Há uma região nos EUA onde é 50 vezes mais provável desenvolver cancro

A comunidade de Reserve é a zona nos Estados Unidos com a maior probabilidade de desenvolver cancro. Neste local, quase todas as famílias residentes já perderam alguém por causa de toxinas libertadas por uma fábrica química.

O estado do Luisiana, situado na região sul dos Estados Unidos da América, tem o ar mais tóxico da América. A região foi intitulada de 'Cancer Valley', ou 'Vale do cancro', devido aos seus elevados níveis de toxicidade e no centro desse foco tóxico está a comunidade de 'Reserve', onde o risco de aparecimento de cancro é 50 vezes a média americana, conta o The Guardian .

Mary Hampton, residente na localidade, conta como no raio da sua casa já morreram de cancro entes queridos e vizinhos, o seu irmão que vivia na casa à esquerda, na casa à direita, um outro irmão perdeu a mulher para a doença e, em frente, um vizinho faleceu da mesma forma.

Mary não está sozinha e afirma que quase todas as famílias da comunidade perderam alguém para a doença.

A comunidade está localizada a 56 quilómetros de Nova Orleães e mantém a designação de 'Vale do Cancro' há mais de 30 anos. O que causou esta situação foi a convivência com várias fábricas de produtos químicos ao longo do rio Mississípi.

Esta indústria era vital para o emprego local, pelo que grande parte da população não estava informada sobre os possíveis riscos de poluição, como explica Mary: "Sempre nos perguntámos sobre a poluição, mas nunca tivemos maneira de saber ao certo."

No entanto, em dezembro de 2015, a população tomou consciência dos problemas que estavam a enfrentar por causa da indústria química. Esta descoberta veio no seguimento da publicação de um relatório pela agência de controlo ambiental norte-americana, EPA, que confirmou o risco elevado de cancro na região e a comunidade de Reserve como o local com a maior probabilidade.

Contudo, desde esta publicação, em 2015, não foram tomadas medidas (ou quase) para contrariar esta realidade.

Mary sente "que ninguém parecia querer saber. A atitude foi 'as coisas são como são e vocês têm que viver com isso'".

Origem das toxinas

O principal suspeito desta situação é a fábrica "Pontchartrain Works" e a sua produção de cloropreno. Segundo o The Guardian, a fábrica produz mais de 50 substâncias tóxicas, mas o cloropreno é visto como o principal suspeito, sendo usado para a produção de uma grande variedade de produtos como pneus, fatos de mergulho e equipamento médico. Esta fábrica no Luisiana é a única produtora do químico no país.

A fábrica foi construída nos anos 60 pela empresa química, DuPont, que durante 1968 emitia cloropreno para o ar com pouca preocupação sobre os seus efeitos. Na altura, os residentes de Reserve queixavam-se de alguns odores químicos, mas esta desconfiança não passou disso. Apenas em 2015, também o ano que a empresa foi vendida ao grupo japonês Denka, após a publicação de um relatório da EPA, é que se tomou consciência total do perigo para a saúde. Nesse ano, a fábrica foi considerada responsável pela maior probabilidade de propagação de cancro de qualquer empresa no Estados Unidos.

Nos meses que se seguiram, a EPA montou seis estações para monitorizar as emissões de cloropreno. De acordo com a agência, a presença de toxinas acima de 0.2 microgramas por metro cúbico (µg/m3) já é considerada perigosa para os seres humanos, os valores de Reserve eram dezenas de vezes superiores a esse teto.

Em 2017, a Denka comprometeu-se a reduzir as emissões nocivas assinando um acordo com o estado do Luisiana, no entanto, as leituras das toxinas continuaram acima do nível desejado. Em novembro desse ano, uma leitura na escola local, cerca de 300 metros da fábrica, registou que os valores excediam em 775 vezes os valores permitidos pela EPA, níveis que afetam as 400 crianças que frequentam a escola.

Os responsáveis da Denka rejeitam os valores propostos pela EPA, bem como os riscos para a população de Reserve por não ser baseada em "boa ciência".

