Grande Reportagem TSF

"Mataram o meu marido porque ele queria que toda gente se sentisse em casa"

A frase, um lamento pela perda, mas ao mesmo tempo um alerta, é de Magdalena Adamowicz, viúva do autarca de Gdansk, na Polónia, Pavel Adamowiczs, assassinado em janeiro. A TSF foi à procura, em Portugal e não só, de casos de cidades que recebem bem quem foge à guerra, violência e fome. Vidas e destinos cruzados, políticas e modelos de integração, vozes que se levantam contra os ventos da xenofobia, contra os muros da indiferença: Europa, Cidade Aberta.

Guli é flor, em sírio. Assim gosta de ser chamada a jovem refugiada que deixou Aleppo e está agora numa sala pequena, num rés-do-chão que alberga a associação de professores local, na Tapada das Mercês, em Sintra, a fazer um curso de costura. Sempre ganha uns euros da bolsa de formação e ocupa o tempo enquanto não volta a estudar: "Aprendi várias coisas neste curso, cortar, várias técnicas, graças a Deus não tem sido uma perda de tempo". O curso é patrocinado pela Fundação Aga Khan e pela Câmara Municipal.

Saba é iraquiana de Mossul. Mais tarde, ela e o marido hão-de abrir-nos as portas de casa onde vivem no Cacém: "vim com o meu marido e três filhos há dois anos e três meses". Falam em árabe e Anany, que esta tarde está ao telefone, traduz para o jornalista (delícias possíveis com a tecnologia que tantas vezes nos sufoca).

Ali trabalha com jovens num bairro problemático em Mechelen (ou Malines), a poucas dezenas de quilómetros de Bruxelas, admitindo que o mais difícil é chegar aos pais dos jovens: "temos o grupo dos pais, porque os pais são as pessoas a que temos maiores dificuldades em chegar. Porque têm sempre tendência para dizer "sim a mãe faz isso" e tal... por isso tentamos estabelecer ligação com os pais, com os homens".

Magdalena é viúva de Pavel Adamowicsz, o autarca assassinado em janeiro em Gdansk, na Polónia, por razões de ódio às políticas de integração que defendia: "ele, o meu marido, foi uma vitima de discurso do ódio. A campanha do ano passado foi muito feita de fake news, mentiras e meias-verdades sobre ele, especialmente nos média públicos. Se não fosse este discurso do ódio, o meu marido ainda estaria vivo".

Anila Noor vive em Amsterdão. Rima com Paquistão, o país onde nasceu e de onde fugiu em 2005. Não quer dizer os motivos: "Isso é algo bastante pessoal, mas posso partilhar que sou uma requerente de asilo, que agora trabalha na integração e inclusão de todos os refugiados e migrantes na Europa".

O titulo desta reportagem poderia ser... DiverCidades

Divercidades, tudo junto e com o "c" que constrói em vez do "s" que separa. Anila veio do Punjab para a Holanda, trabalha como funcionária municipal na área da integração, é também membro do European Migrant Advisory Board (EMAB), uma das ações da Parceria para a Inclusão de Migrantes e Refugiados. Anila, entrevistada pela TSF em Bruxelas, durante uma sessão plenária do Comité das Regiões do Parlamento Europeu, afirma que migrantes e refugiados estão fartos de não serem levados a sério: "você pediu-me para partilhar a minha história, querem saber como chegámos à Europa, como foi a viagem de barco, aquilo por que passámos, mas não estão interessados em ouvir a nossa voz verdadeiramente, os nossos conhecimentos, querem apenas a nossa opinião. Não querem as nossas recomendações para lidar com isto que está a acontecer na Europa, por isso é que digo que os migrantes e refugiados estão mesmo a ficar fartos porque as pessoas não os levam a sério". Mas o que faz o EMAB? "Estamos a tentar fornecer aconselhamento sobre migrantes e refugiados aos países de acolhimento. Estamos a tentar produzir conhecimento sobre participação, estamos a tentar criar uma estrutura de participação onde os migrantes e refugiados possam trabalhar como parceiros, e não apenas como meros recetores, para que possam participar em discussões mas não como esta que acontece aqui no Comité das Regiões, onde só podes ouvir. É preciso criar um espaço de discussão onde possas falar. Assim, poderás contribuir mais para a sociedade que te acolheu e assim podes ter mais impacto na criação de políticas de longo prazo". O EMAB produziu um relatório "Us the people", Nós as pessoas, após consultas e debates em sete países da União Europeia... Finlândia, Alemanha, Holanda, Grécia, Itália, Espanha e... Portugal. Houve mais de quinhentas participações em grupos, inquéritos online, sempre à procura respostas sobre integração, inclusão, mercado de trabalho, educação, participação, menores não acompanhados: "Eles relataram as suas experiências mas também deram conselhos e assim pudemos trabalhar essas recomendações e agora apresenta-las a nível europeu, das cidades europeias. São as perceções dos migrantes e refugiados, são os seus problemas, são as suas soluções. Querem contribuir para a Europa porque a Europa é a sua casa".

