Junta birmanesa é uma "sociedade criminosa"

Relator da ONU considerou ser "inaceitável" não "haver uma resolução do Conselho de Segurança a impor um embargo total de armas".

A junta militar birmanesa é uma "sociedade criminosa", disse esta terça-feira um relator da ONU, anunciando a publicação em breve de um relatório sobre a proveniência das armas que continuam a entrar no país, um ano após o golpe.

"A junta militar funciona como uma sociedade criminosa, cometendo assassínios, torturas, sequestros, deslocamentos forçados, enquanto rouba receitas e apreende propriedades que por direito pertencem ao povo de Myanmar", acusou o relator das Nações Unidas para Myanmar (ex-Birmânia), o norte-americano Thomas Andrews.

"Os seus ataques continuam repetidamente. O sofrimento do povo da Birmânia continua a aumentar", denunciou, referindo que o povo birmanês "merece um apoio mais forte da comunidade internacional".

Andrews considerou ser "inaceitável" não "haver uma resolução do Conselho de Segurança a impor um embargo total de armas um ano após [o golpe de Estado]", assinalando que "as armas continuam a chegar à junta e a matar pessoas inocentes".

"O povo de Myanmar merece mais das Nações Unidas", disse o relator num comunicado.

Andrews, que é mandatado pelo Conselho de Direitos Humanos, mas não se expressa em seu nome, planeia publicar um relatório "em breve" que irá clarificar a origem das armas que a junta militar birmanesa, no poder há um ano, continua a receber.

Em 01 de fevereiro de 2021, os militares birmaneses derrubaram a líder civil Aung San Suu Kyi, encerrando uma década de transição democrática e praticando uma repressão sangrenta no país.

"Nos últimos meses, testemunhamos uma nova escalada de violência e uma campanha de terror agora generalizada em todo o país", disse Andrews.

O relator da ONU disse que recebeu "novos relatos de massacres, ataques a hospitais e alvos humanitários, além de bombardeamentos e incêndios em aldeias".

Pelo menos 1.503 pessoas morreram em Myanmar em resultado da repressão brutal das autoridades birmanesas na sequência do golpe de estado militar que faz hoje um ano, de acordo com dados da organização não-governamental Associação de Assistência aos Presos Políticos (AAPP).

O golpe mergulhou o país numa profunda crise política, social e económica, e abriu uma espiral de violência com novas milícias civis.

A ONG também referiu que 11.838 pessoas foram detidas desde o golpe, dos quais 8.835 ainda estão presos e 661 foram condenados a penas de prisão por um tribunal, incluindo a líder deposta Aung San Suu Kyi.

A magistratura birmanesa condenou também 45 pessoas à morte, incluindo dois menores, embora nenhuma tenha ainda sido executada.

O exército justifica o golpe com uma alegada fraude durante as eleições gerais de novembro de 2020, que o partido de Suu Kyi venceu, como em 2015, com o aval de observadores internacionais, mas cujo resultado foi anulado.

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