2500 partidos e 900 milhões de eleitores. Como se vota na maior democracia do mundo?

Depois de sete dias de votação em que foram às urnas mais de 900 milhões de eleitores, as legislativas na Índia chegam agora ao fim com a divulgação dos resultados. A contagem de votos demora pouco mais de uma hora. São assim as eleições na maior democracia do mundo.

São números difíceis de interiorizar: 2354 partidos políticos, 11 milhões de funcionários eleitorais, um milhão de assembleias de voto e dois milhões e 300 mil máquinas eletrónicas.

A lei eleitoral diz que cada habitação existente no país tem de ter uma assembleia de voto a menos de dois quilómetros. Os funcionários eleitorais atravessam glaciares, desertos, montanhas, rios e um oceano para chegarem às zonas mais remotas. Viajam a pé, de carro, comboio, helicópteros, barcos e até de elefante. Desde 2009 foi criada uma assembleia de voto na floresta de Gir, no Estado de Gujarat, para que o único residente possa exercer o seu direito de voto.

Participam nestas eleições mais de oito mil candidatos que procuram conquistar um lugar na câmara baixa do Parlamento, o Lok Sabha. Devido às altas taxas de analfabetismo durante as primeiras eleições no país, a Comissão Eleitoral atribuiu símbolos aos partidos políticos para ajudar os eleitores a identificarem os candidatos em quem queriam votar. A prática manteve-se até hoje e os símbolos vão desde flores, uma mão aberta, um elefante, uma bicicleta ou uma pen.

A Índia tem 29 Estados e sete territórios da União. Os 545 lugares de deputados são divididos por Estado, tendo em conta a população: mais pessoas significam mais representantes. Há por isso Estados mais importantes que outros. O Uttar Pradesh, por exemplo, elege 80 deputados. Se fosse um país, o Uttar Pradesh seria a sexta nação mais populosa do mundo. Segue-se o Estado de Maharashtra com 45 deputados, e Tamil Nadu com 39.

As eleições decorreram de forma pacifica em quase todo o país, com exceção do Estado de Bengala Ocidental. Ali, Modi é desafiado pela ministra de Estado, Mamata Banerjee, que dirige um partido mais inclusivo, o "Congresso Trinamool". Banerjee tem como objetivo ir para Nova Deli como deputada da oposição. Durante a campanha, Narendra Modi visitou Bengala Ocidental 17 vezes, num esforço para conseguir apoios para o programa do partido que defende o nacionalismo hindu. Essas ações causaram reações violentas e a Comissão Eleitoral acabou por interromper toda a campanha naquele Estado.

Um quarto dos lugares na câmara baixa está reservado à casta mais baixa - Dalit - e à população tribal que vive principalmente em regiões rurais e remotas. O Presidente nomeia ainda dois deputados que representam a comunidade anglo-indiana.

Há várias décadas que a Índia realiza as maiores eleições democráticas do mundo, que, apesar de algumas acusações de fraude, manipulação e favorecimento, são consideradas livres e justas. Os críticos defendem, no entanto, a necessidade de algumas alterações e consideram fundamental minimizar a compra de votos durante a campanha. Um antigo presidente da Comissão Eleitoral disse à cadeia de televisão Al Jazeera que "o poder do dinheiro tem sido um grande problema nas últimas décadas.

Existem mecanismos legais sobre as despesas dos candidatos, mas são violados impunemente porque há muito dinheiro sujo. As obrigações eleitorais foram criadas pelo Governo de Modi para trazer transparência, mas conseguiram exatamente o oposto, já que os doadores dos partidos políticos não são conhecidos do público". Estas obrigações eleitorais são notas promissórias que permitem fazer doações anónimas e digitais aos partidos políticos.

No último ano financeiro, o orçamento de publicidade do BJP, o partido no poder, foi 20 vezes maior do que o do principal partido da oposição, o Partido do Congresso. Isso faz toda a diferença na campanha, porque é dinheiro que paga outdoors extra, comícios e anúncios nas redes sociais. A visibilidade que Modi alcançou no país não se consegue de graça. Dados divulgados pela imprensa indiana mostram que, em 2017 e 2018, o Partido Bharatiya Janata gastou em publicidade mais do que todos os outros partidos juntos, e a campanha ainda não tinha começado formalmente.