Anila Noor diz que os refugiados querem ser parte da solução e não apenas parte do problema. Está preocupada com o que possa sair das eleições do próximo Domingo: "Penso que toda a Europa está preocupada com isso. A narrativa, o discurso sobre as migrações, a direita e os partidos populistas usam-no como medo, como ameaça. Para se mudar este medo, temos de mostrar mais o lado positivo das migrações. O resultado pode ser qualquer um, mas mantenhamos altas as nossas esperanças".

Peter O'Flaeherty é o diretor da Agência Europeia dos Valores Fundamentais (EAFV): "esses valores são o que há de mais central na vida da União Europeia, mas as pessoas não vão entender automaticamente o que significam para o dia-a-dia do processo de decisões, portanto é com formação, treino, tomada de consciência, com todos os instrumentos que temos à disposição na EAFV que o vamos conseguir; essa é a nossa prioridade". O papel das cidades e regiões é essencial? "É crucial! Absolutamente! As pessoas vivem localmente e frequentemente a solução local é a melhor solução. E não temos sempre isso, temos demasiadas decisões centralizadas que não funcionam necessariamente nesta ou naquela cidades. Temos de lá ir, falar com os autarcas e populações locais e trabalhar nas soluções. O que funciona em termos de integração respeitosa dos migrantes? O que funciona em termos de integração dos ciganos nas nossas sociedades? Como ajudamos as pessoas portadoras de deficiência? Quando as soluções para estes desafios são locais, no mínimo funcionam melhor".

O Comité das Regiões do Parlamento Europeu promove um programa que procura associar as boas práticas de cidades e regiões em matéria de acolhimento e integração de migrantes e refugiados. O GPS do carro de reportagem indica que estamos a chegar a Sintra, onde um autarca - veterano da política portuguesa - não tem dúvidas: "A Europa da liberdade e da democracia, da solidariedade e da inclusão, está claramente em causa. E se nós que somos pela democracia e pela solidariedade e inclusão não começamos a levantar a voz, a organizarmo-nos e a falar alto, nós corremos um seríssimo risco dentro do modelo europeu". O alerta é de Basílio Horta, presidente da Câmara de Sintra: "a exclusão é o pior inimigo da paz; as pessoas excluídas ficam particularmente sensíveis a propostas demagógicas, nacionalistas e são levadas por esse tipo de mensagem".

Sintra, capital da integração de refugiados e imigrantes

Concelho com quarenta mil migrantes de mais de trinta nacionalidades, tendo também a maior comunidade muçulmana de Portugal, Sintra tem um plano municipal de acolhimento e integração de imigrantes e tem também um plano de acolhimento de refugiados, em articulação com o estado, Alto Comissariado para as Migrações, Conselho Português para os Refugiados, associações locais da sociedade civil, nomeadamente a Fundação Aga Khan, com um projeto na Tapada das Mercês, que a reportagem da TSF visitou. Rodeado de mulheres de várias nacionalidades, Mahmoud, sírio de Idlib, um dos últimos pontos de conflito na guerra da Síria, costura chapéus nesta pequena sala com pouca luz no rés-do-chão de um prédio na Tapada das Mercês. Diz que veio "para cá à procura de trabalho, qualquer coisa. Mesmo sendo na área da costura, não faz mal. O que é preciso é ter trabalho".

Guli, jovem síria de 25 anos, está a estudar. Ou estava, quando saiu de Aleppo. Ou melhor, edstava até a guerra começar. Já foi há tanto tempo. É agora. Guli estudava Economia, no primeiro ano. Agora, quer retomar os estudos numa universidade portuguesa. É categórica quando lhe perguntamos se pensa voltar á Síria: "Não"! Mahmoud já vacila: "Não penso em voltar agora porque a situação no país não oferece condições, mas espero voltar à Síria quando houver condições para isso no país". Mahmoud, na Síria, ganhava para sustentar a família: "tinha uma loja de roupa e um táxi." Mahmoud já tentou sair de Portugal, vivia na altura em Coimbra esteve lá cinco meses, foi para a Alemanha, mas estando com estatuto de refugiado só pode trabalhar no país que o acolheu. Faz chapéus que são o orgulho próprio e do grupo que faz o curso organizado pela CEARTE. A iraquiana Saba, 42 anos, insiste que "o mais importante é ter trabalho, seja o que for; pode ser qualquer coisa, mas o trabalho de costura é bom". Está feliz pelas amizades que já fez no grupo: "mas ainda não tenho nenhuma ideia sobre o projeto que vou fazer no fim do curso, não faço ideia." Regressar a Mossul? Nem pensar". As coisas estão bem agora em Portugal, não penso em voltar". "O meu marido tem cá trabalho, as minhas filhas e o meu filho estão cá também, a aprender a língua portuguesa, por isso não posso voltar para o Iraque". No Iraque não trabalhava. A emancipação está a passar por aqui.

