Médicos Sem Fronteiras

Do pré-genocídio à África mágica. O médico que leva o cachecol do FC Porto pelo mundo

É um médico português ao serviço dos Médicos Sem Fronteiras. Já vai na 13.ª missão e não se coíbe de transmitir as lições que o mundo ainda tem de aprender.

Gustavo Carona está no alpendre de sua casa, em Matosinhos, onde há muito tempo deixou de sentir o aconchego do conformismo. Até o som dos tiros é hoje um lugar familiar, porque, diz em entrevista à TSF, o homem é um ser de hábitos. Cá fora, o vento anuncia-se apressado como o médico que afaga o pelo dos seus cães já a pensar no que está para lá do palpável, para lá do conhecido. Dentro de dias, Gustavo Carona estará no Sudão do Sul, o país mais jovem (e um dos mais esquecidos) do mundo.

Será a 13.ª missão ao serviço dos Médicos Sem Fronteiras do anestesista que já cuidou das mazelas de países como o Paquistão, o Afeganistão, a República Centro-Africana, a Síria ou o Iraque. Ir à guerra sem levar um tiro, ir à luta para salvar os outros dos disparos. Transpor a língua do medo pô-lo em contacto com o dialeto das dores do mundo.

"Ainda me lembro, ao detalhe, da primeira missão na República Democrática do Congo. Recordo-me dos sítios onde estive, das roupas que usava, dos aeroportos onde parei, dos e-mails que escrevi a chorar baba e ranho", conta à TSF, dois dias antes de partir para uma nova aventura.

O vento assobia e Gustavo recorda o sopro de vida que o empurrou para tão longe, mas perto o suficiente para que um cachecol do FC Porto continue a fazer sentido. "Se um dia o perder, vou ter de comprar outro que mantenha o mesmo simbolismo. É a representação do meu mundo e o modo de o levar comigo. Nunca vou sozinho. Vou com todas as pessoas que acreditam que é este o caminho."

O símbolo "serve para que as pessoas saibam de onde eu venho", e cria uma mancha azul em campos de guerra, onde o vermelho pode significar a derrota, sublinha.

"Caos, pobreza e subdesenvolvimento"

O médico português há muito que largou o comando da televisão para virar as costas ao ativismo de sofá. Dos tiros no ecrã ao ribombar das kalashnikov de guerrilheiros ou, indiscriminadamente, de 50% dos civis que passam nas ruas.

"O Iémen surpreendeu-me muito pelo caos, pela pobreza, pelo subdesenvolvimento a todos os níveis." Regressou há dois meses de uma nação que descreve como "um Estado falhado". "Ao contrário de alguns países africanos, mais pobres, em que uma pessoa olha à volta e não vê nada - como o Congo ou a República Centro Africana -, o Iémen não é tão pobre assim, à primeira vista. Mas é em termos de pobreza de espírito e de subdesenvolvimento educacional. Metade dos homens anda com uma metralhadora, guerrilheiros ou civis. É assustador", aponta também Gustavo Carona.

O país árabe foi território de cura, mas também de "muita responsabilidade, porque tive muitos casos difíceis e porque tive alguns equipamentos que nunca tinha tido, o que me permite tratar doentes mais graves", refere. Perto do 'burnout' (esgotamento psicológico), nem o cansaço o demoveu do propósito fundamental: "Sinto a obrigação moral de o fazer. Faço-o porque gosto e porque me faz feliz. Sinto-me mais bonito quando me olho ao espelho, num sentido figurado."

O praticante de bodyboard que descobriu querer ser médico conquistou uma paixão capaz de abraçar o mundo. "Tenho que ter o foco em ser fiel ao que eu acredito, em ter a teimosia de continuar e querer agarrar aquele miúdo que um dia teve a desfaçatez de ir além com os seus sonhos. Há um tempo em que achamos que vamos explodir o mundo com boas ideias e depois percebemos que não. Ok, sou mais um, mas vou fazer aquilo que depende de mim", revela à TSF.

O "clima de pré-genocídio" no Burundi

África é como uma pátria onde é fácil sentir a chama acesa de um cachecol que cheira a casa. "Nós só batemos no peito e cantamos o hino quando joga a Seleção nacional. Eles, em cada dia de trabalho, estão a bater no peito e a cantar o hino da sua amada pátria. São pessoas assim que nos fazem sentir mais pequeninos e mais inspirados", garante o voluntário dos Médicos Sem Fronteiras.

