João Vale de Almeida: já foi capitão do Benfica, agora é primeiro embaixador da UE em Londres

Representou as águias, foi jornalista, porta-voz da Comissão Europeia, participou no G8. Agora é o primeiro embaixador da UE no Reino Unido e tem a (dura) tarefa de negociar a relação que britânicos e UE vão ter no futuro.

Um bom diplomata tem que ser "sincero, convincente, flexível e bom comunicador", mas "ter um bom cozinheiro numa embaixada é um trunfo", garantia, em 2015, João Vale de Almeida, em entrevista à Notícias Magazine. Agora, o diplomata torna-se o primeiro embaixador da União Europeia (UE) no Reino Unido.

Aos 62 anos, o novo inquilino do n.º 32 de Smtih Square - sede da representação diplomática da UE em Londres - não tem uma tarefa simples pela frente. Nos próximos 11 meses irá negociar parcerias em áreas tão diferentes como pescas, agricultura, proteção de dados, segurança ou um novo acordo de comércio.

Mas o português com mais de três décadas de experiência em cargos europeus sabe por onde começar: "A minha prioridade vai ser [dar] atenção aos direitos dos cidadãos europeus que vivem no Reino Unido, mas também, naturalmente, aos cidadãos do Reino Unido que vivem nos 27" Estados-membros da UE, admitiu, citado pela Lusa.

"A segunda prioridade é começar a construir a relação futura. Vamos iniciar negociações, provavelmente em março, com vista a essa negociação futura, um acordo entre os 27 da UE e os britânicos e aí vamos ver o que podemos pôr em cima da mesa", referiu Vale da Almeida, adiantando que a atitude da UE é de "grande disponibilidade" e de "vontade de chegar a acordos substanciais e ambiciosos".

João Vale de Almeida resume assim a tarefa: "O acordo de saída contém medidas que foram acordadas. Trata-se agora de aplicar no terreno essas medidas."

O Brexit visto desde Nova Iorque

Com o Brexit "vamos perder todos, cada um deve avaliar as suas perdas", disse à TSF Vale de Almeida, em março de 2019.

"É preciso encontrar um modelo de saída que tenha um impacto o menos negativo possível sobre a relação bilateral e que, a partir daí, possamos construir uma relação futura", comentou numa altura em que ainda era embaixador da UE junto das Nações Unidas.

"O que me parece óbvio hoje, e visto de Nova Iorque ainda mais, é que há uma necessidade absoluta e uma vontade comum de ter uma relação muito próxima e muito sólida entre a UE a 27 e o Reino Unido. Isso faz parte dos nossos interesses e corresponde aos nossos valores comuns", assegurava.

Quando, em 1989, João Vale de Almeida abandonou o jornalismo para se tornar conselheiro de imprensa da Comissão Europeia, estava longe de imaginar que viria a ocupar este cargo.

Um português no G8

Até hoje apenas dois portugueses assistiram às reuniões do G8. Um deles foi Vale de Almeida, quando entre 2004 e 2009 foi chefe de gabinete e principal conselheiro do então presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso.

Mas como é estar sentado no G8, o fórum mais poderoso do mundo? "A primeira sensação foi forte. Ser português e representar a UE no fórum mais poderoso do mundo faz mossa. Depois sentimos que, confiando nas nossas qualidades, com trabalho e com exigência, somos tão bons como os melhores", contava o embaixador à Notícias Magazine.

Quando o primeiro mandato de Barroso terminou, Vale de Almeida rumou aos Estados Unidos. Em 2010 foi nomeado embaixador da UE em Washington e de 2015 até ao final do ano passado foi o embaixador da UE junto das Nações Unidas.

Antes de tudo isto ainda trabalhou com Jacques Delors, foi diretor-geral e porta-voz da Comissão Europeia.

Dos Açores a Londres, passa-se pelo Benfica

Jogou andebol no Benfica durante vários anos e diz que sempre foi "sério, ponderado, responsável", por isso chegou capitão das águias. Liderar a equipa no pavilhão da Luz foi um momento "inesquecível", para Vale de Almeida.

O primeiro embaixador da UE no Reino Unido é um trota mundos. Nasceu em Lisboa, até aos nove anos e morou nos Açores. Aos 15, quando Portugal, era, nas palavras do embaixador, "muito fechado, pequeno e cinzento", estudou em Londres. Depois do 25 de Abril foi para Paris durante quatro meses, frequentar uma formação em jornalismo, e aos 32 anos mudou-se para Bruxelas. Morou ainda em Washington e Nova Iorque.

Talvez por isso garanta que "a diplomacia económica é evidentemente importante numa economia globalizada. Mas a diplomacia política é cada vez mais necessária. Os embaixadores não podem ser caixeiros‑viajantes. Há que usar as armas da convicção, inteligência, valores, cultura, diálogo".

Agora regressa a Londres mas, provavelmente, vai continuar a servir vinhos portugueses aos convidados.

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