Saint-Omer: "Estamos na linha da frente, não temos escolha: é preciso encontrar soluções"

François Decoster é autarca, preside à câmara de Saint-Omer no norte de França, a 45 km de Calais, ponto de saída do território francês para os muitos milhares de refugiados que têm tentado dar o salto para o Reino Unido. Mas alguns milhares ficaram concentrados nesta região: "Construíam barracas, havia uma enorme concentração de pessoas em condições desastrosas... mas as coisas mudaram, tanto na região, como no estado. Temos que partilhar este encargo, temos que receber melhor as pessoas para lhes oferecer melhores condições de vida. Mas também para perceber para que territórios devem ir. Na nossa região, acolhemos de bom grado jovens refugiados, menores. É uma situação que envolve cerca de dois mil menores todos os anos, e há 40 ou 50 que ficam por mais longo prazo na minha cidade de quinze mil habitantes". Com a ajuda de uma associação local, e uma vez que muitos dos refugiados em Sanit-Omer são do Afeganistão e Paquistão, a integração faz-se através de um desporto: "Decidiram fundar um clube de cricket, agora são campeões regionais; jogam com as cores da cidade, é um grande orgulho para nós, e agora decidiram criar uma Escola de Verão para ensinar os jovens da minha cidade a jogar cricket. Vejo duas vantagens: a primeira é que isso muda a relação com os imigrantes, não os vês mais apenas enquanto tal, mas sim como pessoas da cidade, têm um estatuto, participam na nossa vida coletiva. E a segunda vantagem é o espírito de união; no campo de cricket, estão quer os migrantes, quer os jovens da cidade". Decoster não está com meias-tintas: "nós nas cidades e regiões não temos escolha; temos de agir. Estamos na linha da frente para receber ou não migrantes; eles estão nas nossas cidades, vilas e regiões. Temos de encontrar soluções. Lembro-me que uma vez quando estava a preparar uma opinião para ser adotada aqui no Comité das Regiões, perguntei a um dos vice-presidentes da Câmara de Calais qual era o orçamento para os migrantes e refugiados e não houve resposta! Tão simples quanto isto! É preciso usar o orçamento de habitação, desporto, transportes, social... para ajudar. Estás na linha da frente, não tens outra hipótese.

François Decoster apela à solidariedade e entre os líderes da União Europeia e também para que cumpram em casa o que prometem em Bruxelas: "Todas as promessas feitas a nível europeu pelos chefes de estado e de governo não têm sido implementadas e isso está errado. Por isso precisamos de uma melhor resposta europeia para o problema, os cidadãos europeus querem uma resposta a nível europeu e essa é a razão pela qual nós aqui, autarcas e vereadores, temos de agir".

Mechelen/ Malines: policiamento e diversidade

Bart Sommers, político belga, é o presidente da Câmara de Malines há quase vinte anos, um recorde e algo raro na Bélgica. Já pertenceu ao governo flamengo da Bélgica, diz-nos que preza muito a liberdade e a mudança. Dá um exemplo: quando comecei como político tínhamos muitas discussões sobre as pessoas gays; se ouvíssemos agora o que dizíamos na altura, iriamos rir e por vezes ficaríamos envergonhados! Porque agora o casamento homossexual é uma coisa normal, toda a gente o aceita. Se olharmos para o que dizíamos sobre as mulheres nos anos cinquenta e sessenta quando quiseram começar a participar no mercado de trabalho, que iam roubar os nossos empregos, dos gajos, que deviam era fazer como as mães delas e ficar em casa... a mesma soma zero que vemos hoje... daqui a vinte anos estaremos envergonhados com o que dizemos hoje sobre pessoas imigrantes ou com origem estrangeira. Estamos a caminhar para uma sociedade aberta, isso é imparável Há muita gente e há também uma diversidade crescente mesmo entre os grupos de imigrantes, portanto os rótulos e os pensamentos feitos enquanto grupo já não são algo consistente. È impossível conceber políticas dessa forma, portanto devemos abrir as nossas cabeças, pensar diferente e ver tudo isto mais como oportunidade do que ameaça."

