Inimigo n.º 1 de Putin no estrangeiro não acredita que Rússia use armas nucleares

Bill Browder, o homem que há mais de uma década dedica a vida a lutar contra a corrupção dos oligarcas, diz à TSF que o presidente russo é um criminoso, mas não é louco.

A invasão da Ucrânia não o surpreendeu mas diz que nada está a correr como Vladimir Putin queria. Os planos não se concretizaram e a segunda fase da guerra também não está a ter os resultados previstos. Bill Browder considera, por isso, que Putin é agora mais imprevisível, "ele foi totalmente humilhado e não lida bem com isso. Penso que como resultado Putin pode fazer algumas loucuras, não sei quais, mas podemos esperar ações desagradáveis, perversas e desoladoras por parte do presidente."

O antigo empresário que em meados dos anos 90 começou a investir na Rússia, diz que Putin foi humilhado e está também assustado e foi isso que o levou a invadir a Ucrânia. O chefe de estado teve medo que o povo se revoltasse por causa das dificuldades económicas causadas por todos os roubos. Ele decidiu, por isso, avançar para esta guerra como uma distração, como forma de garantir a popularidade. Browder defende que as palavras sobre a Nato e o grande império russo são para consumo interno, a razão da guerra é mais simples, ele está com medo.

Apesar de Putin estar assustado, o antigo empresário britânico, nascido nos Estados Unidos, não acredita que ele concretize as ameaças que tem feito. "Vamos supor que a Suécia e a Finlândia se juntam à Nato e ele quer atacá-los. Isso significa que vai entrar em guerra com a Aliança Atlântica. Ele mal se aguenta na Ucrânia e vai perder quase de imediato uma guerra com a Nato. Ele não é estúpido e sabe que se tentar usar uma arma nuclear haverá destruição mutua. É assim que a dissuasão nuclear funciona, aquele que tentar utilizar essas armas entende que será destruído rapidamente," explicou Browder em entrevista à TSF.

Para Browder as sanções que têm sido aplicadas pelo ocidente são corretas mas devem ir mais longe. Ele sublinha que Vladimir Putin só vai ser travado se lhe cortarem o acesso ao dinheiro e para isso é preciso que a Europa deixe de comprar gás e petróleo à Rússia.

Browder lembra que durante décadas o ocidente optou por ignorar a ameaça colocada por Putin, mas a invasão da Ucrânia mudou esse cenário. Reconhece que ele próprio, quando o antigo agente do KGB se tornou primeiro-ministro e depois presidente, se convenceu que Putin seria benéfico para o país. Na altura Browder tinha criado o Hermitage Fund, gerido pelo Hermitage Capital Management, que chegou a ter o maior portefólio de investidores estrangeiros na Rússia. O fundo investiu em diversas companhias estatais, entre elas a Gazprom.

Com o descalabro económico do país, Browder apercebeu-se que havia oligarcas a roubar dinheiro em empresas nas quais tinha investido. Para proteger os investimentos começou a denunciar os homens mais ricos da Rússia e Putin apoiou-o. Só mais tarde o antigo empresário percebeu que o presidente não queria combater a corrupção, queria apenas ser o maior oligarca de todos.

Vladimir Putin conseguiu atingir esse objectivo prendendo aquele que era na altura o homem mais rico do país, Mikhail Khodorkovsky. Em 2003 ele foi detido, julgado por fraude e condenado a 10 anos de prisão. Os outros oligarcas viram isso e pensaram que se uma pessoa muito mais rica e mais poderosa do que eles tinha caído em desgraça, então tinham que se entender com Putin. "Foi nessa altura que todos chegaram a um acordo com Putin. Ficavam em liberdade e não seria perseguidos se entregassem ao líder do país 50% das fortunas," revelou Browder à TSF.

A partir daí o britânico deixou de estar em consonância com os interesses de Putin e rapidamente percebeu isso. "Fui expulso do país, em 2005, e declarado uma ameaça à segurança nacional. Os meus escritórios em Moscovo foram alvo de rusgas em 2007, apreenderam todos os documentos que foram, mais tarde, usados numa fraude complexa para roubar 230 milhões de dólares que a empresa tinha pago em impostos ao governo russo."

Foi nessa altura que o antigo empresário contratou o advogado moscovita, Sergei Magnitsky, que descobriu os responsáveis pela fraude contra o estado russo. Confiantes de que Putin não podia estar envolvido, Browder divulgou o caso publicamente no estrangeiro e Magnitsky fez queixa às autoridades, um gesto que teve consequências devastadoras. "Ele testemunhou contra os funcionários envolvidos, foi preso por eles, torturado durante 358 dias e assassinado quando estava à guarda da polícia. Tinha 37 anos," Browder admite que foi um crime que lhe mudou a vida. Decidiu abandonar todos os negócios e lutar para que os responsáveis do assassinato fossem levados à justiça.

Incapaz de agir dentro da Rússia, criou a lei Magnitsky, aprovada já por 34 países e que prevê o congelamento dos bens e o cancelamento dos vistos a todos os que violam os direitos humanos no mundo.

Há nesta altura 150 pessoas abrangidas pela lei, mas Bill Browder diz que há milhares que temem cair nas teias da legislação.

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