Genocídio, negação e a maior vergonha europeia desde a Segunda Guerra

Julho. 1995. Srebrenica. Capacetes azuis holandeses borrados de medo, sérvios bósnios armados até aos dentes e muçulmanos bósnios, homens e rapazes, assassinados enquanto fugiam. Mais de oito mil. O Tribunal de Haia considerou que era genocídio. Em Belgrado, ainda se nega.

"Não é fácil viver ao lado dos que, 25 anos depois, continuam a negar que um genocídio foi cometido", dizia à agência de notícias francesa AFP, o político local Hamdija Fejzic, assim sintetizando o sentir de muitos muçulmanos bósnios, sobre os sérvios locais que continuam a dizer que o massacre de mais de oito mil homens e rapazes muçulmanos bósnios foi "um mito".

Esta é, pois, uma história de massacres, morte e impotência política europeia. Há 25 anos. Faz este sábado.

Antes da guerra começar no inicio dos anos 90, viviam 36 mil pessoas em Srebrenica: dois terços muçulmanos bósnios, um terço sérvios bósnios. Srebrenica era uma vila termal, um sítio próspero, para os padrões da antiga Jugoslávia.

Na primavera de 1992, muçulmanos bósnios atacaram uma aldeia sérvia na região, os sérvios responderam e cercaram Srebrenica. Era ainda o princípio da guerra civil no país que durou quase quatro anos, muita gente fugiu para a cidade grande mais próxima, Tuzla, persistentemente multiétnica. A 11 de maio desse ano, os habitantes locais expulsaram as forças sérvias e declararam o Estado Livre de Srebrenica.

As condições de vida eram cada vez piores, a cidade estava a ficar sem água, sem eletricidade, sem nada. Em janeiro de 1993, os sérvios bósnios lançaram nova ofensiva sobre uma cidade que estava na época sobrelotada com refugiados vindos de outras cidades, vilas e aldeias; chegaram a ser mais de cinquenta mil.

Entre avanços e recuos militares, perante uma população exausta e depauperada, e já depois de Srebrenica ser uma zona de proteção das Nações Unidas, em julho de 1995, as tropas do general sérvio bósnio Ratko Mladic entraram na cidade então protegida por capacetes azuis holandeses, desarmados e com medo. A sua passividade haveria de provocar a queda de um governo holandês, no que foi possível em matéria de apuramento de responsabilidades.

Maldic, chegado à cidade em pose triunfante, disse que as mulheres e crianças poderiam ficar ou partir se quisessem, distribuiu coca cola e rebuçados pelos mais pequenos, sentenciou que os homens e rapazes em idade de combater deveriam entregar as armas e sair da cidade.

Muitos foram pelas montanhas, longas caminhadas. Não foram longe. Nos dias seguintes, oito mil homens e rapazes foram assassinados, muitos deles executados com um tiro na nuca.

Os corpos foram aparecendo ao longo dos anos, a partir do momento em que as valas comuns foram sendo descobertas... um furo jornalístico de David Rhode, então no jornal Christian Science Monitor, agora no New York Times que (por tal premiado com um prémio Pulitzer, o Óscar do jornalismo) conseguiu acesso às imagens de satélites norte-americanos que provavam a existência de centenas de valas comuns na região.

Depois, foram anos e anos de um extraordinário e até então inédito trabalho forense. Foram os julgamentos de Radovan Karadzic (condenado em março de 2016 a 40 anos de prisão, recorreu e um tribunal internacional que sucedeu ao TPIJ sentenciou Karadzic a prisão perpétua em março do ano passado) e Ratko Maldic (condenado em 2017 à prisão perpétua e aguardando o julgamento do recurso), os líderes sérvios bósnios, no banco dos réus do tribunal de Haia acusados de genocídio e crimes contra a Humanidade.

Entretanto, a guerra mudou a demografia de Srebrenica. Agora, dois terços dos habitantes da cidade são sérvios.

Este que escreve visitou Srebrenica, pela segunda vez, em 2013. Tinha lá estado em 2000 e ficado com a fortíssima memória de um sítio onde na rua não se ouvia ninguém a falar. A guerra tinha acabado cinco anos antes e na rua ninguém falava com ninguém: nos cafés, nas lojas, sempre o mesmo pesado silêncio. Voltei em 2013, integrado num grupo levado aos Balcãs pela organização de cooperação transatlântica German Marshall Fund (GMF), cujo vice-presidente era, à época, o sérvio Ivan Vejvoda, que ali estava, pela primeira vez, na terra das maiores atrocidades cometidas (pelos da sua etnia) em solo europeu depois da Segunda Guerra Mundial:

"Claramente, é a maior tragédia na história europeia desde a Segunda Guerra Mundial. A morte de mais de oito mil homens e rapazes é algo que é inconcebível para uma pessoa normal, foi definido como um genocídio pelo Tribunal Internacional de Justiça; pessoalmente é sempre uma experiência difícil estar ali, ter lá ido a primeira vez foi um momento de grande emoção. Claro que houve vítimas noutros locais, mas este foi um crime tão notório que creio que se distingue de todos os outros".