Bart Somers foi considerado o autarca mundial do ano em 2017 pelo modo como Malines (Mechelen em flamengo) recebe os refugiados e imigrantes. E tudo começou por algo menos frequente quando se lida com este problema... mais polícia nas ruas, uma cidade mais segura: "A base foi criar uma cidade segura porque havia muita criminalidade, o que arrasta sentimentos negativos, logo não vão ter vontade de abraçar a diversidade, vão é procurar responsáveis sobre o que de mal acontece na cidade e um segundo passo é combater a segregação, as pessoas falam no valor acrescentado da diversidade, mas na verdade vivemos muito em ilhas monoculturais. Quebrar isso faz-com escolas etnicamente mistas, vizinhanças, clubes de juventude e clubes desportivos mistos, onde pessoas vindas de diferentes contextos se encontrem na vida real e ai vais entender a riqueza da diversidade muito melhor. Em terceiro lugar, tentar criar mobilidade social ascendente, porque a nossa sociedade prometeu isso a todos: se trabalhares duro, se deres o melhor, conseguirás um melhor futuro. E o que está a bloquear isso é, por exemplo, o racismo e a discriminação. Bloqueia as oportunidades das pessoas mesmo se trabalharem muito e derem o seu melhor. Portanto combater o racismo e discriminação está no centro da batalha por uma sociedade aberta. Viver juntos nunca é fácil, mesmo num casamento não é fácil. Mas viver na diversidade é possível. Eu sou muito otimista porque vi a transformação na minha cidade, que era uma cidade com uma reputação muito negativa na Bélgica e hoje é uma cidade modelo. Portanto, abrimos uma porta ao populismo se não tomarmos conta das necessidades básicas. É o que todas as cidades devem fazer: mantenham-nas seguras, mantenham-nas limpas. Pus muita energia nisso. E sim, fi-lo com polícia, muitas câmaras, às vezes tolerância zero, porque sempre acreditei que a alternativa ao primado da lei é a lei da selva".

Em 2000 a extrema-direita teve em Mechelen 32% por cento, "agora tem apenas nove por cento, por isso consegui os convencer muita gente de que temos de abraçar os desafios do futuro... temos de aceitar que uma realidade com diversidade é um desafio para todos e cada um de nós e não apenas para aqueles que são novos na nossa sociedade. Temos de nos adaptar e saber integrar na nova realidade da super diversidade. Não podemos estar a sonhar nostalgicamente com um passado que provavelmente nunca existiu. Não! Temos é de sonhyar com um futuro juntos, um futuro com diversidade e baseado em valores comuns".

A estratégia contra a radicalização

Este autarca, Bart Sommers, deu nome ao relatório adotado pelo Comité das Regiões que serve de modelo de combate à radicalização e violência extremista: "aquilo que podemos fazer de melhor, a melhor forma de combater a radicalização, é recrutar as pessoas para o nosso modelo antes que os extremistas as recrutem para as ideias deles. Temos de os fazer sentir cidadãos e que se revejam enquanto tal. Temos de abrir a sociedade aos imigrantes. Na crise do Médio Oriente, a Bélgica foi o país europeu de onde partiram mais combates estrangeiros para o Estado islâmico, em percentagem. De Antuérpia, a 25 km daqui, foram cem pessoas para o ISIS. De Bruxelas, foram duzentos. De Wilvort, uma pequena cidade a 9 quilómetros daqui, saíram 27. De Mechelen não saiu ninguém". Somers também não deixa de dizer que "não somos ingénuos, temos a polícia e os serviços de informações, se há algum perigo estamos lá, mas o que fazemos é tentar trazer a pessoa para o círculo da sociedade, procurando ajuda de alguém que essa pessoa ainda ouça. O início do processo de radicalização é sempre um processo de isolamento. Eles, os terroristas, tentam isolar estas pessoas da sociedade e dão-lhes uma narrativa muito a preto-e-branco, muito simplista; o mundo é mau, vocês são bons, tudo o que está mau não é da tua responsabilidade, e podes tornar-te um herói. Agora és um zero, esse tipo de história! Mas no início do processo ainda há abertura cognitiva; por outras palavras, ainda estão preparados para ouvir pessoas em quem confiam. Ainda não estão totalmente isolados. Há pessoas que os podem convencer a não prosseguirem na radicalização e a procurar alternativas".

