanidade, estão a colocar não só as outras espécies em perigo, mas também o Homem. E já o víamos com as alterações climáticas...

Absolutamente. Tanto o homem como a mulher estão a ser afetados na sua saúde reprodutora, e não é só por causa de não terem bebés, porque, se os parâmetros de reprodução baixam, se o homem é infértil, se há baixas contagens de esperma, ou a mulher é infértil, tem mais doenças: mais doenças cardíacas, mais diabetes, mais cancro, e morre mais jovem, o que é muito surpreendente para muitas pessoas. A saúde reprodutora é importante para toda a saúde, de uma forma geral. Não estamos só a falar de ter filhos. Também tem que ver com a saúde que temos. Como espécie, estamos a ficar menos saudáveis e menos em forma, à medida que perdemos a nossa capacidade reprodutora.

Não é possível que os nossos sistemas reprodutores evoluam e se adaptem a estas novas condições?

É possível, mas a evolução não é muito rápida. Isso não vai mudar muito em dez ou 20 anos, e esse é o tempo que temos para entrarmos em ação.

Acredita, ainda assim, que o ser humano vai ser capaz, em tão poucos anos, de criar soluções eficazes?

Sim, penso que sim. Penso que teremos soluções criativas por dois motivos. O primeiro é que os cientistas estão a aperfeiçoar-se nos métodos de reprodução assistida. Essa é uma grande ajuda neste momento. Por outro lado, estamos a criar soluções para ter químicos melhores. Estes produtos, como as garrafas de plástico e outras coisas que usamos em casa, são coisas a que estamos habituados e que queremos ter. Por isso, os químicos têm de se ocupar disto e aprender como fazer estes produtos com substâncias que não afetam as nossas hormonas, certo?

Mas mudar a regulamentação é difícil e caro, e é preciso que os Governos o determinem. Para já isso não está a acontecer.

Tem visto algum sinal positivo de que os governos estão alerta para este problema?

Tenho falado com o máximo possível de governos, tenho falado com vários comités sobre o assunto e com pessoas das Nações Unidas. Tenho feito o que posso, e outros cientistas também o têm feito, para que a mensagem passe. Se os governos vão ouvir ou ouvir a tempo, não sei... Temos a mesma situação com o aquecimento global, não temos? Temos de fazer mudanças na regulamentação, e alguns governos têm respondido; outros, não.

Há cientistas em todo o mundo que estão muito conscientes disto, e essa é uma das razões pelas quais tenho alguma confiança de que faremos a diferença. Temos apenas de fazer o barulho suficiente falando com a maior quantidade de pessoas que possamos. Os mais jovens têm de ver isto, tal como estão a reconhecer a urgência que é inverter as alterações climáticas. Isto não é apenas um problema dos nossos filhos, é também um problema dos filhos dos nossos filhos. Se não queremos contribuir com um legado de baixíssima fertilidade, temos de resolver já este problema.

Há já muitas pessoas a sofrer por quererem ser pais e não conseguirem...

Exatamente. A maioria das pessoas, ou sofre com esse problema, ou conhece alguém, ou tem alguém na família com este problema. Com esta evidência à nossa frente, temos de começar a levar isto a sério. Quando as pessoas veem que há provas - no caso do aquecimento global, foram as inundações, os incêndios e as temperaturas elevadíssimas -, começam a acreditar. E muitos casais começam a acreditar porque veem a dificuldade que têm em engravidar.

Considera um bom conselho dizer aos mais jovens que congelem células reprodutoras?

Não quero fazer essa recomendação, porque é uma recomendação médica, mas, se fosse eu, e eu fosse muito mais nova e estivesse preocupada, era algo que sem dúvida ponderaria.

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