Ilha de La Toja iça bandeira do multilateralismo como resposta aos desafios globais

O que fazem numa ilha galega de paisagem paradisíaca e convidativa ao relaxamento, um rei, presidentes antigos e atuais, ministros, e vários protagonistas das áreas económica, social e política de Espanha, Portugal e da UE? Debater os problemas do mundo atual e possíveis soluções por via da cooperação entre nações.

O III Foro de La Toja (fórum) começou esta quarta-feira na ilha da Galiza que lhe dá nome, com a bandeira do multilateralismo içada.

Angel Gurría, ex-secretário-geral da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) que recebeu na sessão de abertura do evento, das mãos do Rei Filipe de Espanha, o prémio "Fórum La Toja-Vinculo Atlântico", foi símbolo e porta-voz do pensamento que dominou o arranque do debate: "Todos os desafios são globais e requerem respostas globais."

O Ministro dos Negócios Estrangeiros português, Augusto Santos Silva, que participou esta sexta-feira num painel sobre o "Novo equilíbrio geoestratégico", destacou a importância do multilateralismo e da "abertura da Europa ao Mundo", como "condição essencial" para a sua autonomia. Apelou ao reforço da cooperação com a América Latina e fez uma chamada de atenção para "as ameaças de confrontação com a China e de divisão entre os países ocidentais" no atual contexto global. "Perigo de confrontação com a China dados os últimos gestos e atitudes da República Popular da China em Hong Kong, em relação a Taiwan ou no mar do Sul da China, e um perigo de divisão que resulta da perceção que nós europeus fizemos do acordo celebrados entre os EUA, o Reino Unido e Austrália nas nossas costas", explicou, referindo ainda "um perigo mais escondido, mas que pode ser mais profundo" relacionado com a desvalorização da colaboração com países "do espaço ibero-americano". "É o perigo da Europa ignorar parceiros tão importantes como a América Latina. Vejo, designadamente, no Conselho de Negócios Estrangeiros da União Europeia que a relação entre a Europa e a América Latina não constitui um traços que una os ministros dos Negócios Estrangeiros", disse, sublinhando que esse "é muitas vezes tido como um interesse sub-regional de países como Portugal, a Espanha, a Itália e outros". "Acho isso um erro. A América Latina e a Europa são provavelmente os blocos mais alinhados entre si. Vemos isso na maneira como, por exemplo, quase sempre votam em conjunto nas Nações Unidas", considerou, acrescentando que dados "os interesses económicos e comerciais" devem ser "concluídos acordos comerciais com o Mercosul, México e Chile".

O Rei Filipe de Espanha parabenizou Angel Gurria, pelo "trabalho incansável pelo multilateralismo, tratando de contribuir para o consenso na agenda global". E declarou: "Os novos tempos que vivemos requerem, indubitavelmente, um reforçado e mais eficaz foco multilateral. E neste foco, o fortalecimento do vínculo atlântico é essencial. "Aludiu à importância de um "atlantismo integral" que incorpore "todas as dimensões do amplo espaço geopolítico", e da "dimensão de segurança que representa a Aliança Atlântica". "É importante assinalar isso aqui face à próxima cimeira da NATO que terá lugar em Madrid em 2020 e na qual deverá ser definido o novo 'conceito estratégico' da organização", sublinhou, referindo mais adiante que "a sociedade internacional está a testemunhar numerosas alterações de ordem geopolítica global", que geram "cada vez mais incerteza e maior dificuldade de governação a todos os níveis, que inevitavelmente estão interconetados". "Por isso o isolamento não é uma boa opção", resumiu.

O debate no fórum de La Toja, que este ano cumpre a sua 3ª edição e decorrerá até esta sexta-feira, centra-se nos atuais desafios globais, face a velhas e novas realidades. O cenário mundial de desigualdades na pandemia, como tem sido a vacinação de forma massiva, mas a diferentes velocidades, é um dos focos de debate em 2021. "Sabemos que a pandemia nos golpeou de maneira desigual e por isso é preciso que no momento da recuperação sejamos especialmente sensíveis e atentos aos que passaram pior", alertou o Rei de Espanha.

Até ao encerramento, esta sexta-feira, que contará com a presença do primeiro-ministro português António Costa, e o Presidente do Governo de Espanha, Pedro Sánchez, o III Foro de La Toja tem ainda uma agenda preenchida. Serão objeto de um intenso debate intelectual e académico na paradisíaca La Toja, temas como igualdade, recuperação económica, emprego, digitalização, crise e ameaças da democracia liberal, populismos, alterações climáticas e mudanças geoestratégicas face à hegemonia de potências como a China, a Rússia e a Turquia. E ainda a situação no Afeganistão e o seu impacto na ordem global. Serão oradores neste último painel, Bruno Maçães, politólogo, Shlomo Ben Ami, ex-ministro dos Assuntos Exteriores de Israel e Leon Panetta, ex-secretario da Defesa dos EUA e antigo diretor da CIA.

Esta quinta-feira, vão encontrar-se também em La Toja para falar da situação económica, social e política de Espanha, da Europa e do mundo, os ex-presidentes do Governo espanhol, Felipe González e Mariano Rajoy. Trata-se da reedição de um encontro já ocorrido em 2019 na primeira edição do fórum.

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