A importância do discurso. Bart Somers conta um episódio ocorrido em Malines, na noite após os atentados no aeroporto internacional da capital belga: "Num dos clubes de juventude daqui, na noite dos atentados do aeroporto, estavam a olhar para a televisão uns 50 tipos, daqueles cheios de testosterona que arranjam problemas e que existem em todas as cidades... estavam a olhar para a TV, tudo em silêncio segundo me disseram. E a mensagem na televisão era sempre "nós" e "eles". Sentiram que estavam a ser acusados. O ataque foi horrível mas pessoas de origem muçulmana também foram mortas. E todos os políticos na televisão estão a dizer "não é que todos os muçulmanos sejam um problema MAS...", "o Islão não é um problema MAS...", MAS, MAS, MAS, e só o MAS te fica no ouvido... e eu, que também sou um político nacional fui à televisão e disse: "é muito grave o que aconteceu, têm de ser trazido á justiça e castigados não podemos aceitar, é um escândalo e horrível o que aconteceu, são terroristas" e depois disse... "mas são os nossos terroristas, são os nossos miúdos, cresceram nas nossas cidades, andaram nas nossas escolas, é inaceitável o que fizeram, mas são os nossos miúdos". E disseram-me que alguns dos tipos no centro de juventude começaram a chorar. Ficaram sensibilizados porque na hora mais negra, o seu presidente da câmara disse: vocês são parte de nós. Sempre. É indivisível. E essa atitude, ano apos ano, consequentemente, faz a diferença. É preciso coragem, mas tens de o fazer".

Mechelen recruta as pessoas para o modo de vida da terra, antes que os extremistas as recrutem pelas ideias radicais violentas. Nesta cidade belga, mais de metade das crianças nascidas no ano passado têm origem estrangeira, essencialmente pais marroquinos, mais de quinze por cento da população local é de origem marroquina, depois surgem os sírios e os arménios. Mas outros números dão que pensar: "32% das crianças têm origem estrangeira. Temos mais muçulmanos aqui do que Orbán em toda a Hungria". Em termos étnicos e de nacionalidades, Malines, quase noventa mil habitantes, tem escolas mistas nos subúrbios pobres, mas também são mistas e diversas as melhores escolas no centro da cidade... a ideia é evitar discriminações, caricaturas e narrativas de vitimização: "Aqui não há aqueles sociedades paralelas com supostos lideres que dizem falar em nome da SUA comunidade. Ninguém os elegeu, mas têm todo um programa, dizem saber o que a comunidade quer. O problema é que a comunidade, aqui, não existe. Discordo em quase tudo com Margereth Thatcher, exceto em algo que ela um dia disse: "não vejo nenhuma comunidade nas ruas, apenas seres humanos".

A comunidade marroquina, o maior grupo migrante na minha cidade, não existe. É tão diferente quanto a comunidade flamenga, tem gente muito bem sucedida e gente muito carenciada, tem ricos e pobres, pessoas altamente educadas e pessoas não educadas, polícias e criminosos, temos de tudo. Nunca nos podemos esquecer de dizer que Mechelen não é um

paraíso. Temos problemas, temos segregação, temos criminalidade e pobreza, temos mal entendidos. Mas com o trajeto que temos feito, pudemos desligar da ideia pré-concebida de que migração e diversidade crescentes significam declínio. Tentamos fazer de todos os bairros sítios com diversidade, mistos, por isso temos investido bastante nos bairros mais pobres para fazer lá regressar a classe média, porque não gostamos da segregação étnica, mas também não gostamos da segregação social e económica. Queremos que pessoas diferentes estejam a viver nos mesmos locais. Mechelen ou Malines, na Bélgica, foi capital dos Países Baixos no século dezasseis. Há vinte anos era das cidades com maiores índices de criminalidade no país, era a mais sujas da Bélgica. Hoje é hoje um modelo para ser exportado. A farmacêutica japonesa Nypro, 150 mil funcionários em todo o mundo, escolheu Mechelen para sede europeia, precisamente "pela diversidade".

Oudoafenplein: bairro problemático e exemplo a seguir

Numa das zonas mais problemáticas da cidade dirigida por Bart Somers, o bairro de Oudoafenplein, as crianças jogam à bola no parque da Rua Listerstraat. Os mais crescidos estão nos matraquilhos, ténis de mesa e bilhar no centro de juventude de Oudoafenplein. Younes Alisfi não trabalha só aqui; coordena centros de juventude de oito bairros de Mechelen: "Sejam bem vindos, é uma honra ter-vos aqui, em Oudafenplein. O meu nome é Younes Alisfi, sou o coordenador-geral dos centros de juventude de Mechelen".