Um porta-voz assegurou que "a segurança e saúde dos residentes de Reserve, das comunidades circundantes e os funcionários da Denka são a prioridade da empresa". O responsável esclarece que a empresa "funciona de forma segura e dentro de todas as licenças redigidas pelo departamento ambiental do Luisiana, cumprindo todos os padrões de maneira a proteger a saúde pública e ambiental".

Discriminação racial e ambiental

Robert Taylor, outro residente da comunidade de Reserve, fala sobre como a presença do químico cloropreno afetou a sua família. Viu a sua mulher, Zenobia, diagnosticada com cancro há 16 anos, tendo tomado a decisão de sair do 'Vale do Cancro' para que ela pudesse viver melhor com a sua doença. No entanto, de volta a Reserve, a sua filha, Raven, contraiu uma doença intestinal rara, que os médicos atribuem a origem à presença do químico produzido pela fábrica da Denka.

Taylor é então obrigado a viajar entre a sua comunidade, onde está a filha, e o sul da Califórnia, onde reside a sua mulher. Contudo, já perdeu a sua mãe, irmã e sobrinhos para o cancro.

Mostra-se indignado e não entende como é a comunidade pode ser deixada a sofrer para o lucro de empresas estrangeiras, como é o caso da Denka.

"Que tipos de pessoas é que destruiriam uma comunidade inteira por lucro?"

Desde 2015 que é um dos residentes que mais fala sobre o estado ambiental e de saúde que a comunidade enfrenta, interrogando o governo federal sobre a sua inação sobre a produtora Denka. Taylor argumenta que como a EPA descobriu os valores extremos de toxicidade, deveria ter sido ela a tomar medidas contra a empresa japonesa.

A esperança que Taylor e a população de Reserve puseram na EPA revelou-se inútil, quando em fevereiro deste ano, o diretor regional da agência, David Gray, anunciou que seria difícil impor limites legais para a toxina, devido ao fato "do único produtor de cloropreno dos Estados Unidos se encontrar aqui", anúncio que foi recebido com bastante frustração e incredibilidade.

Como a comunidade de Reserve é predominantemente afro-americana, Taylor considera que o fator racial está a contribuir para que a sua cidade seja deixada a respirar os agentes cancerígenos.

Para Taylor, a sua cidade está a ser "ignorada" devido à sua demografia racial e económica, um fenómeno atualmente chamado de "racismo ambiental".

Nas suas palavras, "decidiram que não se importam que sejamos dizimados, especialmente por se tratar de uma comunidade negra e pobre".

Fora de Reserve, o sentimento de discriminação também é proferido, desta vez por Jennifer Sass, uma cientista sénior da Natural Resources Defense Council, uma organização ambiental sem fins lucrativos, que luta pelo direito das populações a ar puro e água potável.

Presidente Trump agrava a situação

A notícia de fevereiro foi ligada com a decisão do Presidente Donald Trump para reverter dezenas de leis de proteção ambiental, diminuindo assim a possibilidade de uma intervenção Federal no caso de Reserve.

Segundo Wilma Subra, cientista ambiental do Luisiana, as reversões nos regulamentos ambientais foram "sem precedentes".

Afirma também que durante uma administração democrática os apoios são maiores, enquanto numa republicana são menores, mas o que se observou com Trump foi bastante pior do que o esperado. Um dos cortes mais significativos foi o de 31% no financiamento da EPA, que poderá impedir qualquer ajuda à comunidade de Reserve.

Notícias da situação de Reserve vão além do estado do Mississípi. O Dr. Ron Melnick, antigo cientista governamental que foi um dos primeiros a ligar o cloropreno ao cancro, mostrou-se desolado ao saber das quantidades de toxinas a que os residentes estão expostos.

"É vergonhoso, eu nem viveria numa área onde a EPA dissesse que as emissões eram aceitáveis. Definitivamente não viveria ou teria filhos, num lugar onde as emissões são maiores que as que a EPA impõe."

Os habitantes de Reserve consideram que única maneira maneira de respirarem ar puro novamente é de continuarem a luta contra a Denka, a DuPont e estado e o governo federal.

Taylor, que viveu a sua vida como um músico viajante, contempla agora a possibilidade de ter de fazer esta luta o resto da sua vida.

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