É mais o que os separa do que une (por enquanto). Extremas-direitas da Europa testam a união

Matteo Salvini reúne este sábado, em Milão, líderes de extrema-direita de vários pontos da Europa. A uma semana das eleições europeias, os diversos partidos partilham ideais e políticas, mas apresentam também diversas divergências.

O líder da Liga Norte vai ter ao seu lado no palco figuras como Marine Le Pen, da União Nacional francesa, Geert Wilders, do Partido para a Liberdade holandês, e Joerg Meuthen, da Alternativa para Alemanha.

O porta-voz da Liga anunciou que se espera a presença de 11 partidos europeus e uma Piazza Duomo, em Milão, completamente cheia.

Nos últimos anos, a Europa assistiu a um crescimento dos partidos da extrema-direita. Em 24 países da União eles chegaram aos parlamentos nacionais, e estão no governo em Itália, Áustria, Hungria, Polónia. Estónia e Bulgária, integrando coligações ou como vencedores das legislativas.

Todos eles têm mensagens semelhantes contra a imigração, os refugiados, os muçulmanos, a União Europeia, as ameaças às identidades nacionais e a reafirmação da soberania. Os adversários também são comuns, entre eles os órgãos de comunicação social, as elites cosmopolitas, Angela Merkel e Emmanuel Macron. Com o crescimento dos diversos partidos, surgiu o sonho de uma aliança que ultrapasse fronteiras. Matteo Salvini fala de uma "visão da Europa para os próximos 50 anos".

O líder da Liga Norte, que tem dirigido este movimento, já conseguiu o apoio dos extremistas alemães, austríacos, franceses, dinamarqueses, finlandeses, estónios e holandeses. O partido "Brexit", de Nigel Farage, que está à frente das sondagens no Reino Unido, já pediu para aderir. Ao grupo foi dado o nome de "Aliança Europeia dos Povos e das Nações" e tem como objetivo central contrariar os grupos predominantes tradicionais do centro-esquerda e centro-direita.

Os partidos de extrema-direita estão atualmente divididos em três grupos diferentes no Parlamento Europeu. Por exemplo, a Liga e a União Nacional estão no grupo Europa das Nações e das Liberdades; o Fidesz, de Viktor Orbán, integra o Partido Popular Europeu, mas está suspenso por causa das mais recentes politicas antidemocráticas; e o Partido da Lei e Justiça polaco integra a Aliança dos Reformistas e Conservadores Europeus. As sondagens mostram que se optarem por se unir, os extremistas podem ter cerca de 170 dos 751 eurodeputados, e representar 23% dos votos.

A grande dúvida é saber se todos estes partidos podem deixar de lado as diferenças para se unirem num bloco com influência real no Parlamento Europeu. Uma tentativa do antigo conselheiro de Donald Trump, Steve Bannon, para criar uma super-aliança populista em toda a Europa fracassou porque alguns dos partidos tinham prioridades diferentes, mas também por causa de questões legais sobre o financiamento. Bannon, que andou pelos países onde a extrema-direita está ativa, desapareceu pouco depois dos palcos mediáticos, mas sabe-se que se mantém em estreito contacto com Salvini - que atualmente é vice primeiro-ministro da Itália e ministro do Interior.

A Rússia é o principal foco de divisão entre os diferentes partidos de extrema-direita. Para muitos, o apoio a Moscovo é um efeito colateral do antiamericanismo e do sentimento contra a União Europeia. Também gostam da atenção que o Kremlin dá aos valores tradicionais. Ao longo dos anos têm surgido suspeitas sobre um eventual apoio secreto russo ou financiamento aos partidos de extrema-direita. A União Nacional francesa de Marine Le Pen, por exemplo, conseguiu um empréstimo de um banco russo.

O apoio que os partidos dos países mais ocidentais da Europa dão a Putin é visto com desconfiança por alguns dos extremistas do leste e norte europeu. A Polónia recusou-se a participar no comício desta tarde e na Aliança Europeia dos Povos e das Nações. Salvini visitou Varsóvia em janeiro, mas não conseguiu convencer Jarosław Kaczynski. Por razões históricas, os polacos não aceitam qualquer ligação a políticos que apoiem Moscovo, e recusam por isso aliar-se a Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria, favorecendo os contactos com os antigos aliados de Salvini (o partido Irmãos de Itália, que integra a neta de Benito Mussolini, Rachele).

Já os dinamarqueses e estónios aceitaram integrar a Aliança, mas fazem questão de se demarcar de qualquer apoio a Moscovo. O Partido do Povo Dinamarquês considera a Rússia perigosa e critica abertamente os atos de agressão a outros Estados. O Partido Popular Conservador da Estónia recorda os anos de ocupação soviética e diz que desconfia das formações que receberam fundos russos. No inicio da semana, o partido recebeu em Talin Marine Le Pen, e foi muito criticado por isso. Aproximar-se de um politico considerado pró-russo pode ser eleitoralmente perigoso para um partido nacionalista num país com profundas desconfianças em relação à Rússia.

A União Nacional francesa não é o partido mais popular entre a extrema-direita. Há formações que consideram demasiado radicais as politicas que defende e, por isso, não querem ser associados a Le Pen. O primeiro-ministro húngaro é dos lideres que não quer aparecer ao lado da francesa, e já criticou a sua postura antissemita. Outros falam das suspeitas de fraude que recaem sobre forma como a União Nacional geriu diversos apoios europeus.

Há outros assuntos, como a distribuição dos dinheiros europeus, um orçamento da União e propostas nacionais, que dividem os diversos partidos. Por exemplo, os líderes da extrema-direita em Itália e na Áustria, Salvini e Strache, já entraram em choque por causa das propostas do Partido da Liberdade para que seja concedida dupla nacionalidade à minoria de língua alemã no sul do Tirol, no norte da Itália. Uma ideia totalmente recusada pelo líder da Liga do Norte.

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