Este abrigo para refugiados em Manaus tem um arco-íris na porta

Em Manaus há uma casa abrigo que acolhe refugiados da comunidade LGBTQ+. Com a chegada de cada vez mais venezuelanos ao Brasil, a casa tem sido um porto de abrigo para muitas pessoas vítimas de homofobia.

A Casa Miga fica bem no centro de Manaus, uma das cidades brasileiras que mais migrantes e refugiados tem recebido desde o início da crise na Venezuela. É uma casa simples. Tem vários quartos, cozinha e casa de banho. A sala está pintada de azul.

"Fica à vontade", diz Sahary quando abre a porta. A venezuelana de 19 anos chegou ao Brasil há um ano e meio. É transexual e uma das moradoras da Casa Miga, o primeiro abrigo do Brasil para refugiados LGBTQ+ (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e queer).

Na visita guiada à casa, Sahary mostra o quarto onde dorme. "Este é o meu camerino", conta orgulhosa. É no vestiário improvisado que tem a mesa da maquilhagem e dos acessórios que gosta de usar diariamente. Há muito tempo que não tinha um espaço só para si.

Decidiu fazer as malas e rumar ao Brasil devido à instabilidade política e económica na Venezuela mas o empurrão final veio quando percebeu que não conseguia comprar os medicamentos para a mãe diabética.

A primeira paragem foi a cidade da Boa Vista capital do Estado de Roraima. "Foi por causa de uma amiga, que morava em Boa Vista. Ela me convidou para o Brasil."

Assim que chegou, Sahary conseguiu trabalho como empregada doméstica em casa de familiares da amiga mas quando a patroa se mudou para o Rio de Janeiro ficou sem emprego e estadia.

Tentou arranjar trabalho mas esbarrou sempre na porta da transfobia. "Com o negócio de que a minha mãe estava precisando de dinheiro para comprar medicamentos, eu decidi trabalhar de programa, como garota de programa", contou.

"Ou dormia num hotel ou mandava dinheiro"

No Brasil, trabalhar como garota de programa significa fazer trabalho sexual. Para Sahary, foi a primeira vez que teve de se prostituir. "Eu vi muita coisa horrível nessa vida. Lá na Venezuela eu trabalhava no garimpo, trabalhava com a minha mãe, ela era comerciante."

Muito do dinheiro que Sahary fazia era poupado para enviar à mãe, mesmo que isso significasse não ter como pagar a estadia. "Eu morei uma semana na rua. Eu dormia numa praça, comia num hospital. Só dormia num hotel quando fazia um programa. Mas eu tinha que guardar para mandar para a minha mãe. Ou dormia num hotel ou mandava-lhe dinheiro."

Para arranjar dinheiro, a venezuelana arriscou-se muitas vezes. "Eu fui abusada lá em Boa Vista. Um homem me levou para uma fazenda e ele abusava de mim cada vez que ele queria. Eu fui porque ele falou que ia dar 200 reais para mim. Isso para mim era muito dinheiro."

Duzentos reais são cerca de 45 euros. Sahary não pode recusar mas acabou por ficar sequestrada durante quatro dias. "Eu falei que queria ir embora. Mas ele tinha uma arma. Ele falava que se eu não cumprisse ele me matava e ninguém ia saber. Na verdade, ninguém ia saber porque eu estava só. Foi o pior momento que eu vivi."

Sahary conseguiu regressar a Boa Vista mas só depois de quatro dias. Começou a fazer novos planos e seguiu para Manaus.

Casa salva vidas

Na cidade encontrou a Casa Miga, um abrigo para pessoas lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e intersexo que se sentiam discriminadas nos centros de acolhimento espalhados pela cidade. "Nós notávamos que, por vezes, em alguns abrigos, a população LGBT não se sentia confortável ou estava sofrendo algum tipo de discriminação. Faltava um espaço seguro para que a população LGBT", explica Juliana Serra.

A assistente de proteção do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) conta que a Casa Miga tem sido um apoio importante para migrantes venezuelanos. "Todas as pessoas que estão passando lá, têm conseguido sair de uma forma bem estruturada, conseguem sair em condições melhores em que as que chegaram à casa e têm fortalecido muito essa relação entre brasileiros e venezuelanos também."

A Casa Miga abriu portas em agosto de 2018 e é coordenada pela organização não-governamental Manifesta LGBTQ+ com o apoio da ACNUR. Pode acolher até oito pessoas ao mesmo tempo e a ideia é que fiquem no abrigo cerca de um ou dois meses até voltarem a caminhar sozinhos.

Emílio Morón, um dos coordenadores da casa, explica que a ideia inicial era acolher brasileiros da comunidade LGBTQ+ que ficavam sem teto. "Nós estávamos percebendo que pessoas perto de nós estavam sendo expulsas de casa e o Estado não tinha uma política pública de moradia para atender essas pessoas."

Manaus oferece abrigos públicos na cidade mas nenhum deles estava preparado para receber a população LGBTQ+. "A gente criou uma política de moradia de um movimento social para o Estado. A gente fez o trabalho do Estado", defende.

Empregar sem preconceito

Hoje a instituição abriga tanto brasileiros como venezuelanos , ajudando na procura de trabalho e nas aulas de português. Juliana Serra considera que a língua ainda é uma grande barreira. "Por mais que o espanhol e o português sejam muito próximos, ainda existe uma barreira do idioma."

A assistente de proteção do ACNUR explica que o processo de arranjar trabalho é moroso, sobretudo se o migrante quiser voltar à profissão que exercia antes do deslocamento forçado. "É muito difícil você voltar à sua normalidade. Eles buscam, dentro de toda e qualquer possibilidade, meios de subsistir."

Emílio Morón considera que arranjar trabalho quando se faz parte da comunidade LGBTQ+ não é fácil. "A pessoa lhe olha de cima a baixo e você tem trejeitos, a forma como você se veste, a forma que você fala, a forma que você se expressa se torna uma barreira para você conseguir aquele emprego."

É o caso de Sahary. Acredita que ainda não conseguiu emprego por ser transexual. "Ficavam olhando feio para mim. Eu não consegui. Na verdade até agora eu não consegui um trabalho."

A venezuelana continua à procura de trabalho mas agora tem um teto onde gosta de estar. O namorado trabalha e ajuda nas contas. Em breve mudam-se para um apartamento dos dois mas sem esquecer o tempo na Casa Miga.

"Eu acho muito importante essa casa porque tem pessoas que estão na minha posição, que não têm casa num país que a gente não conhece. Tem esse abrigo aqui, acho muito importante porque, na verdade, isso aqui salva a vida. Estar na rua é horrível."

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