"Glória à Ucrânia!" Exército de mulheres prepara alimentos e camuflagem para quem combate na linha da
Reportagem TSF na Ucrânia

"Glória à Ucrânia!" Exército de mulheres prepara alimentos e camuflagem para quem combate na linha da frente

O edifício do Museu de Artes de Lviv tem uma torre de vigia que se destaca por ser antiga, altiva e medieval. A porta é estreita, mas depois de atravessada, o que vai lá dentro não é a calma e o silêncio habitual nos museus. Há um corrupio, um formigueiro, um exército de mulheres ucranianas, de todas as idades, que tecem redes de camuflagem que hão de servir para esconder blindados, tanques e trincheiras, na linha da frente.

O processo não é complexo, mas tem várias fases - há quem recolha, selecione e separe tecido, de várias cores, e o coloque em diferentes pilhas; a tarefa seguinte é cortar o tecido em tiras longitudinais, tão longas quanto o tecido o permita; depois, essas tiras compridas dão origem a outras, mais pequenas, de um metro. Por fim, dezenas de pares de mãos, sem parar, sem nunca parar, em movimentos enérgicos, rápidos e repetitivos, vão atando os pedaços de tecido a uma rede previamente colocada ao alto. cada rede tem dez ou mais pessoa a fazer o trabalho, todas ao mesmo tempo. Em poucos minutos, a rede que há de chegar "aos rapazes" na linha da frente fica pronto. E não há tempo para parar. Música popular ucraniana toca nas colunas, para dar ânimo e recordar a todas o que estão ali a fazer. São voluntários. E sempre que alguém se cansa, ou vem fumar, ou beber água, outra pessoa toma o seu lugar e continua o trabalho.

"Isto é o que podemos fazer. Queremos ajudar, não vamos ficar em casa a ver as notícias em fazer nada", resume Anasthasia Uvernikova, especialista em tecnologia que, do alto dos seus 24 anos, coordena mais de 200 voluntários. "As mulheres que aqui estão têm filhos, maridos, pais, irmãos, namorados, na linda da frente do combate. Nós ajudamos desta forma." Minutos depois, a música baixa, e uma jovem eleva a voz diante de todos.

-"Parabéns a todos, acabamos de bater um recorde. Até agora já conseguimos fazer 24 redes de camuflados. Estão prontas e já seguiram para os rapazes." A sala para por alguns segundos e todos se aplaudem mutuamente, como se cada um retribuísse a si próprio, e aos outros, o trabalho que tinham acabado de fazer. Entusiasmada, ela grita:

-"Viva a Ucrânia!"

Os voluntários gritam todos, em coro, que sim, que viva a Ucrânia. E ela prossegue:

-"O Putin que se fod*!". E o coro concorda, sobem o tom de voz, gritam várias vezes em conjunto:

-"O Putin que se fod*!".

A música volta a tocar e todas regressam ao trabalho.

Fora da porta, a fila para entregar tecidos continua a aumentar.

A dez quilómetros do centro de Lviv, Olena Znak, fotógrafa de viagens, está sentada no chão da sala. Sozinha. Deixou, por estes dias, o apartamento na cidade e regressou para juntos dos pais. Também ela tem sacos de tecido para cortar, primeiro em tiras grandes e, depois, em pedaços de um metro. Quando enviar a encomenda, quem está a montar a rede de camuflado só precisa de atar o pano à rede. "Temos de ajudar os rapazes."

"O que é preciso fazer?"

Saindo do museu, é só virar à esquerda, a rua sobe um pouco, depois é irar à direita, sempre a subir. Há um portão, aberto, que dá para um pátio, não muito grande, de terra batida. Outro exército. Aqui, os homens com mais de 60 e os jovens com menos de 18 dominam os fornos, numa divisão minúscula, porque a cozinha foi pensada para servir apenas uma casa e não uma frente de batalha. No pátio, divididas em grupos, mulheres de várias idades e estratos sociais, tratam dos legumes. "Agora, estou a cortar cebolas, e a lutar pela nossa liberdade", diz Yulia Kardash, 44 anos, professora. Toda a gente sabe que não há exército a funcionar com a barriga vazia. "Temos de tratar bem dos nossos rapazes, queremos que estejam saudáveis, temos que tomar conta deles e estamos gratas pela forma como estão a tomar conta de nós." A mulher que coordena todo o trabalho destas voluntárias fala alto, depressa e em várias direções. As instruções são claras e precisas. Tem uma voz de comendo. E um objetivo: "A comida tem de chegar depressa para não se estragar." Só quando vê as panelas a entrar em carrinhas que mal cabem no portão que dá acesso ao pátio de terra batida, é que Ludmyla Kuvaisova, fundadora da "cozinha voluntária", consegue descansar.

De volta dos alhos está a jornalista Regina Lizogub. Acaba por ser a mais emocional. "Temos de ajudar os nossos rapazes." Mas, diz, "estou disposta a tudo. Se for preciso pegar numa arma e ir combater, estou pronta. Quero defender o meu país, a nossa liberdade e independência".

Ah! E "o Putin que se fod*a".

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