Guterres lamenta que guerra na Ucrânia seja justificação para corrida aos combustíveis fósseis

O secretário-geral das Nações Unidas acredita que a guerra da Rússia na Ucrânia constituiu mais um obstáculo à agenda ambiental e que o conflito veio também evidenciar a "necessidade imperiosa" de investir rapidamente na "transição verde".

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, lamentou que vários países tenham visto na guerra na Ucrânia uma "justificação para investir mais" em combustíveis fósseis ao invés de energias renováveis, sublinhando a necessidade de tirar "lições" deste conflito.

Em entrevista à Lusa na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova Iorque, Guterres avaliou que a guerra da Rússia na Ucrânia constituiu mais um obstáculo à agenda ambiental, mas sustentou que este conflito veio também evidenciar a "necessidade imperiosa" de investir rapidamente na "transição verde".

O ex-primeiro-ministro português frisou ainda que se os países tivessem investido com antecedência em energias renováveis, o mundo não enfrentaria agora uma crise energética desta dimensão, em que as tensões geopolíticas geradas pela invasão da Ucrânia pela Rússia têm vindo a pressionar o mercado energético da União Europeia (UE), com os preços a atingirem máximos.

"É evidente que a intensidade do conflito e as suas consequências globais, nomeadamente em termos alimentares, em termos de energia e em termos da situação financeira de muitos países em desenvolvimento, tudo isto fez, infelizmente, a agenda climática, a agenda ambiental e a agenda dos Oceanos ter de vencer um obstáculo adicional", disse.

"Mas nós estamos determinados em vencer esse obstáculo e é fundamental tirar as lições desta guerra. Por exemplo, no domínio dos combustíveis fósseis, estou a ver que, infelizmente, alguns países pensam que esta guerra é uma justificação para investir mais em relação aos combustíveis fósseis. É o contrário", realçou.

E prosseguiu: "Se tivéssemos investido a tempo em energias renováveis, não estávamos agora com a crise energética que enfrentamos e, por isso, se alguma coisa esta guerra demonstra é a necessidade imperiosa de acelerar o investimento na transição verde, no investimento nas energias renováveis e em todos os aspetos da agenda ambiental, incluindo dos Oceanos".

Lisboa acolherá entre 27 de junho e 1 de julho a Conferência dos Oceanos - a segunda organizada pelas Nações Unidas sobre o tema-, coorganizada por Portugal e pelo Quénia, sendo que Guterres estará presente na abertura do evento, que reunirá chefes de Estado e de Governo de todos os continentes.

Guterres indicou que uma das grandes contribuições desta Conferência será o facto de que, "pela primeira vez", será estabelecida uma "ligação muito forte entre clima e Oceanos" e, nesse sentido, quando se fala da necessidade de fazer a transição dos combustíveis fósseis para energias renováveis e economias verdes está-se também a defender os Oceanos.

"A Cimeira de Lisboa é uma excelente ocasião, não só para tocar a rebate, mas simultaneamente para acelerar um conjunto de processos que estão em curso e alguns deles são importantes. Houve recentemente a decisão de avançar para um tratado de proibição do uso de plásticos de uma só utilização. Por outro lado, está a avançar uma negociação visando criar legislação internacional para a biodiversidade em zonas que não são controladas por nenhum país", referiu o ex-primeiro-ministro português

Guterres mencionou ainda como "importante" o facto de, recentemente, a Organização Mundial do Comércio ter avançado com uma lógica de proibição dos subsídios dados à sobrepesca e a outras formas de destruição da natureza.

Contudo, na ótica do secretário-geral da ONU, que tem nas questões ambientais uma das prioridades do seu mandato, os avanços estão a ser demasiado lentos.

"Está a avançar-se, mas está a avançar-se muito lentamente. É preciso acelerar. E a Conferência (de Lisboa) pode ser - tem de ser - o momento para acelerar estes avanços e para obrigar o mundo a tomar algumas decisões drásticas que nos permitam salvar os Oceanos. Porque salvar os Oceanos é salvar o planeta, é salvar-nos a nós próprios", concluiu.

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