Onde se esconde um suspeito de crimes de guerra? Nos Estados Unidos, ao volante de um Uber

Esta semana começa a ser julgado por tortura e tentativa de assassinato. Yusuf Abdi Ali, um antigo comandante somali, vive na Virgínia e conseguiu emprego como motorista em plataformas de transporte.

O caso está a ser denunciado pela CNN que encontrou o antigo militar somali quando requisitou um veiculo da Uber.

No final da década de 80 do século passado, durante a guerra civil na Somália, Yusuf Abdi Ali terá participado em execuções em massa e atos de tortura. Suspeito de crimes de guerra, nunca foi julgado porque não existia qualquer tribunal com jurisdição para o fazer. O Tribunal Penal Internacional só foi criado em 1994, depois do genocídio no Ruanda, e a Somália nunca foi capaz de criar um sistema de justiça competente para julgar esse tipo de crimes.

O antigo "Coronel Tukeh" fugiu para o Canadá em 1991, mas as autoridades do país decidiram deportá-lo quando um documentário da cadeia de televisão CBC denunciou os crimes que teria praticado. No programa foram ouvidas testemunhas, residentes no norte da Somália, que davam conta de pessoas queimadas vivas por ordem de Ali, ou presas a camiões e arrastadas até morrerem.

Não se sabe ao certo quando é que o antigo militar entrou nos Estados Unidos, mas a justiça encontrou-o. Farhan Mohamoud Tani Warfaa apresentou queixa num tribunal da Virgínia, acusando Ali de o ter torturado, de ter ordenado a dois soldados que o executassem a tiro e o enterrassem. Os guardas reconheceram ter aceitado um suborno da família para libertarem Warfaa. O caso começa esta semana a ser julgado.

Mesmo com todas as suspeitas e acusações, Yusuf Abdi Ali conseguiu ultrapassar as investigações que duas plataformas de transporte em veículos descaracterizados fazem a quem se candidata ao lugar de motorista. A Uber, que opera em Portugal, e a Lyft, disponível apenas nos Estados Unidos, deram emprego a Ali até a CNN ter denunciado o passado do motorista.

Antes do caso chegar a público, nesta terça-feira à noite, jornalistas da CNN contrataram os serviços do antigo militar somali e ficaram a saber que ele estava há 18 meses na Uber e que passou as verificações sem qualquer problema. "Se apresentar a candidatura esta noite, talvez daqui a dois dias tenha a licença," explicou ele.

O caso de Ali levanta novas dúvidas sobre a eficácia da verificação de antecedentes. A cadeia de televisão norte-americana já antes tinha denunciado que algumas pessoas com passados ligados ao crime podiam ter luz verde para trabalharem como motoristas das duas empresas. A Uber e a Lyft aprovaram milhares de candidaturas que deviam ter sido desqualificadas, entre elas um assassino em liberdade condicional e um criminoso condenado, que voltou à prisão depois de ter agredido sexualmente um cliente.

Yusuf Abdi Ali nunca foi condenado, mas uma simples busca no google permite encontrar várias noticias sobre os alegados crimes que praticou. Em declarações à CNN, a Uber explicou que reforçou a política de verificação de antecedentes no ano passado e que agora inclui verificações mais frequentes, desqualificando condutores condenados e motoristas acusados ​​de crimes graves. Todos os condutores "devem passar por uma verificação de antecedentes criminais e histórico de condução. A empresa verifica os registos locais, estaduais e nacionais, e avalia a elegibilidade de acordo com os critérios estabelecidos pelas leis locais", esclareceu a plataforma.

A verificação é feita por uma empresa externa que garante ter em conta apenas os registos criminais públicos, e não resultados de pesquisas no Google. Esta empresa explicou ainda que a maioria dos empregadores não solicita verificações que incluam processos civis pendentes, como é o caso de Ali.

Apesar disso, tanto a Uber como a Lyft já anunciaram que suspenderam Ali.

Antes de divulgar a história, a CNN contactou o motorista à porta do tribunal dando-lhe a oportunidade de esclarecer todo o caso mas ele não quis prestar qualquer declaração.

Esta não foi a primeira vez que a CNN encontrou o somali suspeito de crimes de guerra. Em 2016, a mesma cadeia de televisão deu conta que Ali estava a trabalhar como segurança no Aeroporto Internacional de Dulles, perto de Washington. Ele foi despedido logo após a transmissão da história.

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