crise dos refugiados

Vamos sentar a Europa no banco dos réus? Tem 15 segundos para lhe decidir o futuro

Sabia que os juristas que analisam pedidos de requerentes de asilo têm apenas 15 segundos para analisar uma história, aferir a sua credibilidade ou incongruência, e com isto decidir muitos futuros?

Hoje o dia começa com um café. O vento na esplanada é um estalido de desconforto, e, à passagem, alguém derruba o líquido negro, acabado de sair da máquina, sobre as roupas aprumadas de véspera. Hoje o dia começa mal, a irritabilidade progride enquanto anui, entre dentes, que "não faz mal", sem olhar duas vezes a pessoa que lhe invade o silêncio.

Hoje o dia começa com um café, e mais outro, e outro e outro seguido deste, para retomar a normalidade e o conforto quente, depois de andar pelos perigos da selva e pelos socalcos da neve por 15 dias a fio. Hoje o dia começa mal, como muitos outros anteriormente: 20 euros no bolso é o valor máximo das certezas. A solidariedade alheia vale um táxi e um bilhete de ida para Patras, na Grécia, mais um lugar onde não ter lugar.

Hoje o dia começa com um café, e daqui a dois dias uma paragem de autocarro será a única cama onde assentar a cabeça, a comida uma inexistência pouco aflitiva diante do medo de ser violentado pela polícia, ou de, entre cafés, ter de explicar vezes sem conta uma história que nem o mesmo compreende, uma história que não compreenderão, entre o nó de duas línguas que não se desatam e o nó na garganta de quem sente que lhe é feito um favor a contragosto. Como perdoar o café entornado sobre a roupa limpa.

O café servido não aquece de não ter casa e de não ver senão mar sem chegadas, ou de encontrar sempre um sinal STOP a meio da estrada. Nem de enfrentar dias na fronteira, na linha de horizonte que o mar Egeu traça: o limbo da desumanidade. Mancha na roupa limpa, "Egeu" é um sussurro documental que vocifera. "Na Grécia, vemos o mundo."

15 segundos para decidir o futuro de uma pessoa

Sabia que são dados 15 segundos para analisar uma história, dizer-lhe a credibilidade ou a incongruência, e com isto decidir o futuro de uma pessoa, a partir de um pedido de asilo? Mesmo que essa pessoa não domine os meandros da língua em que tem de se expressar, mesmo que, com todas as palavras, não consiga contar o indizível de ter uma filha de quatro anos e uma mulher grávida num campo de refugiados com 1.800 pessoas, em Atenas, para as quais há apenas 10 quartos de banho, sem chuveiros ou água quente, e a falta de comida, de cuidado, da família que deixaram para trás.

Mesmo que uma posição política ou uma religião específica torne a vida arriscada demais. Mesmo que, depois, um filho nasça e venha a morrer em terras estranhas, num lugar sobrelotado e, paralelamente, com tão pouco de humano. Mesmo que a única criança que resta não possa ir à escola, e veja os pais serem presos, mês após mês, sem compreender as partidas e as escassas promessas para uma vida tão tenra. Mesmo quando a esperança também magoa, mas tem de se seguir caminho a pensar em dança, música, futebol, e a universalidade feliz das trivialidades.

Como julgar a Europa que documenta "vontade política" para aceitar requerentes de asilo e celebra acordos entre Estados para limitar o acesso às fronteiras? Em 15 segundos, o que decidir sobre a história que a Europa conta? Onde a Itália aperta a mão à Líbia, para que para terreno líbio possam ser reenviadas pessoas que fogem do flagelo da guerra? Onde Alemanha e Turquia unem esforços para selar entradas? Onde se impõe um total de 100 quilómetros de muros, cerca de metade da extensão da barreira que Trump quer criar nos Estados Unidos? Onde, ao fim de três anos, ficam efetivamente colocados 30.000 refugiados? Onde processos de aceitação são protelados ou negados...precisamente numa fração de 15 segundos?

Como avaliar a incongruência da história que a União Europeia conta, diante da maior crise de refugiados desde a II Guerra Mundial, como alertaram as Nações Unidas?

"Egeu", ou como viver à espera

"Egeu" é "sobre a Grécia, sobre a Europa", e é, para Pedro Amaro Santos, produtor do documentário e voluntário da Plataforma de Apoio aos Refugiados, sobre "viver à espera", num "postal grego, para mim, o lugar mais paradisíaco do mundo, a contrastar com o dia-a-dia das pessoas".

Em "Egeu" ganha vida a narrativa lenta das histórias, o pedaço de mar infinito sobre a noite de um futuro suspenso. Foi gravado durante os seis meses que Pedro Amaro Santos dedicou a ganhar consciência do mundo, num asilo, a trabalhar no apoio a 80 pessoas deslocadas.

E qual é a tonalidade do abismo, para quem o viu tão de perto? Para o produtor, é o espetro inação política ou a insensibilidade dos que não querem ser o perto para quem vem de tão longe: "Não é uma fatalidade, não é ignorância, não é inconsciência. Se vemos um barco a virar, a cor da pele não relativiza."

Se no mar a diretiva é clara, para Pedro Amaro Santos, tudo se torna ainda mais visível chegados a terra.

"Moria é um inferno. Um paquistanês dizia-me que, tendo já passado por tanto, que nunca tinha vivido nada assim. Os deputados conhecem a situação de Moria, está mais do que documentada. É uma mensagem política aquela que a Europa quer transmitir. 'Não venham para cá'", explica.

"Egeu" foi produzido pela Waves of Youth, em parceria com a Meeru, e é apresentado esta quarta-feira, às 22h30 na Universidade Católica do Porto e, na quinta-feira, no Canal 180. Mas já passou por Sófia, Salónica e Lisboa. "Egeu", que é sobre o mundo.

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