"Interpretação extremista" da lei islâmica pelos taliban pode levar a "retrocesso dos direitos humanos"

A Amnistia Internacional manifesta preocupação em relação à reconquista de Cabul pelos taliban. Pedro Neto admite que "o que está a acontecer agora é um escalar monumental de tudo o que eram os conflitos e as tensões" e não acredita nas declarações pacíficas do grupo guerrilheiro.

A secção portuguesa da Amnistia Internacional receia um retrocesso nos direitos humanos após a chegada dos taliban a Cabul. Pedro Neto, representante português da Amnistia, diz não acreditar na mensagem de moderação e de "transição pacífica" que às primeiras horas foi proferida.

"O que está a acontecer agora é um escalar monumental de tudo o que eram os conflitos e as tensões. Claro que os taliban estão a tentar transmitir de moderação, mas depois, na prática, aquilo que se tem verificado nos territórios que já controlam é que continuam a fazer uma interpretação extremista da Sharia e da lei islâmica."

A chegada dos taliban a Cabul precipitou a saída do país do Presidente Ashraf Ghani, mas o grupo guerrilheiro já tinha tomado o controlo de 28 das 34 capitais provinciais em dez dias. Os taliban pretendem assumir o poder no Afeganistão "nos próximos dias", 20 anos após terem sido derrubados por uma coligação liderada pelos Estados Unidos, pela sua recusa em entregar o líder da Al-Qaida, Osama bin Laden, após os atentados de 11 de setembro de 2001.

"Tememos que os direitos humanos sejam postos ainda mais em causa. Tememos também que haja um retrocesso grande." Em declarações à TSF, Pedro Neto, responsável da Aminstia, fala de uma situação que "pode afetar principalmente mulheres e crianças".

O representante português da Amnistia pede, por isso, à comunidade internacional que não poupe esforços e que abra as fronteiras para os refugiados criados pelo conflito e pela ocupação. De acordo com Pedro Neto, "há alguma cumplicidade de países europeus, até de países que fazem fronteira com o Afeganistão que estavam a repatriar e a devolver refugiados e requerentes de asilo que vinham do Afeganistão por esta altura". Pede, nesse sentido, "que haja concertação internacional, nomeadamente entre estes países, para acolherem pessoas que fogem do Afeganistão, e que esse trabalho não seja impedimento da comunidade internacional (Europa, países fronteiriços, Estados Unidos, mas também Rússia e China) de intervirem e de trabalharem pela paz e pelos direitos humanos no Afeganistão".

O Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas reúne-se de emergência ainda nesta segunda-feira, às 15h00 (hora de Lisboa) para debater a situação no Afeganistão.

Algumas horas após a reconquista de poder pelos taliban, António Guterres pediu aos guerrilheiros máxima contenção, e mostrou-se muito preocupado, em especial com a situação de mulheres e meninas. O secretário-geral da ONU assinou um comunicado no qual destaca a necessidade de proteger os direitos de mulheres e jovens raparigas, e salientou que as Nações Unidas continuam determinadas a alcançar uma solução pacífica.

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