Evan McMullin: "O caminho do Partido Republicano tem de mudar"

Em entrevista à TSF, candidato independente às eleições presidenciais de 2016 nos Estados Unidos defende um regresso aos valores fundamentais do Partido Republicano.

"O caminho do Partido Republicano tem de mudar." Quem o afirma é Evan McMullin, ex-chefe da CIA e republicano, que concorreu como independente à eleição presidencial de 2016 contra Donald Trump, e que organizou recentemente uma reunião com mais de uma centena de republicanos.

À TSF, McMullin revela a conclusão da reunião que tinha sobre a mesa a possível criação de um partido de centro-direita.

"Cerca de 40% dos presentes - eram cerca de 120 lideres políticos e intelectuais republicanos - achou que deveríamos começar um novo partido. Contudo, 43% acha que deveríamos criar uma fação dentro do partido que trabalhe em prol da mudança", revela.

Fratura ou fação. Consciente da dificuldade em criar um terceiro partido nos Estados Unidos, Evan McMullin afirma que, mais do que sarar as feridas do Partido Republicano, é crucial restaurar os valores fundadores do partido, afastando-o do denominado Trumpismo.

Nomeadamente, os valores de que "todos são criados iguais, que temos o mesmo valor e que somos todos vistos da mesma forma pela lei, que somos todos igualmente livres e que, assim sendo, temos um governo responsável. Que vivemos em democracia, que somos governados pela verdade e pela razão. É essa a ideia. Nós não podemos ter um governo que é antidemocracia e esperar que a nossa republica sobreviva."

Com um lado do partido ainda aliada a Donald Trump, parte dos republicanos teme que o ex-presidente regresse ao poder em 2024. Se não houver alternativa é melhor perder as eleições, diz o republicano.

"Se o partido não estiver unido não ganhará a maioria em ambas as câmaras do Congresso, não ganhará a Casa Branca. Muitos entre os republicanos consideram isso algo negativo, contudo nós temos uma perspetiva diferente. Nós acreditamos que se o partido republicano é antidemocracia então não deveria ganhar."

Evan McMullin está certo de que algo novo acontecerá. Até lá a questão continua sobre a mesa: querem estes republicanos criar um novo partido nacional ou formar uma nova fação dentro do partido? Foi também esta a pergunta que a TSF colocou na mesa do republicano Evan McMullin numa entrevista sobre o futuro do partido republicano.

Leia a entrevista na íntegra

Quero começar esta entrevista voltando atrás no tempo até 2016 quando concorreu às presidenciais como independente. Na verdade, a sua campanha foi uma das mais bem-sucedidas na história dos estados unidos. Portanto, pergunto porque é que pretende criar um novo partido ao invés de voltar a concorrer como independente?

Bem, ainda não decidi se quero fazer isso ou não. Nós tivemos uma reunião há algumas semanas com líderes intelectuais republicanos e líderes políticos sobre como mudar a direção do partido republicano e se isso seria possível e, se não, se deveríamos criar um novo partido. Essas foram as questões que colocamos. Cerca de 40% dos presentes - eram cerca de 120 lideres políticos e intelectuais republicanos - cerca de 40% acham que deveríamos começar um novo partido. Contudo, 43% acha que deveríamos criar uma fação dentro do partido que trabalhe em prol da mudança. Esta reunião acabou por tornar-se publica e agora o caminho que se deve tomar é uma discussão pública. Mas as nossas conversas privadas sobre o que fazer a seguir continuam. A discussão intensificou-se e continuamos a acreditar que temos de tomar alguma decisão, de modo a encorajar o partido republicano a mudar. É isso que gostaríamos de ver acontecer. Mas se não conseguirmos talvez tenhamos de começar algo novo. É uma discussão aberta.

Quando diz que quer ver o partido mudar o que quer dizer com isso? Que direção quer que o partido tome?

Primeiramente, o nosso partido republicano deveria estar comprometido com os princípios fundadores. Os mesmos princípios que levaram à criação do partido. Nomeadamente, que todos são criados iguais, que temos o mesmo valor e que somos todos vistos da mesma forma pela lei, que somos todos igualmente livres e que, assim sendo, temos um governo responsável. Que vivemos em democracia, que somos governados pela verdade e pela razão. É essa a ideia. Nós não podemos ter um governo que é antidemocracia e esperar que a nossa republica sobreviva. Nós temos um sistema partidário neste momento e é difícil mudar isso. Portanto, precisamos que os dois partidos estejam comprometidos com os nossos valores para com a democracia e, neste momento, apenas um dele está. É isso que estamos a lutar para mudar.

Tendo em conta o que diz parece que pretende reformar mais do que curar o partido. Qual é a sua visão quanto a isso?

