Tensão entre EUA e Irão. Porque é que o Japão pode ajudar?

Aliado dos EUA, o Japão pode ajudar a levantar as sanções norte-americanas sobre o Irão. Mas o que torna Shinzo Abe o líder ideal não é apenas a sua posição privilegiada no conceito de Donald Trump, é também a sua história familiar.

O primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, inicia esta quarta-feira uma visita oficial ao Irão, país sobre o qual têm recaído sanções económicas, com aliados dos EUA a serem pressionados para não comprar petróleo iraniano.

Shinzo Abe pode mesmo ser o mediador ideal do conflito, admite Leonídio Paulo Ferreira, subdiretor do Diário de Notícias e especialista em Estudos Americanos. A chegada de Abe acontece num momento em que o braço de ferro no Golfo Pérsico se intensifica, com tropas norte-americanas instaladas na zona do Médio Oriente. A retirada unilateral dos Estados Unidos do acordo nuclear também foi um dos pontos cruciais para a escalada das tensões.

"O Japão pode ser o intermediário ideal, porque, sendo um aliado sólido dos Estados Unidos, é também um país que tem conseguido, desde há várias décadas, manter uma relação muito estável com o Irão, não a fazendo depender da mudança de regime, mesmo com a República Islâmica em 1979", analisa o jornalista, em entrevista à TSF.

As razões dizem respeito à História do país do sol nascente, mas também ao histórico das raízes das sua árvore genealógica. "Há um pormenor sobre Abe: ele é filho de um antigo ministro dos Negócios Estrangeiros japonês que, durante os anos 80, tentou mediar entre o Irão e o Iraque, na época de guerra. Fez, inclusivamente, uma visita a Teerão, e o jovem Abe acompanhou o pai."

"Muitas vezes, no que toca à política internacional, os detalhes da História dos países e dos líderes podem abrir portas que pareciam fechadas", explica Leonídio Paulo Ferreira.

O Japão pode, assim, ter um papel fulcral na diplomacia entre os dois Estados, mas não é apenas das nações que os conflitos se fazem. Há, também, uma parte das relações internacionais que se explica através do entendimento entre os líderes: "O próprio primeiro-ministro Abe é também o intermediário ideal. É um homem que tem conseguido manter, enquanto primeiro-ministro do Japão, uma relação muito amigável com Donald Trump."

"Os japoneses costumam dizer que, felizmente, o primeiro-ministro tem química com o Presidente norte-americano, o que não acontece com todos os líderes, mesmo os que são dos países aliados", admite, ao mesmo tempo que acrescenta que o país asiático também "sempre manteve uma relação muito cordial com os aiatola".

Sobre as possibilidades da aproximação entre Tóquio e Teerão, Leonídio Paulo Ferreira diz que não há nada a perder neste encontro."As hipóteses [de resolução do conflito Irão-EUA] são muito, muito escassas, mas Abe não arrisca nada. Se houver uma ausência de resultados, ele surge, ainda assim, como uma figura sobre a qual recaiu alguma esperança, portanto, uma figura com algum protagonismo internacional, e isso fica sempre bem do ponto de vista da política interna."

Esta visita poderá ser uma forma de preparar terreno para um entendimento dos EUA com o Irão, ou, uma hipótese menos ambiciosa, apenas de Tóquio com Teerão: "Abe vai organizar a próxima cimeira dos G20 em Osaca, e, portanto, tem aqui um trunfo - um eventual convite ao Presidente do Irão, Hassan Rohani, e isso poderia trazer uma espécie mensagem privada aos Estados Unidos, de forma a desanuviar a tensão."

"Há também a hipótese de que haja quase uma proposta iraniana para que, através de um terceiro país, que não tem de ser o Japão, os Estados Unidos voltem a dialogar", mas essa não é, segundo o subdiretor do Diário de Notícias, a possibilidade mais viável, visto que o Irão não levará a sério uma tentativa dos EUA de "conversar sem condições", a menos que haja "levantamento das sanções, que tanto lhe têm pesado".

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