Hans Küng: o teólogo que o Vaticano mais temia

A TSF entrevistou Anselmo Borges sobre os percursos do teólogo Hans Küng.

A sua memória está ali, no cemitério de Tubinga, na Alemanha. No epitáfio, duas palavras apenas: Herr Professor (Senhor Professor) Hans Küng. A distinção alemã para o topo de uma carreira académica. O luminar da teologia ecuménica, sucumbia, a 6 de Abril, aos 93 anos, à implacável doença de Parkinson.

Foram as paisagens bucólicas da Suíça, próximas do lago Lucerna, que tranquilizaram o pequeno Hans, ao nascer, em 1928, de olhos azuis e cabelos loiros. A melhor figura, para as futuras conferências de imprensa, em pleno Concílio Ecuménico Vaticano II. O Pai de Hans é comerciante de sapatos. Crescem na família sete filhos. Em meio protestante, o casal professa um catolicismo de tons conservadores.

O estudo da teologia não perturba o ambiente sociológico e religioso dos países europeus de matriz, preferentemente, protestante. Hans Küng abre essa investigação, tomando lugar na Universidade Gregoriana de Roma. A ordenação sacerdotal, em 1954, junto a S. Pedro, permite-lhe as primeiras contestações públicas. Diante dos guardas suíços do Vaticano, interroga uma Igreja mais amante de poder que de serviço. Faz a defesa da tese doutoral, na Universidade de Sorbonne, em Paris, sobre a justificação, em Karl Barth, seu compatriota protestante.

Depois de passar por Münster, aos 32 anos, Küng é professor na Universidade de Tubinga. Recebe, então, o convite honroso para assessorar o papa João XXIII, que já tinha convocado o Concílio Ecuménico Vaticano II. Por três anos, de 1962 a 1965, é com Joseph Ratzinger, perito na histórica Aula Conciliar. Exprime-se já em seis línguas. Estão nesta tarefa, uma plêiade de teólogos, sobretudo europeus: De Lubac, Congar e Schillebeekx, a Rahner e Chenu.

Infalível? Uma pergunta

Em 1970, o teólogo alemão escreve o mais perturbador dos livros: Infalível? Uma pergunta. Küng ousava pȏr em causa a necessidade do dogma da infalibilidade pontifícia, declarado cem anos antes, por Pio IX.

Em finais dos anos setenta, da cortina de ferro, chegava a Roma o cardeal polaco Wojtyla, na ordem papal, João Paulo II. E não há mais paciência para os desafios teológicos de Küng. Sem apelo nem agravo, a Congregação para a Doutrina da Fé retira-lhe a missio canónica, a autorização para ensinar, oficialmente, a doutrina católica, despedaçando o teólogo rebelde, por mais de seis meses de depressão...

Küng percorre o mundo, realizando conferências em múltiplas universidades. Fala na ONU e aos estudantes, em Pequim. Kennedy apresenta-o, em 1963, ao Congresso Americano, como homem de fronteira da Igreja Católica. O teólogo ecuménico, acusado pelos seus detractores de ser, na sua condição, teólogo protestante, disfarçado de católico. Küng enche vinte e quatro robustos volumes de múltiplos livros, manuscritos, na sua maioria, e traduzidos em mais de vinte línguas. De imprescindível leitura, entre outros: A Igreja, A desilusão de Deus, Existe Deus?, O Credo de Küng, o Cristianismo - Essência e História, Uma Boa Morte, Aquilo em que Acredito, O Princípio de Todas as Coisas - Ciência e Religião, Islão - Passado, Presente e Futuro, A Igreja tem Salvação? e Uma Ética Mundial.

Em 1995, dois anos antes de se reformar, reúne, em Chicago, o Parlamento das Religiões, promovido pela Fundação: "Uma Ética Global". Lê-se no final desse magno encontro, uma mensagem, em jeito de aviso: "Por Ética Global entendemos um consenso fundamental sobre valores unificadores, patamares incondicionais e atitudes pessoais. Sem tal consenso ético básico, qualquer comunidade, será, cedo ou tarde, ameaçada pelo caos ou ditadura".

Profundo intelectual, Küng revela indefectível proximidade com a mãe-terra. O teólogo da investigação ecuménica rende homenagem à natureza, de vibrante esplendor, também na Alemanha, seu país de adopção. Ele nadava quase todos os dias e esquiou até aos oitenta anos de idade.

Küng, o teólogo que o Vaticano não reabilitou

Küng era um teólogo incómodo, sobretudo, para uma Igreja de finais do séc. XX, governada por dois papas restauracionistas, de poder medieval: João Paulo II e Bento XVI. E não deixava de verberar a obrigatoriedade do celibato eclesiástico, a negação à ordenação de mulheres e a política anti-concepcional, defendida na encíclica Humanae Vitae, de Paulo VI. Mas não puderam nunca os seus adversários acusá-lo de falta de fé, no fundador do cristianismo e na vida eterna, como assegurou, próximo da morte, às suas irmãs, inquietadas pelas acusações que lhe moviam. Küng punha então a hipótese de ser submetido a um suicídio assistido, o que não viria a acontecer.

Nem a proximidade com o colega em teologia, Joseph Ratzinger, com quem se encontrou, sem efeito, em 2005, em Castelo Gandolfo, nem a simpatia que revelava pelo pontificado do papa argentino, lhe valeram, na morte, mais que uma bênção final. Ficava assim por reabilitar o teólogo católico, mestre do diálogo ecuménico e inter-religioso. Ele sabia que a Igreja vivia em crise permanente, em progressivo afundamento, sobretudo, depois da descoberta macabra dos abusos sexuais do clero católico a menores, à sua guarda.

Küng reservava-se uma crítica incisiva ao catolicismo, mas nunca a fez de modo panfletário. Voz profética, cultor da liberdade, este gigante da teologia ecuménica não admitia que a Igreja fosse supérflua, não conseguindo, por isso, ficar calado.

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