saída do reino unido

Três perguntas e respostas essenciais para entender os próximos passos do Brexit

O Reino Unido está em ebulição, mas a saída do país da União Europeia continua em banho-maria e não há previsão de quando poderá levantar fervura. Apesar do amargo de boca do primeiro-ministro britânico, ao falhar pela segunda vez a tentativa de marcar eleições antecipadas, Boris Johnson conseguiu suspender o Parlamento durante cinco semanas. Sem uma receita que permita sair da União Europeia, respeitando os acordos de paz da Irlanda do Norte, oposição e Governo tentam salvar o prato principal sem deixar mossa no serviço de louça.

Qual o ponto de situação atual? Quais os cenários possíveis? Será possível um acordo para o Brexit até 31 de outubro? O editor da revista London Brexit Monthly Digest edoutor em Ciência Política pela Universidade de Bristol, Bernardo Ivo Cruz, explica à TSF o que pode estar a ser cozinhado para os próximos dias.

Qual o ponto de situação?

"Neste momento, o Parlamento está suspenso até meados de outubro, quando começará uma nova sessão legislativa com o discurso da rainha Isabel II às duas câmaras do Parlamento; discurso esse que é escrito pelo Governo e que apresenta as prioridades para o ano legislativo que se inicia", começa por explicar Bernardo Ivo Cruz.

Até lá, longe do escrutínio Parlamentar, Boris Johnson prepara-se para cumprir duas funções essenciais: "preparar a política interna, já com vista às eleições antecipadas que espera conseguir vir a marcar" e "negociar os termos de um acordo com a União Europeia que seja possível ser aprovado no Conselho Europeu de outubro e que seja aceitável para o Parlamento".

Por outro lado, a oposição está de pés e mãos atados dentro do Parlamento, uma vez que os trabalhos estão suspensos, mas aproveitará as reuniões dos partidos políticos - que, de resto, acontecem todos os anos por esta altura na política britânica - para preparar a campanha eleitoral "para umas eleições que ainda não sabemos quando é que terão lugar, mas que devem acontecer antes do fim do ano", na visão do editor da London Brexit Monthly Digest.

Quais os cenários possíveis?

O Parlamento britânico volta a reunir a 14 de outubro e, até lá, podem desenhar-se, na visão do especialista em ciência política, quatro cenários.

Num primeiro cenário, o primeiro-ministro britânico pode "cumprir aquilo que o Parlamento impôs esta segunda-feira, ou seja, pedir e obter do Conselho Europeu o adiamento do dia do Brexit para 31 de janeiro". Caso isto se verifique, "a oposição disse que estaria disponível para apoiar a realização de eleições antecipadas."

Noutro plano, "o Governo pode conseguir negociar o acordo com a União Europeia que seja aceitável para todas as partes e o Reino Unido sai no dia 31 de outubro como previsto", uma vez que aquilo que o Parlamento quer evitar é um Brexit sem acordo.

Uma outra hipótese é o Parlamento chumbar "a proposta de legislação ou de trabalho" que a rainha vai ler quando forem retomadas no Parlamento. Por fim, o quarto cenário passa por "pura e simplesmente, o primeiro-ministro demitir-se", vinca o especialista.

Será possível um acordo para o Brexit até 31 de outubro?

Bernardo Ivo Cruz é perentório: "é muito difícil" um Brexit com acordo até 31 de outubro, "porque aquilo que o Reino Unido quer não é compatível com aquilo que a União Europeia está disposta a dar". A pedra no sapato de Boris Johnson é a Irlanda do Norte, uma vez que a saída do Reino Unido do mercado comum é incompatível com a manutenção dos acordos de paz da Irlanda do Norte.

"Para se manterem os acordos de sexta-feira santa que garantiram a paz ao longo destes últimos vinte anos na Irlanda do Norte é preciso manter a livre circulação. Sair do mercado comum significa renegar aspetos fundamentais dos acordos de sexta-feira santa", explica.

Até hoje, e depois de dois anos e meio de negociações, "ninguém conseguiu encontrar uma solução que permita, por um lado, manter os acordos de sexta-feira santa e, por outro lado, sair do mercado interno". É por esse motivo que Bernardo Ivo Cruz duvida que Boris Johnson seja capaz de, em quinze dias, encontrar uma solução que fugiu durante dois anos e meio ao Governo britânico e à União Europeia", embora, sublinha, "o primeiro-ministro britânico seja um homem imaginativo".

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