Aqui celebra-se o Ramadão, mas também há uma árvore gigante de Natal... no centro de juventude, mais de metade das pessoas que por aqui vão passando são marroquinos ou de origem marroquina, mas também há sírios, arménios, belgas, pois claro. Há mais homens que mulheres, três em cada quatro, mas o autarca Bart Somers garante que isso, haver 25% das raparigas a sair à rua e a conviver com os rapazes, já é uma grande evolução.

Younes Alisfi vai fazer 50 anos... pai marroquino, mãe argelina, veio para Mechelen ainda bébé; agora esta terra já vai na quarta geração de imigrantes: "Parece lógico e fácil o trabalho que fazemos, mas é uma tarefa que não é fácil de conseguir. Porque quando se olha para osmédia, mesmo tratando-se de crianças que crescem na Bélgica, chamam-lhes sempre migrantes. Como é que se pode dizer de alguém da terceira geração na Bélgica que ele é um migrante, quando nasceu aqui? Mas é esse o sentimento que prevalece entre os miúdos, de não se sentirem, 100% incluídos na sociedade. E é isso que tentamos conseguir com o JAM. Dar-lhes o sentimento de estarem em casa nesta cidade.

Muitos jovens participam em trabalho de voluntariado, nem que seja duas horas por semana. Abdrhaman Labsir cresceu aqui e vagueou por estes prédios, ruas e pracetas... trabalhou vinte anos com jovens daqui. Hoje já deu o salto para vereador municipal para as zonas mais problemáticas da cidade. "Ali há um parque infantil que está aberto, não está fechado. Até ás dez horas, mais ou menos, pode ser utilizado. Claro que há miúdos que vão para lá à meia-noite ou uma da manhã. Isso cria alguma tensão mas temos pessoas já especializadas em interagir com as pessoas daqui. Mas há outras questões como a forma como organizas a tua casa, como tratas o teu jardim, há muitos exemplos sobre a forma de melhorar o bairro. Mustafá junta-se à conversa. De origem marroquina, Mustafá nasceu já em Mechelen, pede para falar em holandês: "o primeiro trabalho que fizemos aqui foi ajudar o pessoal a limpar o bairro. Um segundo projeto foi organizar um evento que chamou toda a gente para que os vizinhos se conhecessem uns aos outros". O projeto comunitário Pleinmarker que junta Mustafá a mais três colegas (2 homens e duas mulheres) começou há um ano. Trabalham para uma comunidade de quatrocentas pessoas. Gert Eeaerts é o diretor do Samen Leven, Living Together, Viver Juntos, o plano guarda-chuva municipal para os projetos de integração: "é a única forma de criar um ambiente em que as pessoas possam viver juntas. Tens de te focar na promoção da língua, na segurança, na prevenção de drogas, em evitar distúrbios entre vizinhos, mas principalmente na educação, e em encontrar empregos e coisas do género. Viver Juntos é um programa e, de facto, o nosso guarda-chuva". Na sede do projeto em Oudoafenplein, onde tudo cheira a novo, explica-nos como funciona oi voluntariado: "Não recebem salário, mas quando calculas o preço de um apartamento para alugar aqui, mas nós baixamos esse preço para que a pessoa que faz trabalho voluntário possa alugar esse apartamento. Como retribuição pela ajuda e tempo despendidos. Uma ajuda de trezentos euros mensais para a renda da casa: "Posso falar pelos 4... a compensação financeira nunca foi a motivação para fazer isto".

Mustafá destaca a maior participação das mães... "com os homens é mais complicado, estão sempre no bar ou na casa de chá local... mas fizemos muito para conseguir o que temos agora, com os pais empenhados em ajudar-nos e sobretudo ajudar as crianças, participam nos eventos". Voltemos a ouvir Ali, no centro da juventude: "temos atividades com os pais, homens, do tipo "team building", vamos para o terreno, como palestras sobre educação, alimentação saudável. No fundo, isto é um triângulo: temos a escola, temos a família e depois surgimos nós, com esta dimensão social. Temos ligação aos jovens e tentamos também atrair a atenção dos pais. Assim, quando há algo que precisamos de fazer por ele, temos uma intervenção mais rápida". Os pais pedem conselhos sobre como lidar com os filhos, pedem ajuda para resolver assuntos. E para Ali, o trabalho com os jovens no centro de juventude é mesmo a tempo inteiro... e sente-se realizado... ficou na gaveta o plano de ser professor: "tinha essa ideia. Mas agora trabalho com jovens. E é melhor porque quando estás numa escola, tens os regulamentos, tens de fazer tudo muito direito, aqui consegues ter outro tipo de relação com os jovens. És como um irmão mais velho para eles. Ouves os seus problemas, estabeleces uma relação de confiança. Quando tens a confiança deles, tens tudo". Admite que nem sempre corre tudo bem: "às vezes acompanhamos jovens que depois nos dão más notícias sobre as suas vidas e eu levo tudo isso comigo para casa. Por vezes há alguma frustração. Mas posso falar disso com os meus colegas, porque aqui a comunicação é central. Se não tens a comunicação, bem podes parar o trabalho. Se trabalhas com os jovens e os seus pais a comunicação é muito importante, é o ponto número um da lista de tarefas".

