"Isto é uma guerra." André Martins, o português na campanha democrata

André Martins trocou Lisboa por Moçambique e Moçambique pela capital americana e é uma das milhares de pessoas a trabalhar na gigante máquina eleitoral do partido democrata.

Com o calendário eleitoral a chegar à reta final, os dias de André Martins, no denominado estado do sol brilhante, são longos. Entre 12 a 14 horas de trabalho diário. "Andamos a mil à hora." É desde a Florida, um dos estados mais importantes nas eleições dos Estados Unidos, que André Martins nos fala sobre o seu trabalho enquanto supervisor criativo numa firma de consultoria política focada em eleger candidatos democratas através de campanhas, sobretudo através de anúncios para os media.

"Estamos a focar-nos nos comités políticos, com algumas campanhas de políticas externas, para outros candidatos noutros estados. Estamos a fazer muitos ataques negativos a candidatos republicanos. Estamos basicamente a apontar as armas a todos os sítios. Isto é uma guerra, infelizmente", conta à TSF.

A estratégia da campanha eleitoral altera-se diariamente em resposta às técnicas do partido opositor, como explica André Martins: "Os republicanos são extremamente eficazes. Eles sabem exatamente como puxar pelas emoções dos seus votantes. Uma das técnicas que eles usam é o medo, como eles dizem, o socialismo. E um cubano americano quando ouve socialismo assusta-se, tal como um venezuelano ou um boliviano ou um argentino. Portanto, quando recebemos uma notícia que é negativa temos que contra argumentar imediatamente. Estamos constantemente a mexer na agulha para o nosso lado".

Depois de trabalhar para as eleições intermédias, em 2018, André Martins criou conteúdos criativos para a maior instituição de museus do mundo, a Smithsonian, a rádio NPR e a National Geographic, e foi em 2019 o responsável pelo anúncio da candidatura do vice-Presidente Joe Biden para a comunidade latino americana. Em 2018 conseguiu, através de várias campanhas para a emenda número 4, dar a oportunidade a mais de um milhão de ex-reclusos o direito a votar na Florida.

Agora, frente a uma das mais importantes eleições da história americana, André Martins abre-nos um pouco a porta que nos leva ao interior da gigante máquina eleitoral democrata. "A política americana é um monstro e envolve muita gente. Desde pesquisadores que analisam as opiniões de cada eleitor a cientistas de dados que nos mostram a visualização dessas mesmas opiniões e que efeito terá demograficamente." É, como conta, um trabalho milimétrico: "chegamos ao ponto de enviar um anúncio negativo para a morada específica do candidato da oposição só para que ele saiba que fizemos um anúncio a contra-atacar o anúncio que ele tinha feito."

Flórida, um dos estados mais decisivos

André Martins está num dos estados mais decisivos das eleições americanas. Há décadas que nenhum candidato vence as presidenciais sem ganhar na Florida. Foi assim com George W. Bush,

Barack Obama e Donald Trump. "Em 2000 o George W. Bush ganhou com uma margem de 537 votos.", recorda.

Mas, porque é, afinal, a Florida tão crucial? "A Florida é extremamente importante para qualquer candidato presidencial. É extremamente complexa, porque é demograficamente diversificada. Ou seja, 27% da população ou quase 6 milhões de pessoas são de origem hispânica, latinos, e depois temos uma população muito envelhecida - 20 %. A comunidade latina está bastante dividida. Mas em eleições presidenciais as minorias exercem mais o seu voto. E os dados que estamos a receber indicam que estamos a caminho de níveis históricos de votos", explica André Martins.

É com o foco nos eleitores indecisos que o português tenta acertar as agulhas das eleições. E a poucos dias das eleições americanas, André Martins reconhece que as percentagens "estão mais próximas do que parece". O português recorda que a última vez que um presidente não realizou o segundo mandato ocorreu em 1993, com George Bush. "Mas, acredito que desta vez a História possa ser um pouco diferente", afirma, lembrando a importância de ganhar "pelo menos" estados como a Florida, Carolina do Norte e Pensilvânia. "A partir daí acho que o Biden terá um caminho mais facilitado para a eleição como presidente dos Estados Unidos da América.

Numa das mais importantes eleições da História dos Estados Unidos, André Martins é um português entre os muitos que compõem a campanha democrata a tentar escrever um novo capítulo. A 3 de novembro saber-se-á como continua a História.

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