João Paulo II: superstar minado pela pedofilia na Igreja

Poliglota iminente, invulgar comunicador em diferentes palcos, tradicional e moderno, conservador numa Igreja única, sensível à misericórdia de Deus sobre a miséria humana, um papa que se entregou, publicamente, ao sofrimento que a doença de Parkinson lhe imporia.

Correm mal, na Polónia, os dias do centenário de Karol Wojtyla, ensombrados por memórias menos claras do "vírus" que atacou o seu pontificado, um dos mais longos da igreja Católica. Não prevalecerão estas inevitáveis críticas, em que sobressai o caso do padre mexicano, fundador dos Legionários de Cristo, acusado de abusos sexuais sobre os próprios filhos.

Não fora a atual pandemia e meio mundo católico se ergueria em louvor do papa mariano, um místico atlético, salvador de um país, traumatizado pela perda de fronteiras e consumido por uma pesada cortina de ferro. (Quando nos anos 80 visitei Moscovo, ouvi o vice-presidente da então URSS dizer-me que o problema da União Soviética era o papa ser polaco...).

A abertura da praça de S. Pedro, neste dia festivo, levantará em alto a figura que, em outubro de 1978, pretendia sacudir da histórica varanda os medos que pudessem afligir a casa de Deus. "Não tenham medo!", o mote de um pontificado que iria até ao fim do mundo.

Um papa de relógio no pulso

João Paulo II faria viagens por todo o mundo, por três vezes a distância da Terra à Lua. Multiplicou as Nunciaturas por mais de 65 países. Incitou a abrir uma Europa do "Atlântico aos Urais", condenando um capitalismo individualista. Deixou 14 Encíclicas sobre questões morais e a dignidade da pessoa humana. Mas não ultrapassaria códigos históricos, como o celibato e a ordenação de mulheres e o uso da pílula e do preservativo. Impediu mesmo o debate, como calou mais de uma centena de teólogos, incluindo os defensores da Teologia da Libertação. Retirou poder às Conferências Episcopais.

No afã de uma nova Evangelização, enclausurou o Concílio Ecuménico Vaticano II, num Catecismo Católico, envelhecido, preso a um Direito Canónico medieval. Karol Wojtyla, um "rebelde piedoso", como lhe chamou um jesuíta espanhol, emocionou uma juventude sem lideranças, em Jornadas que ainda subsistem. Povoou os altares com mais beatificações e canonizações que todos os seus predecessores. (Também ele haveria de participar neste imparável movimento de canonizações. Em menos de 10 anos depois da morte, em 2005, haveria de ostentar o nome de santo, ao lado do papa João XXIII, fundador do Vaticano II). Fátima, além de três visitas, mereceu-lhe a beatificação de dois dos três videntes, bem como a divulgação do mais inútil dos segredos.

Poliglota iminente, invulgar comunicador em diferentes palcos, tradicional e moderno, conservador numa Igreja única, sensível à misericórdia de Deus sobre a miséria humana, um papa que se entregou, publicamente, ao sofrimento que a doença de Parkinson lhe imporia.

Com a introdução do processo de canonização dos pais que o viram nascer há um século, em Wadowice, no sul da Polónia, por longo tempo irá permanecer o radical religioso com a família do pequeno Lolek, o nome de infância de Karol Wojtyla, fadado para ser o primeiro papa polaco da história do catolicismo.

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