O Burundi foi uma surpresa pelos mecanismos de fuga que oferecia, num território "muito pobre e com necessidades humanitárias enormes, a passar uma fase política muito tensa, com um clima de pré-genocídio", afirma o médico português.

Um mês e meio passado no país com o décimo pior Índice de Desenvolvimento Humano não lhe roubou o encanto pelo continente africano, mas Gustavo Carona pôde ver com os próprios olhos todas as tonalidades dos conflitos étnicos e políticos.

"Como é que eu posso contar isto de forma a poder ser escrito? É um assunto 'top secret'. O Presidente do Burundi - que não é propriamente um democrata - exigiu a todas as ONG [Organizações Não-Governamentais] que declarassem qual a percentagem de hutus e de tutsis que têm nas suas organizações, com o objetivo falso de equidade. Eles recusaram, apesar de terem os empregos em risco", denuncia o médico português, que diz nunca ter cedido a pressões governamentais por haver valores que se impõem aos políticos.

Orgulhoso pela recusa dos médicos locais, Gustavo Carona frisa que nem sob a ameaça da perda de empregos quebraram os códigos de conduta. "Muitas organizações recusaram-se a dar estes dados, porque acreditam que não podem pactuar com este tipo de políticas. Nós não fazemos perguntas sobre a religião ou sobre a etnia."

Das notícias dos jornais ao testemunho direto das dores alheias há uma distância que só pode ser colmatada pelo sentido de humanidade. Para o médico, é claro: "Houve um genocídio no Burundi que não teve a igual expressão à do Ruanda."

"Já estive perto do limite"


Abrir o livro de Gustavo Carona, "O mundo precisa de saber", é navegar nos mares turbulentos das incompreensões humanas, mas também atravessar a fronteira onde há sorrisos à espera.

Do Afeganistão leva memórias agridoces na bagagem: "O Afeganistão foi das minhas missões preferidas, a todos os níveis, mas tive alguns problemas com os médicos locais. Eu era mais novo, tinha uns 30 anos, mas era um rapazinho que já sabia bastante de medicina. Tinha de lidar com médicos com o dobro da minha idade, com um caráter muito duro e forte, com muita altivez, e nem sempre era fácil fazer esse jogo de cintura. Tínhamos muitas discussões científicas. Desprezavam-me, viravam-me as costas e eu percebia que falavam, entre eles, em pachto [idioma oficial do Afeganistão], com claro desdém pela minha opinião. Sentia-me muito frustrado, porque eram erros médicos gritantes."

As bombas e os perigos nunca o desviaram da missão que pôs nos seus ombros: "Eu gosto imenso de ser médico cá, mas felizmente existem dezenas ou centenas de profissionais com o meu saber, enquanto nesses países eu sou o único no raio de cem quilómetros."

Em solo estrangeiro, onde muitas vezes o conhecimento científico é deficiente para corrigir o infortúnio das balas e das guerras civis, não são só os quilómetros novos que se calcorreiam de norte a sul. Também a medicina passa a ser feita numa área de atuação mais ampla.

"Muitas vezes tenho o desafio de aprender áreas que eu não teria de dominar, como uma complicação neurológica. Mas abraço esses desafios", diz o médico que tirou, há dois anos, uma licença sem vencimento do Hospital Pedro Hispano, no Porto, para tratar o hospital sem muros que é o mundo.

Não enverga um colete antibalas nem uma capa de heroísmo anunciado, e rejeita que as missões sejam um ato de generosidade. "Tenho medo de me vir a tornar frio, cético e desiludido. É muito difícil começar, ter a proatividade para partir em missão, é o quebrar da barreira do desconhecido. Mas continuar a fazê-lo é muito mais complicado, porque já não temos o mesmo encanto nem o mesmo entusiasmo. Eu já nem fico nervoso. Faço a mala e siga", frisa o portuense.

