"Lembro-me de as pessoas preferirem atirar-se ao mar do que voltar à Líbia"

Para Miguel Duarte, a situação que os migrantes a bordo do Open Arms estão a viver é "frustrante" e "muito difícil". O ativista aproveitou para deixar um apelo a todos os estados europeus.

Miguel Duarte olha para a situação do navio Open Arms, com 107 migrantes a bordo ao largo da costa italiana, com grande consternação. Entrevistado pela TSF, o voluntário português que foi processado pelo Governo italiano admitiu "uma grande limitação" destas embarcações que levam, por vezes, centenas de pessoas.

"O navio não está feito para ter tantas pessoas a bordo durante tanto tempo. É natural que não estejam preparados para alimentar todas estas pessoas durante muitos dias e que, eventualmente, os fármacos necessários para tratar os problemas com que estas pessoas vêm escasseiem e seja preciso um cuidado muito mais intensivo", aponta o ativista, de 26 anos.

Para Miguel Duarte, a situação vivida pelos tripulantes do navio é mesmo crítica: "Estas pessoas correm o risco de que nem sequer a tripulação as consiga ajudar."

O voluntário que já contabiliza quatro missões a serviço da organização não-governamental (ONG) Jugend Rettet nota mesmo que esta primeira resposta não é suficiente. "Estes navios de resgate civil acabam por ser apenas uma resposta de emergência. Não é suposto terem pessoas a bordo durante duas semanas. Não é suposto cuidarem das pessoas a médio e longo prazo. É suposto oferecerem uma resposta muito rápida ao problema", analisa.

Assim, a resposta destas ONG deveria focar-se apenas em "tirar as pessoas do mar e impedi-las de se afogarem", mas acaba por lhes calhar uma missão ainda mais vasta, como neste caso do navio Open Arms impedido de aportar pelo Governo em que Salvini exerce poder como ministro do Interior. "Cabe às autoridades arranjar uma solução a longo prazo: levá-las a um porto seguro e tratar delas", refere Miguel Duarte.

"Temo que o navio não tenha capacidade para ajudar estas pessoas durante muito mais tempo", diz o português investigado pela Justiça italiana, que compreende bem o desespero dos migrantes, depois de 17 dias de impasse. "É absolutamente natural o que estas pessoas estão a sentir neste momento. Se conseguirmos, por um momento, pormo-nos na pele destas pessoas, que vêm de países muito longínquos, que estão em guerra, ou em situações de pobreza extrema..."

Para o ativista português, esta recusa de Itália é incompreensível, já que estas pessoas se colocam "neste risco enorme, que é pagar a um traficante para se porem num destes barcos, e, no fim, quando estão a dois passos de chegar à Europa, a um sítio de segurança, não lhes é reconhecido o sofrimento e o seu grau de necessidade".

"Lembro-me de, em vários resgates que fizemos, as pessoas preferirem atirar-se ao mar do que voltar à Líbia, mesmo não sabendo nadar", afirma Miguel Duarte, que não tem dúvidas de que isto se deve a um passado em que viveram "situações dramáticas", quer como residentes, quer de passagem por este país.

Com o avançar dos dias, Miguel Duarte admite temer o pior: "Se isto se prolongar muito mais, é natural que as pessoas tomem atitudes irracionais, como tentarem o suicídio. Podemos esperar tudo de uma situação tão difícil e tão frustrante como esta."

Apesar de ter razões para duvidar da solidariedade de alguns governos europeus, o ativista não se escusa a deixar um apelo: "Espero sinceramente que os estados europeus - especialmente o Estado italiano, do qual honestamente não espero muito - tenham pelo menos a sensibilidade humanista de não deixar as pessoas morrer desta forma."

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