Invasão turca na Síria abre crise na NATO mas exclusão é pouco provável

Especialistas recordam que a aliança já atravessou outros momentos de tensão sem se desintegrar.

A invasão turca do norte da Síria e as subsequentes críticas dirigidas a Ancara por parceiros da NATO ameaçam provocar uma crise na maior aliança militar do mundo, mas é improvável que resultem numa expulsão da Turquia, defendem analistas.

Citados pela agência noticiosa Associated Press (AP), os especialistas recordam que a aliança, de 29 Estados-membros, já atravessou outros momentos de tensão sem se desintegrar, como a crise do Canal do Suez em 1956, a decisão da França de abandonar a estrutura de comando militar em 1967 ou a fratura entre os aliados durante a invasão do Iraque em 2003.

No entanto, nenhum país abandonou a organização ou foi forçado a sair. Para mais, a Turquia é de enorme importância estratégica para a NATO, e os dirigentes de Ancara estão disso conscientes.

O grande país muçulmano é o guardião do estreito do Bósforo, uma ligação vital entre a Europa, o Médio Oriente e a Ásia central, e constitui a única via de entrada e saída para o mar Negro, onde está estacionada uma frota naval da Rússia.

A Turquia é o segundo maior exército da NATO, após os Estados Unidos, e a permanência do país no interior da organização tem contribuído para apaziguar as tensões históricas com a vizinha e "aliada" Grécia. Os aliados da NATO também consideram a base de Incirlik, no sudeste da Turquia, decisiva como ponto de partida para alcançar o Médio Oriente.

"Para ser honesta, penso que é melhor ter a Turquia dentro da NATO do que fora da NATO. Penso que é importante mantê-la na nossa família e nas discussões (...), mas não nos podemos comportar como se nada tivesse acontecido", considerou na terça-feira a primeira-ministra norueguesa, Erna Solberg.

Desde há algum tempo que a Turquia tem vindo a testar a paciência dos seus parceiros ocidentais. A ofensiva militar na Síria, a terceira desde 2016, iniciada a 09 de outubro, coincide com as tensões sobre a compra pela Turquia do sofisticado sistema de mísseis russos S400, que, segundo os comandos aliados, ameaça a segurança da organização e a eficácia dos novos aviões de combate norte-americanos F-35.

O Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, ordenou ainda a detenção ou expulsão de milhares de oficiais das Forças Armadas na sequência do fracassado golpe de julho de 2016, e alguns procuraram, e foi-lhes concedido, asilo em países da NATO.

"Até ao momento, trata-se do maior desafio político-militar enfrentado pela Aliança", considerou hoje, citado pela AP, Ian O. Lesser, vice-presidente do instituto norte-americano German Marshall Fund. "Obviamente, trata-se de uma questão existencial. Não pode ser comparada com o processo de dissuadir a Rússia em locais como os Bálticos ou em redor do mar Negro. Mas em termos de crise política no interior da Aliança, e potencialmente uma crise de segurança, está muito, muito elevada na agenda", afirmou.

Até ao momento, o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, tem pedido contenção à Turquia e alertado para que evite um novo desastre humanitário, em particular após um milhão de sírios já ter entrado na Europa nos últimos anos.

Stoltenberg exortou Ancara a focalizar-se no inimigo comum da NATO, o grupo 'jihadista' Estado Islâmico (EI), quando existem informações sobre a fuga de prisões de alguns dos seus combatentes na sequência da ofensiva turca.

No entanto, pelo menos em público, o chefe dos aliados não apelou a um cessar-fogo. Na prática, Stoltenberg tem evitado qualquer crítica pública à Turquia, ou a qualquer outro Estado-membro, e recordou que a Aliança não desempenha qualquer função na Síria, à exceção da sua contribuição na vigilância, a partir do exterior, do tráfego aéreo sobre o país.

Uma opção possível para os parceiros da Turquia consiste no pedido de consultas através do Artigo 4.º do Tratado fundador da NATO, possível quando "na opinião de qualquer um deles, a integridade territorial, a independência política ou a segurança de qualquer das Partes está ameaçada".

A Turquia acionou esta opção em 2015, após diversos ataques bombistas no seu território, e em 2012, quando um seu avião de caça foi abatido sobre a Síria. A Polónia fez o mesmo em 2014, quando as tensões com a Ucrânia atingiram o auge.

Até agora, nenhum país solicitou oficialmente estas consultas, mas alguns aliados europeus apelaram à convocação de uma reunião a nível ministerial da coligação internacional que combate o EI. Os ministros da Defesa da NATO encontram-se em Bruxelas na próxima semana e devem discutir a invasão turca.

Neste encontro de 24 e 25 de outubro, alguns países também deverão pedir uma clarificação aos Estados Unidos sobre quais são exatamente os seus planos para a Síria, após a Turquia ter considerado a retirada das tropas norte-americanas estacionadas do norte sírio como uma "luz verde" para lançar a sua ofensiva.

No entanto, de acordo com Ian O. Lesser, as hipóteses de uma erradicação da Turquia são muito ténues, ao recordar que "não existe nenhum mecanismo para remover um membro". Mas admite que possa ocorrer uma rutura: "Um Estado-membro pode tornar-se disfuncional, seja pela ausência de consenso político em torno das preocupações dos membros", seja pelo aumento da frustração da Turquia, que pode atingir um ponto "no qual poderá considerar opções como a retirada da estrutura de comando militar".

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