Judeus alemães aconselhados a não usar quipás em público devido a antissemitismo

O aviso, deixado por um oficial alemão, vem na sequência de o Governo alemão ter reportado um crescimento das manifestações antissemitas no país.

Felix Klein, o comissário responsável pelo combate ao antissemitismo no Governo alemão, aconselhou os judeus a não usarem os quipás - pequeno barrete usado para cobrir o alto da cabeça no topo da cabeça - em locais públicos.

"O antissemitismo sempre existiu na Alemanha", explicou Klein à CNN , mas "agora está a mostrar abertamente a sua faceta mais feia. "As tensões crescentes em território alemão voltou a ascender a níveis preocupantes: "A palavra 'judeu' como insulto não era comum no meu tempo, quando eu ia para a escola. Agora é, e é até um insulto em escolas onde não há estudantes judeus."

O departamento de Klein foi criado apenas em 2018 e, no seu breve período de mandato, foi responsável pela criação de um sistema federal de denúncias de crimes de natureza xenófoba contra a comunidade judaica.

A advertência de Felix Klein vem no seguimento da publicação de um relatório por parte do Governo alemão em que o forte aumento dos ataques a judeus por todo o país se torna evidente. O Ministério do Interior da Alemanha reportou que esta tipologia de crimes aumentou 20% em 2018, e os ataques físicos passaram de 37, em 2017, para 62, em 2018. Horst Seehofer, ministro da tutela, assinalou que 90% dessas incidências foram iniciadas por elementos de partidos da extrema-direita.

Em conferência de imprensa realizada este mês, Seehofer notou que esta é "uma realidade com que temos de lidar, especialmente neste país", e lembrou que este "é um trabalho para a polícia, mas também para toda a a sociedade."

No entanto, Horst Seehofer não considera aceitável "que os judeus tenham de esconder a sua fé na Alemanha", ainda que a situação exija particular vigilância e acompanhamento.

Claudi Vanoni, um dos principais especialistas em antissemitismo da Alemanha, também acredita que a xenofobia contra os judeus continua "profundamente enraizada" na Alemanha. "O antissemitismo sempre esteve presente. Mas penso que, recentemente, se tornou novamente mais gritante e agressivo", esclareceu Vanoni à agência de notícias AFP.

Um antigo presidente do Congresso Judaico Europeu, Michel Friedman, criticou a postura de Felix Klein, e explicou ao The New York Times a sua objeção : "Quando um representante do Governo diz expressa e oficialmente à comunidade judaica que esta não se encontra segura diante do ódio em toda a Alemanha, isso é uma demonstração patética de falência do Estado de direito."

Para Katarina Barley, ministra da Justiça na Alemanha, as mais recentes agressões contra judeus são "vergonhosas para o país." "Os movimentos de direita estão a investir contra a nossa democracia e a comprometer a nossa coexistência pacífica", frisou, em entrevista ao jornal alemão Handelsblatt .

Josef Schuster, chefe do Conselho Central de Judeus da Alemanha, partilhou também a sua preocupação numa entrevista para a versão de domingo do jornal diário Welt . "Não queria dramatizar, mas, de facto, a situação piorou muito", salientou.

Já a chanceler alemã, Angela Merkel, censurou o crime antissemita na Alemanha e chegou mesmo a pedir uma abordagem de "tolerância zero" para o enfrentar. "Não queremos que volte a acontecer, e não vamos permitir que se repita", assegurou Merkel num vídeo divulgado em janeiro, após as investidas violentas de um adolescente sírio contra um jovem de 24 anos, árabe, mas israelita, que usava um quipá na cabeça, num bairro de Berlim.

Após o ataque, ativistas de todo o país organizaram uma campanha "Berlin Wears Kippa" (Berlim usa quipá), na qual autarca da cidade, Michael Müller, associou o acessório a uma representação da tolerância."Hoje, o quipá é um símbolo da cidade de Berlim que gostaríamos de ter", assegurou Müller.

A mesma perspetiva de combate foi difundida por Angela Merkel. "As gerações mais novas devem saber o que a Humanidade foi capaz de fazer no passado, e trabalhar de forma proativa para que não se volte a tornar real", asseverou a estadista alemã, numa clara referência à perseguição de há quase 75 anos que vitimou seis milhões de judeus durante a II Guerra Mundial.

O funcionário federal Felix Klein lamenta, por seu lado, que tenha sido levado a alterar a sua posição, o que instigou um debate a nível nacional sobre o equilíbrio entre a segurança e a liberdade religiosa. "A minha opinião infelizmente mudou. Já não posso dizer aos judeus que usem quipás sempre que queiram e em todos os lugares", acrescentou. Esta situação deve-se, na perspetiva do oficial do alemão, a um aumento da "desinibição social para se ser desagradável", e à internet e redes sociais, onde se pratica "ataques contínuos à nossa cultura coletiva e à nossa memória."

Em alerta para possíveis ataques, Felix Klein solicitou também que a polícia e outros oficiais obtivessem treino específico para o combate a crimes xenófobos desta natureza. No entanto, há "muita controvérsia entre a polícia e os funcionários do Governo sobre como lidar com o antissemitismo", revelou. Isto porque, segundo o comissário, muitos funcionários não sabem o que é e o que não é permitido, pelo que a polícia, advogados e investigadores foram consultados para a definição de "comportamentos inaceitáveis."

O alerta do funcionário do Governo alemão tem sido amplamente criticado como uma restrição à liberdade de expressão e religiosa. Richard Grenel, embaixador norte-americano na Alemanha, argumentou, na sua conta de Twitter, que o posicionamento deveria ser o contrário: usar o quipá e mobilizar os amigos e os vizinhos para que façam o mesmo, em nome de uma sociedade diversificada.

Cerca de 200.000 judeus vivem na Alemanha, depois de terem regressado da Europa Oriental e da Rússia aquando da queda da URSS.

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