Imunidade de grupo. Como funciona e porque foi o Reino Unido obrigado a recuar
Covid-19

Imunidade de grupo. Como funciona e porque foi o Reino Unido obrigado a recuar

O Reino Unido decidiu navegar em contramão para lutar contra a pandemia da Covid-19. Enquanto a maioria dos países se esforçava por manter o máximo de pessoas possível dentro de casa, o governo de Boris Johnson adotava um modelo de isolamento menos restritivo que impedia de saírem à rua apenas os grupos de risco, a fim de criar imunidade de grupo. Em pouco tempo, sob pena de existir um colapso do serviço nacional de saúde, os britânicos viram-se obrigados a inverter o sentido de marcha e a seguir o exemplo adotado mundialmente.

Mas em que consistia a estratégia pelo Reino Unido? Quais as vantagens e os riscos? Porque é que o Reino Unido recuou? A TSF foi à procura de respostas junto de dois virologistas: Celso Cunha, do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, e Pedro Simas, da Universidade de Lisboa.

Que estratégia adotou o Reino Unido?

A estratégia do Reino Unido baseava-se na ideia de construção de imunidade de grupo, ou seja, "se nós deixássemos o vírus circular livremente entre a população, haveria uma parte grande da população que seria infetada e que adquiriria imunidade contra esse vírus e não seria mais infetada", explica Celso Cunha. Desta forma, essa população imune "serviria de uma espécie de escudo para a propagação do vírus às outras pessoas".

De acordo com o virologista calculava-se, na altura, que ter cerca de 60 a 70% da população infetada "seria suficiente para criar a tal imunidade de grupo".

Quais as vantagens?

Conseguir a imunidade de grupo é o objetivo de qualquer virologista, começa por explicar o especialista Pedro Simas que - apesar de não adiantar se concorda com as medidas adotadas numa fase inicial pelo Reino Unido, por não saber como foram implementadas - defende que "o racional por trás da decisão e da estratégia é correto".

Numa fase inicial da epidemia, implementar medidas restritivas que "inibam o contacto entre as pessoas" é fundamental, mas, na visão do virologista, é importante depois atingir "um equilíbrio", porque "se tivermos uma quarentena estrita da forma que temos, vamos demorar muitos e muitos meses a construir a imunidade populacional", uma vez que "há menos disseminação do vírus".

Por isso mesmo, o especialista sustenta que depois desta primeira vaga da pandemia deve pensar-se "em estratégias mais seletivas de quarentena, protegendo os grupos de risco e, por conseguinte, os serviços nacionais de saúde".

Para o virologista, tendo em conta que "95% de todos os casos infetados confirmados são ligeiros ou assintomáticos", é preciso "jogar com essa característica biológica da infeção e construir esta imunidade de grupo da forma mais rápida possível". Se tal não acontecer "viveremos sempre sobre esta ameaça pandémica e não é viável que assim seja".

E os riscos?

O método adotado pelo Reino Unido "nunca foi testado durante uma pandemia", esclarece Celso Cunha, ou seja, seguir esta estratégia seria "uma espécie de experiência", o testar de uma hipótese que comporta riscos. Um desses riscos seria o eventual colapso do serviço nacional de saúde britânico, à semelhança do que aconteceu em Itália.

Os modelos matemáticos do Imperial College London previam que, caso o Reino Unido insistisse na primeira estratégia, poderiam morrer vítimas da Covid-19 cerca de meio milhão de pessoas.

Porque é que o Reino Unido decidiu recuar?

A experiência italiana terá sido um dos principais motivos a levar o Reino Unido a mudar de estratégia. Numa fase inicial o novo coronavírus propagou-se livremente em Itália "sem medidas de contenção", o que resultou "num aumento brutal do número de pessoas contaminadas e do número de mortos".

Por isso, o serviço nacional de saúde colapsou "tal como iria suceder no Reino Unido", adianta Celso Cunha. De acordo com os modelos matemáticos do Imperial College, "30% dos doentes que chegariam infetados aos serviços de urgência iriam para os cuidados intensivos", o que seria incomportável para qualquer sistema de saúde, caso a maior parte da população estivesse infetada.

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de