"Em Portugal existe o chavão ignorante do voluntariado"

Sem a bússola ideal de quem sabe tudo, Gustavo Carona vai para o Sudão do Sul com um espanto de quem descobre tudo pela primeira vez. "Uma das coisas que me motiva é tentar compreender o mundo", garante.

No entanto, o voluntariado nem sempre é luminoso, e há intenções que nem sempre se refletem em resultados desejáveis.

"Gosto sempre de dissecar a palavra voluntariado. Em Portugal existe o chavão ignorante do voluntariado e o endeusamento da palavra. A maior parte do trabalho humanitário, o mais importante, terá de ser profissionalizado. O voluntariado serve para uma ajuda de proximidade, mas salvar vidas e ter projetos de desenvolvimento exige logística e pessoas com muita experiência", considera o membro dos Médicos Sem Fronteiras.

Gustavo Carona estava no Iémen quando o ciclone Idai invadiu Moçambique, mas não pensou em fazer as malas, porque quer ser "um peão numa máquina que pensa que o nosso esforço deve ser proporcional às necessidades".

"Começou logo aquela hipocrisia que bate no coração 'ai, meu deus, morreram 500 pessoas'. Morreram 85 mil crianças à fome no Iémen nos últimos três anos. Oitenta e cinco mil. Crianças. À fome. E há mais cinco milhões de crianças em risco de morrer à fome naquele país. Por isso, se somos solidários, por que é que Moçambique é mais importante? Aquilo acontece em três países e nós só falámos de Moçambique... Porquê? Por que é que Moçambique enche telejornais? Pela nossa hipocrisia e pelo facto de falarem português", atira o médico luso.

O ciclone que afetou o Malawi, o Madagáscar e Moçambique, pelo seu efeito dramático, fez esquecer o que realmente importa, realça Gustavo Carona: "Preocupar-nos com os seres humanos e querermos ajudar quem precisa não pode ficar bloqueado na nossa história em comum ou na língua que compreendemos."

"Este ciclone é uma migalha, comparado com o problema crónico de Moçambique - um dos países do mundo com maior prevalência de VIH e onde milhares de crianças morrem com malária todos os anos. É um país extremamente pobre, onde as pessoas morrem por tudo e por nada", salienta à TSF.

Sobre a solidariedade portuguesa, Gustavo Carona considera que é uma mera falácia conformista: "A sociedade civil portuguesa diz que é muito solidária, mas é uma mentira. Não há outra forma de dizer isto. Olhamos para Espanha e vemos que as ONG médicas não são quatro vezes maiores do que as nossas. São 400 vezes maiores!"

A privação do Iémen, lamenta, é a dor da gente que não sai no jornal. Ouvir Gustavo Carona no conforto de uma casa portuguesa, no cerne urgência de mundo, nem sempre soa como uma música de Chico Buarque. Às vezes, soa a um murro no estômago e ecoa como um alerta de quem viu nas dores alheias a terra das lágrimas próprias.

"O Iémen não vende. Desde logo porque são muçulmanos, falam árabe e isso cria logo um distanciamento. A primeira notícia ainda vende, a segunda já não vende, a terceira já não é notícia."

O arroz devia ser produzido localmente

Versos à parte, o alerta é pragmático: "As pessoas precisam de perceber que dar uma roupinha ou dar um quilo de arroz não é uma forma de ajudar. Se querem dar um quilo de arroz, deviam enviar dinheiro para que seja produzido lá. As pessoas usam sempre o chavão: 'ai, eu dinheiro não dou'. Isto é desconfiar de pessoas muito sérias. Claro que as organizações cometem erros, pode acontecer, mas em 95% das vezes são propósitos genuínos, válidos e honestos."

Gustavo Carona quer fazer parte de um xadrez que está construído para pensar nas necessidades humanitárias do planeta, quer guiar-se apenas por colocar os olhos e os corações dos outros onde já teve os seus.

"O mundo assim é mais bonito, se nos cruzarmos. Se abrirmos portas em vez de erguermos muros, o mundo certamente será mais bonito", diz ainda à TSF.

O avião já partiu. Gustavo Carona está no Sudão do Sul há precisamente uma semana. Carrega o cachecol do FC Porto na esperança de quebrar o gelo às primeiras conversas, às que importam. Depois, voltará para continuar a contar as histórias que o mundo precisa de saber.

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