Interesses económicos e "negação maciça" bloqueiam políticas ambientais nos EUA

John Kerry afirma que as indústrias do carvão e combustíveis fósseis receberam cerca de três biliões de dólares em subsídios nos últimos seis anos.

O antigo secretário de Estado norte-americano John Kerry responsabilizou esta quarta-feira os interesses ligados aos setores do carvão e petróleo e a uma "negação maciça" nos Estados Unidos para a dificuldade em introduzir políticas ambientais de combate às alterações climáticas.

Num debate hoje com autarcas e o arquiteto Norman Foster em Glasgow, onde decorre a 26.ª conferência do clima das Nações Unidas (COP26), o atual enviado especial dos EUA para o Clima falou das dificuldades que o Presidente Joe Biden está a encontrar para aprovar legislação ambiental.

Recentemente foi obrigado a reduzir para metade o valor do seu plano de apoios sociais e ambientais - para 1,75 biliões de dólares (cerca de 1,5 biliões de euros) -- de forma a conseguir que o seu próprio partido o aprovasse no Senado.

Na área ambiental, o projeto inclui uma verba de 555 mil milhões de dólares (cerca de 480 mil milhões de euros) para o combate às mudanças climáticas, mas este plano ainda precisa de passar pelo Congresso, onde a maioria dos democratas é curta.

"O que está a dificultá-lo? Interesses especiais, carvão e combustíveis fósseis", resumiu Kerry, referindo que estas indústrias receberam cerca de três biliões de dólares em subsídios nos últimos seis anos.

"Estamos a subsidiar o problema que estamos a tentar curar aqui em Glasgow. Não faz sentido, e ressalta o nível a que nós, seres humanos, somos capazes de nos envolver no absurdo, de viver a negação completa da realidade", afirmou.

É devido a uma "negação maciça e prolongada sobre esse assunto", continuou, que a comunidade internacional está agora numa "corrida contra o tempo".

"Isto não é questão de ideologia, não é política. É matemática e física", argumentou, invocando o relatório do Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas, que alertava em 2018 para a necessidade de tomar ações decisivas nos 12 anos seguintes para conter o aquecimento global.

"Donald Trump desperdiçou três desses anos, e agora restam-nos nove anos. Mas aqui em Glasgow, realmente sinto que há algo diferente", garantiu, mostrando-se otimista de que os líderes políticos e o setor privado estejam unidos no combate às crise climática.

Mais de 120 líderes políticos e milhares de especialistas, ativistas e decisores públicos reúnem-se até 12 de novembro, em Glasgow, na Escócia, na 26.ª Conferência das Nações Unidas (ONU) sobre alterações climáticas (COP26) para atualizar os contributos dos países para a redução das emissões de gases com efeito de estufa até 2030.

Hoje no quarto dia, prossegue hoje sem a maioria dos cerca de 120 chefes de Estado e de Governo que participaram na segunda e terça-feira, nomeadamente Joe Biden, a chanceler alemã Angela Merkel, o presidente francês Emmanuel Macron, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, anfitrião do encontro.

A COP26 decorre seis anos após o Acordo de Paris, que estabeleceu como meta limitar o aumento da temperatura média global do planeta entre 1,5 e 2 graus celsius acima dos valores da época pré-industrial.

Apesar dos compromissos assumidos, as concentrações de gases com efeito de estufa atingiram níveis recorde em 2020, mesmo com a desaceleração económica provocada pela pandemia de covid-19, segundo a ONU, que estima que, ao atual ritmo de emissões, as temperaturas serão no final do século superiores em 2,7 ºC.

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