Reportagem TSF

"A Amazónia é minha mãe"

A comunidade do Tumbira na Amazónia luta pela preservação da floresta, mas antes dedicava-se à extração ilegal de madeira. Várias gerações de ribeirinhos encontraram novas formas de sobreviver na selva, depois de décadas de desmatamento ilegal.

O expresso da tarde está quase a sair do cais de São Raimundo. A embarcação só parte em direção ao rio Negro quando estiver cheia. Até lá, o vendedor de pão de queijo aproveita para dar uma volta ao barco.

Manaus, quente e asfixiante, fica para trás. A cidade não é hoje um clarão radioso como escreveu Ferreira de Castro. Faltam sinais da floresta mais famosa do mundo.

É lá, na Amazónia, que fica o Tumbira, uma comunidade de 34 famílias a 77 quilómetros de Manaus em linha reta e onde só é possível chegar de barco.

Já passou o calor do meio-dia mas ainda não está bom para jogar futebol. O campo está vazio mas por volta das seis da tarde, a comunidade vai juntar-se para jogar à bola ou ver jogar. Até lá, só o interior da floresta acalma o mormaço.

"Essa daqui é a sapopemba", aponta Roberto Mendonça enquanto apresenta as árvores como se de gente se tratasse. "Se você pensar em comunicação no meio do mato, você pensa em sapopemba. Se você pegar um cacete, você bate com força. Esse [som] grave, cara, vai longe."

A sapopemba desenvolve raízes que podem chegar aos dois metros de altura e Roberto garante que é um bom sítio para passar a noite na floresta. "Porque aqui, você está protegido - costas, lado. Qualquer lado o bicho pode vir. Isso é uma espécie de proteção para a gente viver na floresta."

Roberto Mendonça nasceu e cresceu na Amazónia. Conhece bem os caminhos da floresta, incluindo os truques e os perigos que lá vivem. "Estou falando de formiga, aranha, escorpião. Então, um certo cuidado."

A Amazónia é casa para muitas espécies de árvores e animais, mas também para histórias e mitos. A lenda mais conhecida é a da Curupira. "É baixinha, cabeluda, uma espécie de curumim moleque, com o pé para trás, mas isso é imaginação. A gente não sabe. Mas, que existe, existe", garante Roberto.

Com 12 anos já derrubava madeira

A Curupira é tão famosa no Brasil que, em 1970, foi consagrada por lei como o símbolo do guardião da floresta. "Não sei se é em forma de vida, se é forma de espírito. Hoje, se você for para o centro da mata, você escuta. É só você fazer alguma coisa de anormal que começa a assobiar."

Roberto conta que recebeu visitas da Curupira quando trabalhava como madeireiro ilegal. "Quando derrubava muita madeira durante o dia, de noite o bicho vinha-me perrear, batendo, sapopemba, gritando, assobiando. Caramba, é porque eu matei muita árvore hoje."

Durante mais de 20 anos, Roberto trabalhou com extração ilegal de madeira. Foi uma atividade passada de geração em geração, vista pelos moradores das comunidades como das poucas formas de sobreviver na floresta.

"Com 12 anos de idade já derrubava madeira com motosserra. Passei anos e anos fazendo esse tipo de coisa. Falava que nunca ia parar de tirar madeira", recorda Roberto, explicando que, na comunidade do Tumbira todas as famílias trabalhavam com a extração ilegal de madeira.

A partir da década de 2000, a fiscalização contra o desmatamento apertou e quem cortava madeira ilegalmente esteve a contas com a justiça. "Foi uma briga muito grande. Vários órgãos ambientalistas vieram notificando os madeireiros, os moradores. Eu tive irmão preso, algemado que nem bandido", lembra Roberto.

Em 2005, a atividade agrícola, a pesca e a extração de madeira foram proibidas na Amazónia, inclusive para os moradores das comunidades do rio Negro, o que pôs em causa o modo de vida do povo ribeirinho.

Izolena Garrido conta que muitas famílias acabaram por sair das comunidades. A líder da comunidade do Tumbira considera que o governo desvalorizou o papel dos ribeirinhos na conservação da floresta amazónica, equiparando-os a empresas e madeireiros que extraíam material em grandes quantidades.

"Brigamos bastante por essa diferenciação entre quem estava extraindo em grandes quantidades, que estavam devastando a floresta, e entre as famílias que estavam extraindo e vendendo localmente", explicou.