Todas as sondagens divulgadas depois do último dia de votação dão a vitória ao BPJ com a reeleição de Modi. O partido no poder deve mesmo conseguir a maioria absoluta. Em segundo lugar aparece o Partido do Congresso liderado por Rahul Gandhi, o herdeiro da dinastia de Nehru-Gandhi que já produziu três primeiros-ministros.

Modi, de 68 anos, gosta de falar das origens humildes como vendedor de chá, mas em 20014, antes de chegar a primeiro-ministro, foi ministro de Estado - o equivalente a um governador nos EUA - em Gujarat, durante 13 anos. Em 2002, a liderança local de Modi ficou marcada por motins entre as diversas comunidades. Centenas de pessoas, principalmente muçulmanas, foram mortas e as casas e negócios destruídos. Grupos de defensores dos direitos humanos acusaram o então ministro de Estado de ter instigado a violência. Modi negou a acusação e os tribunais acabaram por lhe dar razão.

Antes de entrar na vida politica, o atual primeiro-ministro foi membro de uma organização nacionalista hindu. Enquanto responsável do Governo, tem defendido a politica antiminorias, que é a imagem de marca do partido. O primeiro-ministro tem-se mantido em silêncio enquanto se multiplicaram casos de linchamentos, intimidações e discursos de ódio contra os muçulmanos, Dalits e outras minorias. Atos que foram realizados publicamente e com impunidade por nacionalistas hindus.

Nesta campanha, Modi realizou 144 comícios e a grande prioridade foi Uttar Pradesh, que nas ultimas eleições deu ao BJP 73 dos 80 deputados que elegeu.

O principal opositor de Modi, Rahul Gandhi vem de uma dinastia politica famosa. A avó, Indira Gandhi, foi a primeira mulher a chegar à chefia do Governo indiano e o bisavô, Jawaharlal Nehru, foi primeiro-ministro depois da independência do país. Também o pai, Rajeev Gandhi, foi primeiro-ministro. Tanto a avó como o pai foram assassinados enquanto estavam na chefia do Governo.

Gandhi tinha 21 anos quando o pai foi morto num ataque suicida durante um comício político. Seis anos antes, a avó tinha sido assassinada por um guarda-costas, na sua própria casa. Numa entrevista a uma televisão, Rahul Gandhi defendeu que "na minha vida, vi a minha avó morrer, vi o meu pai morrer, vi a minha avó ir para a cadeia e passei por uma tremenda dor enquanto criança. Isso fez com que perdesse todo o medo."

Gandhi, de 48 anos, foi preparado para liderar o Partido do Congresso virtualmente desde o nascimento, e em 2017 não enfrentou adversários na eleição para o cargo ocupado, nos 19 anos anteriores, pela mãe, Sonia. Apesar disso, a decisão de entrar na política apanhou muitos de surpresa, porque se acreditava que a irmã teria maior probabilidade de assumir o controlo do poder da família. Priyanka Gandhi, que é carismática e muito popular na Índia, lançou-se na política no inicio do ano para ajudar a reavivar o partido no Estado chave de Uttar Pradesh.

Depois da pesada derrota em 2014, muitos duvidaram da capacidade de Rahul para recuperar o Partido do Congresso, mas a pouco e pouco os números têm sido mais favoráveis. Há uns meses, foi ele que liderou o partido que saiu vitorioso nas eleições estaduais em Rajasthan, Chhattisgarh e Madhya Pradesh.

Rahul Gandhi tem liderado a oposição acusando o governo de fomentar a divisão no país, de ser economicamente ineficiente e de ter uma das mais altas taxas de desemprego das últimas décadas. Também não deixou passar em branco o suposto caso de corrupção num acordo de defesa entre a Índia e a França. A situação dos agricultores afetados por uma das mais duras secas dos últimos anos tem igualmente mobilizado os apoiantes do Congresso. Apesar das projeções de voto lhe darem apenas o segundo lugar, o Partido do Congresso deve passar dos atuais 44 deputados para mais de 120.

Gandhi participou em 125 comícios, 18 dos quais em Uttar Pradesh, o Estado em que colocou a irmã Priyanka como principal candidata.

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