Ex-diretor preso em comissão parlamentar brasileira paga fiança e deixa prisão

O antigo funcionário do Governo brasileiro foi preso por ordem do presidente da CPI, senador Omar Aziz, sob a acusação de mentir em depoimento à comissão.

O ex-diretor de Logística do Ministério da Saúde do Brasil Roberto Ferreira Dias pagou a fiança e foi libertado após ser preso na quarta-feira por mentir no depoimento prestado na Comissão Parlamentar de Investigação (CPI) sobre a pandemia.

Dias pagou uma fiança no valor de 1.100 reais (cerca de 176 euros) e foi libertado na madrugada de hoje.

O antigo funcionário do Governo brasileiro foi preso por ordem do presidente da CPI, senador Omar Aziz, sob a acusação de mentir em depoimento à comissão.

"Chame a polícia do Senado. O senhor está detido pela presidência da CPI", afirmou Aziz a Roberto Dias.

Esta foi a primeira detenção determinada pela CPI da pandemia, uma comissão instalada no Senado brasileiro, em 27 de abril, para investigar alegadas falhas e omissões do Governo de Jair Bolsonaro na gestão da covid-19.

Dias foi convocado a depor na CPI sobre as acusações de que teria pedido suborno de um dólar por cada dose de vacina da AstraZeneca numa negociação de 400 milhões de doses proposta pela empresa Davati Medical Supply ao Governo brasileiro, que não se concretizou.

A AstraZeneca nega realizar a venda de vacinas através de intermediárias no Brasil e, portanto, a existência destas doses está em causa. No entanto, existem documentos que apontam que a Davati, através do polícia militar Luiz Paulo Dominguetti e outros representantes, procurou o Governo do Brasil para propor doses do imunizante deste laboratório.

Segundo depoimento de Dominguetti à CPI, na semana passada, houve uma proposta da Davati, mas a venda de 400 milhões de doses da AstraZeneca ao Governo do Brasil não se concretizou porque funcionários do Ministério da Saúde, incluindo Dias, teriam pedido suborno de um dólar por dose para fazer o contrato avançar.

Já o ex-diretor de Logística do Ministério da Saúde garantiu que nunca pediu "nenhum tipo de vantagem a Dominguetti nem a ninguém".

"Ele é um 'picareta' [pessoa desonesta] que aplicava golpes. Estou sendo acusado sem provas e estou sendo massacrado na 'media' todos os dias. Meu único pedido aqui é poder falar", acrescentou.

Dias foi demitido do Ministério da Saúde em 29 de junho quando o seu nome foi relacionado com este e outro suposto caso de corrupção no Ministério da Saúde, que envolve a compra da vacina indiana Covaxin.

Questionado pelos senadores da CPI sobre os motivos da sua demissão, o ex-diretor afirmou que a sua "exoneração se deve ao facto fantasioso de suborno de um dólar".

Dias também negou ter negociado vacinas num encontro com Dominguetti e dois militares que aconteceu num centro comercial em Brasília no final de fevereiro e alegou ter encontrado o representante da Davati acidentalmente quando foi tomar uma cerveja com um amigo após o horário de trabalho.

"Esse jantar não era com fornecedor, era com o amigo José Ricardo. Era um 'chope' [cerveja] casual por volta das 18:30 e das 19:00. No restaurante chegou o coronel [Marcelo] Blanco e o Dominghetti. Eventualmente, eu converso com o coronel Blanco. Ao sentar à mesa, ele [Dominghetti] se apresentou", relatou.

O ex-diretor de Logítica frisou inúmeras vezes que não era atribuição do cargo que ocupava no Ministério da Saúde negociar vacinas, o que levou os senadores da CPI a questioná-lo inúmeras vezes.

Contudo, mensagens e áudios registados no telemóvel do Dominguetti, revelados pelo canal televisivo CNN Brasil e que estão em poder da CPI, colocaram em causa a versão de Roberto Dias, de que o encontro foi acidental.

"Rafael, tudo bem? A compra vai acontecer, está? Estamos na fase burocrática. Em off, para você saber, quem vai assinar é o Dias mesmo, ok? Caiu no colo do Dias... e a gente já se falou, não é? E quinta-feira temos uma reunião para finalizar com o Ministério", disse Dominguetti num dos áudios enviado a um interlocutor, gravado em 23 de fevereiro, dois dias antes do encontro no 'shopping' em Brasília.

Dois dias depois, na quinta-feira, dia do encontro, Dominghetti cita já ter uma reunião marcada para "finalizar com o Ministério".

"Acabei de sair aqui do Ministério. Tudo redondinho. O Dias vai ligar ao Cristiano [representante da Davati no Brasil] e conversar com o Herman [CEO da Davati] ainda hoje. Ele está afinando essa compra aí, várias reuniões certificando a turma de que a vacina já está à disposição do Brasil", disse Dominguetti, no dia após o encontro com Roberto Dias.

Após os senadores ouvirem os áudios, que alegadamente comprovam que o encontro não foi "acidental", o presidente da CPI mandou deter Roberto Dias por ter mentido, ou seja, violado o juramento de falar a verdade na CPI.

O Brasil é o país lusófono mais afetado pela pandemia e um dos mais atingidos no mundo ao contabilizar 528.540 vítimas mortais e mais 18,9 de milhões de casos confirmados de covid-19.

A pandemia de covid-19 provocou pelo menos 4.004.99 mortos em todo o mundo, resultantes de mais de 185 milhões de casos de infeção pelo novo coronavírus, segundo o balanço mais recente feito pela agência France-Presse.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de