Ibrahim ajuda as crianças do bairro nos trabalhos escolares, mas também "quando andam à procura de outra escola, ajudo-os nisso; se têm problemas com o sítio para fazer os trabalhos de casa, também, os ajudo a procurar um local onde possam estudar melhor; se a partir dos dezoito anos estão á procura de trabalho, falo com alguns parceiros, desenvolve-se um projeto, e desejavelmente eles encontram um bom emprego para o futuro".

Facilita o trabalho desta gente em Oudoafenplein o facto de não estarem a chegar pessoas novas todos os dias... é uma comunidade consolidada, admite Abdrahman Labsir "Penso que sim, porque se tivermos de começar sempre desde o início é mais difícil. Precisas sempre de alguma coesão neste tipo de ambientes; se recebes de repente mais duas ou três famílias é fazível... se recebes mais dez, doze ou vinte torna-se problemático. Precisamos de vinte Mustafás".

Estes voluntários acabam por ajudar a apontar o caminho do futuro a crianças e adolescentes... são uma espécie de caça-talento sem receber comissão. Labsir explica: "a perceção da criança é problemática mas tem um talento. Então o Mustafá ajuda e diz "trens um talento especial para o boxe ou luta ou ténis ou futebol, vamos tentar arranjar um clube", para que possa desenvolver mais essas suas capacidades e a perceção dessa criança torna-se logo diferente". "Se os ouvires e mostrares e empatia ganhas o respeito deles", atira Mustafá. "Estamos incondicionalmente por detrás de cada cidadão, mas não incondicionalmente por detrás do seu comportamento", remata Labsir.

Tal como Bart Sommers em Malines 2017, Valeria Mancinelli também já ganhou o prémio de autarca mundial do ano pelo trabalho feito em Ancona, Itália... no ano passado: "Creio que foi o resultado do trabalho que fizemos no governo, de transformação da cidade e de serviços prestados aos cidadãos, mas sobretudo por um elemento - digamos - intangível, que foi a construção de um historial de credibilidade e confiança. A autarquia forneceu especialmente credibilidade e afabilidade. O recurso da credibilidade é fundamental na vida, é o primeiro objetivo para realizar uma boa integração e para uma qualidade de vida decente para todos quantos vivem na comunidade". A TSF pergunta a esta italiana de cabelos grisalhos que veste roupas largas o que é que pode ser feito a nível europeu para reforçar o esforço feito aos níveis local e regional em termos de integração? "Dar orçamento com uma linha o mais direta possível, não para fazer convénios, mas para fazer atividades concretas de serviço à população". Advogada especialista em direito administrativo, a autarca mundial do ano em 2018 é recebida com pompa pelo comité das regiões do Parlamento Europeu... fez rejuvenescer a indústria naval e portuária em Ancona, cidade italiana. Na Itália de Salvini. Com 13% de cidadãos com origem estrangeira... não nega que haja tensões, mas acredita que o modelo de integração está a funcionar e vai funcionar ainda melhor.

São Mamede, Batalha: a casa portuguesa de uma família iraquiana

Na freguesia de São Mamede, concelho da Batalha, vivem os irmãos Tahani e Hani. Hani, 32 anos de idade, saiu do Iraque para a Síria depois de ter sido sequestrado duas vezes. Ela, mais nova, tem dois filhos. O marido não está em casa, está a trabalhar, tal como o pai, na cerâmica local. Ela saiu de Bagdade para a Líbia e depois a travessia de barco, "horrível", para Lampedusa. Já lá vamos. Depois seguiriam para a Sicília, Roma e Lisboa.