O muçulmano bósnio Sevko Bajic sabia o que era estar cercado ou não tivesse vivido em Sarajevo durante a guerra, mas Srebrenica, admitiu, era outra coisa, outra dimensão:

"Pode sentir aquela sensação de impotência que as pessoas tiveram na altura, sei o que é estar sitiado porque vivi em Sarajevo durante os quatro anos da guerra, sei o que é estar num cerco. Nesse tempo, achava que Sarajevo era o pior sítio do mundo, mas quando cheguei a Srebrenica percebi o quão feliz era por estar vivo. Muitas pessoas não conseguiram sobreviver."

Representante dos liberais europeus para o mundo árabe, o belga Kurt De Boueuf, mostrava-se chocado com o que vira no memorial de Potocari, o gigante cemitério de Srebrenica:

"Vergonha... e raiva. Raiva! Nós europeus, não fizemos nada para fazer parar aquilo. E não aprendemos a lição". Kurt dava então o exemplo do que estava a acontecer na Síria. Nesse ano de 2013, após o dia de visita a Srebrenica o grupo do GMF regressou a Sarajevo e jantou com Svetlana Broz Tito, neta do marechal que dirigiu a Jugoslávia federativa socialista até morrer em 1980:

"Srebrenica é a maior vergonha para todos nós que vivemos nesta região, e pelo menos, penso, para qualquer europeu decente ou para qualquer membro da comunidade mundial. Todos nós falhámos na tentativa de evitar aquele genocídio, todos nós falhámos e não conseguimos parar o Mal antes de ele acontecer em Srebrenica. Morrerei com este sentimento de vergonha porque faço parte da Humanidade".

A reconciliação ainda é pouco mais que uma miragem entre as comunidades, apesar de a vida fluir... como possível. O massacre, considerado genocídio pelo TPI em 2001 e pelo Tribunal Internacional de Justiça em 2007, continua a marcar o relacionamento entre bósnios muçulmanos e sérvios ortodoxos.

Na segunda metade da década passada, o chefe de estado da Sérvia, Boris Tadic, do Partido Democrata foi a Srebrenica pedir desculpas pelos crimes cometidos, "em nome do povo sérvio". Mas o atual presidente, Aleksandar Vucic considera que "Srebrenica é algo sobre o qual não devemos nem podemos estar orgulhosos", mas evita pronunciar o termo que os bósnios muçulmanos gostariam de o ouvir dizer: genocídio.

Líder dos sérvios bósnios no país, Milorad Dodik afirma categoricamente: "aqui que não se cometeu genocídio. Cada povo precisa de um mito. Os bósnios não tinham e tentam construir um mito ao redor de Srebrenica".

No Parlamento federal da Bósnia, em Sarajevo, vários projetos de lei que proíbem a negação do massacre têm sido rejeitados pelos deputados eleitos pela entidade sérvia da Bósnia Herzegovina.

A divisão dos partidos muçulmanos bósnios, fez com que nas eleições locais de 2016, em Srebrenica, um sérvio assumisse os destinos de uma cidade com pouca vida, poucas lojas e uma persistente incomunicação entre as duas comunidades. O autarca Mladen Grujicic, insiste em não conferir validade aos números de vítimas apresentados pelas organizações não-governamentais locais (como as Mães de Srebrenica), bem como as instâncias jurídicas internacionais: mais de oito mil mortos nos vários dias que durou o massacre nas montanhas ao redor da cidade que é um vale.

O vice-presidente da autarquia, Hamdija Fejzic, muçulmano bósnio, não esconde a tristeza: "a negação do genocídio é sua última fase. Temos que viver isto todos os dias", declarou à AFP.

Para Emir Suljagic, diretor do memorial de Potocari e sobrevivente do massacre, o 25º aniversário é também "o 25º aniversário da negação. Apesar das muitas provas e das decisões dos tribunais internacionais", a negação está sempre presente. Tal como a dor profunda do lado dos familiares das vítimas. "A negação do genocídio é sempre, sempre, o anúncio de uma futura violência", adverte Fejzic.

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