Sim, diria que estamos a tentar reformá-lo e curá-lo. É isso que gostaríamos de fazer. É muito difícil começar um terceiro partido nos Estados Unidos que seja bem-sucedido. Portanto, queremos fazer o que é mais eficiente e com os melhores resultados para o país. Assim sendo, se conseguirmos reformar o partido, mudá-lo, curá-lo, fá-lo-emos. Mas a realidade é que isso é muito difícil de concretizar, porque a maioria do partido quer continuar ao lado do ex-presidente Trump e do extremismo da extrema-direita. O mesmo extremismo que levou as pessoas a realizar um ato violento de insurreição na tentativa de alterar o resultado das ultimas eleições, a fim de permitir que o presidente Trump se mantivesse no poder de forma ilegítima. Não há lugar no partido republicano para essa ala antidemocracia e para uma ala pro-democracia. Isso não funciona. Portanto, ou os empurramos para fora ou eles nos empurram para fora. De qualquer forma, acredito que se venha a formar algo novo.

É sabido que se encontrou com membros reconhecidos do partido. Eles estão alinhados? Têm a mesma visão que o Evan em relação ao futuro do partido?

Acho que há algo que nos une muito claramente, que é reconhecermos que a direção do partido tem de mudar ou ser substituída. E estamos também unidos quanto aos nossos ideais e valores. A única coisa que ainda não alinhamos é a estratégia de como devemos prosseguir. As divergências não são sobre o é preciso fazer, é sobre como temos de o fazer. Mas quanto mais falamos mais consenso há de que não tem de ser isto ou aquilo, fação ou partido, mas ambos. Talvez criemos uma fação nacional de centro-direita pro-democracia e, depois, em determinados estados, onde seja estrategicamente vantajoso fazê-lo, organizamo-nos como um partido. É dessa forma que o nosso sistema funciona. O partido é uma coleção de organizações estaduais, portanto podemos organizar-nos num estado como um partido oficial, se estrategicamente fizer sentido, mas nacionalmente ser uma fação que trabalha dentro e fora do partido republicano.

Como sabemos Donald Trump poderá regressar dentro de dois anos, e em quatro anos, para concorrer de novo às presidenciais enquanto líder do partido republicano. Isto afeta de alguma forma o que está a fazer neste momento e o que tem de ser feito para reformar ou curar o partido?

Penso que a eventualidade de Trump regressar em 2024, ou alguém igual ou próximo dele enquanto o nomeado do partido republicano, é algo que nos motiva a agir, a reformar o partido ou a oferecer uma opção diferente às pessoas. Isso é, certamente, um peso grande para nós, mas penso que não podemos combater algo com nada. O que quero dizer é que as pessoas gostam de ter uma casa politica, querem identificar-se com algo, querem dizer "eu apoio aquele grupo politico" ou "eu apoio este grupo politico". Por isso temos de dar às pessoas uma alternativa à direita contra o Trumpismo, na forma de uma nova identidade, de um novo grupo. Algo novo a que se possam associar. Julgo que isso é a maior oportunidade de impedir que Trump regresse ao poder em 2024, ou alguém como ele. Isso permite-nos afastar as pessoas desse extremismo aliando-as a nós. Mas se não tivermos a nossa marca, a nossa identidade, então julgo que será muito difícil. Porque, a que é que nós estamos a pedir às pessoas para se juntarem? A que é que as pessoas se estão a associar? Seria a nada. Portanto, terá de haver algo, seja uma fação ou um partido.

É reconhecido, pelo que dizem os media e o próprio partido, que o partido republicano está bastante fragmentado. Quais são as consequências a longo prazo, não só para o partido mas também para os Estados Unidos?

As consequências a longo prazo para um partido republicano fragmentado. Veja, eu penso que a curto prazo significa que o partido terá dificuldades em vencer eleições. Se o partido não estiver unido não ganhará a maioria em ambas as câmaras do Congresso, não ganhará a Casa Branca. Muitos entre os republicanos consideram isso algo negativo, contudo nós temos uma perspetiva diferente. Nós acreditamos que se o partido republicano é antidemocracia então não deveria ganhar. Talvez precise perder um ciclo ou dois ou mais até que se comprometa novamente a seguir os seus princípios fundadores, a verdade e a democracia republicana. Eu espero que não demore todo esse tempo. Eu queria que acontecesse imediatamente. Mas eu vejo essa divisão dentro do partido de forma mais otimística, mais positiva. Vejo-a como uma oportunidade de renovação, de reforma, ainda que isso possa requerer algumas perdas republicanas significativas ao longo de vários ciclos eleitorais.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de