O reconhecimento da diferença entre a atividade do povo ribeirinho e a das grandes empresas madeireiras chegou em 2008, altura em que o Estado do Amazonas criou a Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Negro.

A floresta vale mais em pé

A Fundação Amazonas Sustentável (FAS) foi o órgão responsável por desenvolver o projeto e hoje trabalha junto de 16 unidades, atendendo mais de 40 mil pessoas, espalhadas por dez milhões de hectares.

Valcleia Solidade, superintendente de desenvolvimento sustentável da FAS, conta que o início não foi fácil devido aos receios dos comunitários. "Quando a gente chegou falando que era uma política pública, gerou uma certa desconfiança de que não seria perene, mas algo que poderia ser aquele programa que vai durar quatro anos porque foi criado por o governador x que quer ganhar votos."

A organização não-governamental desenvolveu uma metodologia mais participativa e lúdica em relação a temas relacionados com as mudanças climáticas e os serviços ambientais, envolvendo as comunidades nas diferentes atividades.

A fundação defende que a floresta vale mais em pé do que derrubada e esse tem sido o mote para convencer os comunitários a mudarem de vida através do programa Bolsa Floresta.

Valcleia Solidade explica que as populações tradicionais passaram o poder viver dos produtos da floresta e do rio, sem que isso contribuísse para a destruição da Amazónia.

A madeira que antes era cortada de forma ilegal passou a entrar nos planos de manejo de uso simplificado. "É tornar a atividade legal, é subsidiar os comunitários para gestão dessa atividade, e com isso agregar valor a um produto que estava praticamente proibido de extrair porque não estava legalizado", acrescenta a superintendente da FAS.

Izolena Garrido destaca o papel da FAS porque considera que a organização teve "um olhar mais sensível, de enxergar a natureza como o homem e o homem como natureza. E um depende do outro".

De madeireiro a guia turístico

Roberto Mendonça foi um dos comunitários que pousou a motosserra. Hoje gere uma pousada no Tumbira, onde recebe turistas de todo o mundo.

"Esse primeiro grupo que eu recebi no finalzinho de 2011, eram onze pessoas. Trabalhei quatro dias. Envolvi sete pessoas. [Quando] eu fui pagar todo o mundo que trabalhou, sobrou um dinheiro que eu trabalhava meses e não conseguia juntar."

Até 2008, viviam 16 famílias no Tumbira e todas estavam envolvidas com o negócio da madeira. Hoje, a comunidade cresceu e é casa para 34 famílias. "Dessas 34 famílias, sabe quantas pessoas estão envolvidas diretamente com a madeira, e já em plano de manejo de pequena escala? Três famílias", conta Roberto.

O antigo madeireiro explica que a comunidade mudou e ganhou consciência da necessidade de preservar a floresta. "Derrubar madeira hoje, na minha visão, é a última coisa que pode fazer."

"Essa educação foi-nos permeando e permitindo ajudar uns aos outros em mostrar, em conhecer, em buscar esses recursos através dessas parcerias", conta Izolena Garrido.

Os moradores da comunidade receberam ações de formação sobre o manejo florestal sustentável e a melhor forma de cultivo da terra, mas também sobre turismo e artesanato. A reserva criou ainda uma colónia de pescadores que recebem benefícios durante os meses em que estão impedidos de pescar.

Uma escola na TV

Apesar da importância de todas as novas atividades, um dos segredos para manter a população na Amazónia é a educação. O Tumbira acomoda uma escola que serve várias comunidades. É uma escola diferente em que o professor está sentando em Manaus e chega à sala de aula através da televisão.

"Cada série tem um estúdio e aqui, nesse momento, o estúdio do segundo ano tem os dois professores de língua inglesa que estão ministrando a aula em tempo real, não é gravado", explica Vera Garrido.

A professora está do lado de cá do ecrã para garantir que os alunos se comportam e entra em ação caso haja problemas com a ligação ou para esclarecer dúvidas.

As aulas são transmitidas em direto por todos os 61 municípios do estado do Amazonas. "Não tem necessidade mais de ninguém sair das comunidades para ir para a cidade sofrer", explica a professora Vera Garrido.

