Não eram marcas naturais. Cientistas descobrem que pintura em caverna foi feita por Neandertais

Acreditava-se que as marcas de tinta vermelha numa caverna espanhola eram resultado de processos naturais, mas um novo estudo indica que a pintura foi feita pelos Neandertais, o que mostra as habilidades das primeiras espécies humanas.

Uma rocha manchada de vermelho descoberta numa caverna no sul de Espanha mostra que a pintura foi feita por Neandertais. As conclusões são de um novo estudo que refuta as pesquisas anteriores que diziam que as marcas vermelhas eram resultado de processos naturais.

As marcas são datadas de há mais de 60 mil anos e foram feitas numa estalagmite de 100 metros na Cueva de Ardales, perto de Málaga, avança a CNN. A forma de cúpula da estalagmite era constituída por pilares de mineral depositados pela água e as manchas foram feitas dentro de dobras de rocha que se assemelhavam a cortinas fechadas.

Os investigadores analisaram amostras dos resíduos vermelhos e concluíram que o ocre, pigmento natural encontrado na argila, foi trazido de outro local, embora não se saiba exatamente de onde. O autor do estudo, João Zilhão, do Instituto Catalão de Investigação e Estudos Avançados e professor investigador da Universidade de Barcelona e da Universidade de Lisboa, citado pela CNN, explica que o pigmento deve ter sido "recolhido, transportado e preparado antes de entrar na caverna, o que implica deliberação e planeamento".

De acordo com o estudo publicado na revista da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, na segunda-feira, os autores consideram que as manchas representam uma forma de marcar um lugar que poderia ser simbolicamente importante para quem as fez e acreditam que "a cúpula é o símbolo e as pinturas existem para marcá-lo como tal".

Descoberta mostra habilidades das primeiras espécies humanas

O estudo comparou a formação rochosa manchada de vermelho com Bruniquel, um lugar na França, onde misteriosas estruturas em forma de círculo feitas de estalagmites foram encontradas dentro de uma caverna subterrânea, sugerindo que os especialistas podem ter subestimado as habilidades das primeiras espécies humanas.

"Tudo o que podemos dizer com certeza é que o subterrâneo foi importante para eles. Também podemos especular que, com toda a probabilidade, foi por motivos mitológicos", considera Zilhão. Pinturas em cavernas e artefactos, como conchas do mar pintadas, há muito que são consideradas trabalho dos primeiros humanos modernos, e foi somente com o surgimento de novas técnicas de datação que algumas foram reconhecidas como obra dos Neandertais.

Alistair Pike, professor de ciências arqueológicas da Universidade de Southampton, afirma, citado também pela CNN, que há muito havia uma "justaposição entre humanos como pensadores artísticos e os Neandertais, os 'brutos idiotas' que arrastam os nós dos dedos".

"Foi assim que eles foram retratados numa série de pinturas e esculturas em publicações e museus no início do século XX, e esses estereótipos persistiram apesar de haver muito pouca evidência", acrescenta, sublinhando que "a questão das capacidades simbólicas dos Neandertais tem sido muito controversa, mas isso remonta a ideias ultrapassadas e racistas do século XIX".

Os Neandertais habitaram a Terra por 350 mil anos. Os especialistas acreditam que os Neandertais se sobrepuseram aos humanos modernos, geograficamente, por um período de mais de 30 mil anos depois de os humanos terem migrado para fora de África e antes de os Neandertais se extinguirem há cerca de 40 mil anos.

Os cientistas haviam anteriormente sugerido que as marcas na caverna espanhola eram o resultado de processos naturais, como óxidos de ferro depositados por gotas de água ou contacto acidental de alguém com pigmentos vermelhos na pele ou nas roupas. Contudo, os autores deste novo estudo sustentam que a análise realizada não revela esses dados, visto que apenas uma pequena área da estalagmite, que estava localizada numa grande caverna, foi colorida e não havia marcas semelhantes noutras partes das paredes da caverna.

Os investigadores acreditam que as marcações foram feitas por respingos de tinta, tendo sido usados, pelo menos, dois pigmentos distintos e em diferentes momentos temporais e sugerem que a cúpula da estalagmite foi usada por um longo período de tempo.

"A datação da pedra é consistente com a hipótese de que os Neandertais visitaram repetidamente a câmara em que a pedra está localizada para marcá-la simbolicamente, demonstrando, portanto, que estamos a lidar com uma tradição simbólica de longo prazo", acrescentou à CNN Francesco d'Errico, diretor de pesquisa do Centro Nacional Francês de Pesquisa Científica e professor da Universidade de Bergen.

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