Hani está há cerca de baixa médica da fábrica onde trabalha, e já com a certeza de que o contrato não vai ser renovado, tem uma angústia suplementar... está há quase 1 ano sem conseguir trazer a noiva... talvez seja hoje mesmo que consiga o visto. O facto de ser palestiniana dificulta a obtenção do visto. A vida não tem sido fácil para esta gente. Hani esteve sequestrado, alegadamente pelo Estado Islâmico no Iraque, e o pai teve de pagar resgate para o conseguir libertar, antes de o mandar para fora do país. Hani não se alonga sobre o assunto: "Milícias". Motivos? "Dinheiro, queriam dinheiro". O percurso de Hani até Portugal, foi, consequentemente, mais complicado: Iraque, Síria, Jordânia, Egito, só depois a reunião com a família na Líbia, travessia de barco até Lampedusa, seis meses no campo de refugiados em Itália, Portugal. Alguma desilusão quando perceberam que não iam ficar na cidade grande, Lisboa.

Tahani - que significa parabéns em árabe - fala num português um pouco mais escorreito que o do irmão. Aprendem com professora voluntária que vai a casa deles uma vez por semana e com os filhos dela, de dez e doze anos, dois rapazes, que já "estão na escola e muito bem integrados". Quando Tahani e o irmão recebem a TSF na antiga escola transformada em casa particular, quando era para ser centro de acolhimento de peregrinos para Fátima, a jovem tem ao colo o filho Adam, de 2 anos. Gratos à técnica de ação social da Câmara que os tem acompanhado, esta família de refugiados iraquianos desfaz-se em elogios à ajuda da autarquia liderada por Paulo Batista Santos. O autarca diz à TSF que a câmara que dirige teve sobretudo o papel de seguir o impulso da sociedade civil batalhense: "na altura, empresários locais, com espírito de responsabilidade social, vieram ter connosco, quando chegaram as imagens mais impressivas da crise dos refugiados, dizer-nos que era preciso fazer alguma coisa". Reconhece hoje que "fizemos bem" e corresponde a uma opção estratégica da Câmara da Batalha há vários anos: "sermos uma sociedade inclusiva, solidária com quem precisa", sendo o acolhimento da família alargada iraquiana (hoje nove pessoas) um projeto que "marcou a diferença" no concelho.

Fawaz e Amir: dois casos de sucesso

Em Sintra, na casa da família do senhor Fawaz, iraquiano de Mossul, marido de Saba, pai de Amin, Safa e Dima que estão aqui em Portugal, e ainda de Sara que é casada e ficou no Iraque com o marido e já duas crianças, Marian e Isfahin, e ainda um outro filho, Ibrahim, que está na Noruega, respira-se... felicidade depois da tormenta: "em Portugal, tudo bem, tudo bem". Voltar? "Nem pensar, muitos problemas". Em Mossul, viu á frente dos olhos o Estado Islâmico bater e matar. Chegou a estar preso durante algumas horas. Não gostava da ideia de não poder fazer a barba. Trabalha hoje na Rodoviária e exibe, com orgulho, o cartão de funcionário.

Orgulhoso está também, igualmente no concelho de Sintra, o sudanês Amir. Veio há mais de três anos e há mais de dois que está na Hykma, um grupo farmacêutico multinacional de origem jordana, que inaugurou uma nova fábrica em Portugal no início de 2012. Aos 39 anos, Amir sabe que não é de guerra o avião que passa por cima das nossas cabeças em Sintra... era bem diferente - para pior - lá no sul do Sudão, perto da fronteira com o Sudão do Sul... no país que o recebe pode fazer planos a curto e médio prazo: tirar a carta de condução e melhorar o português, que já fala de modo bastante razoável. E até já consegue ter tempo livre para o que mais gosta de fazer: levar a família a almoçar, navegar na internet e "falar com os amigos", jogar futebol: "gosto muito do Porto. Quando foi campeão europeu, eu fiquei a gostar muito do Porto". É o seu clube de eleição em Portugal. E Marisa, nomeadamente pela canção: "Quem me dera": "Que mais tem de acontecer no mundo Para inverter o teu coração pra mim? Que quantidade de lágrimas devo deixar cair? Que Flor tem que nascer para ganhar o teu amor". Quem dera a Amir, que nos dera... a tantos quem lhes dera...

Sintra, Batalha, Mechelen, Amsterdão, Ancona, Saint-Omer... Cidades abertas, prontas a receber... Gdansk, berço da democratização da Polónia e do movimento sindical Solidariedade, fica num país onde o governo tem sido daqueles que mais defendem maiores restrições à entrada de migrantes e refugiados. Pavel Adamowicsz foi assassinado em janeiro. É hoje um exemplo de quem soube acolher e integrar... Magdalena não se cansa de elogiar o homem - o marido - morto pelo discurso do ódio, que fica para a história como símbolo da Europa enquanto... cidade aberta: "Ele queria que toda a gente que escolhesse Gdansk como casa se sentisse mesmo em casa". O GPS, no final da reportagem, indica: chegou ao destino.

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