Hoje, podem fazer todo o percurso escolar na comunidade e só saem para prosseguir estudos na universidade. Além das disciplinas obrigatórias, a escola reserva espaço para os alunos aprenderem mais sobre a Amazónia. "Eu já trabalhei tipos de raízes, eu já trabalhei tipo de solo. A gente trabalhou plantas medicinais, tanto a cultivada, quanto a nativa e já trabalhamos pesquisa de quelónio. Aquilo que está em volta deles", conta a professora.

Jackeline Silva, 17 anos, está a preparar-se para entrar na universidade. Quer estudar enfermagem. Vive na comunidade do Saracá, mas fez todo o percurso na escola do Tumbira. "Eu acho bastante interessante porque a gente acaba tendo três professoras. Acho que não dá para ter muita dúvida, a gente aprende."

Yara Ramos, 15 anos, considera a escola "super legal". "É como se a professora estivesse ali contigo na hora, só que a ela está na TV."

Odenilze Ramos, 21 anos, também já estudou nesta escola. Entrou na universidade e, agora, vai e vem de Manaus mas sempre com a cabeça na floresta. "A gente já nasce com esse contacto muito direto mas a gente não sabe dar nome para ele."

A jovem está a estudar Gestão Pública e tem-se dedicado a aprender mais sobre a floresta onde sempre viveu. "Quando a gente tem oportunidade de estudar mais e entender os termos técnicos para falar sobre a Amazónia e sobre essa relação que a gente tem com a floresta, água, terra e tudo que a gente acaba tendo por ser a realidade que a gente vive, isso facilita com que a gente mostre para outras pessoas que vêm de fora."

Yara Ramos fala de uma relação pessoal com a floresta, comum a quem cresceu numa comunidade ribeirinha. "A Amazónia é minha mãe. Ela é minha família. Ela me deixa em pé, ela me deixa viva."

Os filhos da floresta

Odenilze Ramos lamenta que as notícias sobre a Amazónia tenham sempre "uma cara já pronta" e ignorem outras populações que também dependem da floresta.

"A Amazónia está representada mostrando a onça, os indígenas e tudo mais. Mas a gente acaba não se sentindo representado porque o povo ribeirinho é diferente do povo indígena. São duas culturas totalmente diferentes que se complementam e que ambas são guardiãs da floresta, só que não é tão falado."

Odenilze considera que cabe aos jovens das comunidades ribeirinhas "ir para a luta e mostrar que a gente está aqui dentro, mostrar que a gente quer que a floresta continue de pé, porque a gente precisa dela para viver".

Tanto Odenilze, como Yara e Jackeline fazem parte de um grupo de jovens ribeirinhos que têm trabalhado para passar uma mensagem clara sobre a preservação da Amazónia.

Juntos fizeram um manifesto em vídeo chamado "Somos filhos da floresta" porque sentem que têm uma palavra a dizer. "Eu acredito que a juventude é quem vai realmente conseguir levar essa visão de Amazónia, que também são as pessoas, que também é a floresta, mas que essas pessoas que estão aqui dentro, precisam de serem vistas, para que as pessoas tenham realmente dimensão do que é a Amazónia e de como ela é importante, porque é que a gente precisa manter ela viva."

O manifesto tem gerado um grande impacto nas redes sociais. "Muitos comentários positivos, mas, como todas as coisas no mundo, a gente recebeu alguns comentários muito negativos do tipo: 'Beleza, vocês fizeram esse manifesto mas de que é que vai adiantar? Porque, agora o governo mudou, a Amazónia não tem vez', esse tipo de coisa", contou Odenilze.

A jovem tem resposta pronta e explica que o manifesto é só o início de um movimento que espera que continue a crescer. "A gente se sente muito ameaçado, com o atual governo. A gente sabe que não tem como fazer muita coisa, mas tem como falar pelo menos. Hoje em dia a gente tem essa ferramenta que é a internet de poder realmente ter voz."

O medo é real sobretudo para quem faz ativismo a favor do ambiente. "Querendo ou não dá medo. Quando ele falou sobre vender a Amazónia, deu muito medo. Porque aqui é a nossa casa. De onde esse cara vem para querer tirar a nossa casa?", pergunta Yara.

A nova geração de ribeirinhos está a arregaçar as mangas e conta com a ajuda de quem já esteve do lado de lá.

Hoje, Roberto Mendonça é o primeiro a defender a floresta. "Só a vida, só o tempo vai explicar para a gente o que é que é. Fazer parte das duas coisas, o passado e agora o presente. O futuro vamos sonhar".

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